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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Mitologia



Por que trabalhar os mitos gregos?
Quem já teve a experiência de trabalhar História Antiga em sala-de-aula, certamente constatou uma dificuldade: a distância temporal e espacial dessa temática em relação aos nossos alunos do ensino fundamental, especialmente na 5ª série, que é o momento de aplicação desse conteúdo.
Esta oficina visa encurtar a distância e o estranhamento, despertar o interesse dos alunos e tornar possível o entendimento de alguns conceitos inerentes ao tema. Para isso propõe concretizar ao máximo o conteúdo, através de atividades que busquem naturalizá-lo, trazendo para a experiência do aluno o universo mental e cultural dos gregos antigos.
O poder de sedução da mitologia grega encontra grande repercussão entre crianças e jovens, falando diretamente ao seu gosto pelo lúdico e pela criatividade. O enfoque na narrativa oral auxiliará esta identificação, propiciando, ao mesmo tempo, a compreensão sobre a importância da palavra falada para a construção da história e da cultura nas civilizações antigas.
Elisa Goldman.
As cidades-estado gregas
A Grécia Antiga, chamada de Hélade pelos gregos, se localizava no sul da Península Balcânica, ocupando as ilhas do Mar Egeu e Jônio e o litoral da Ásia Menor. Esta civilização estava dividida em cidades-estado com um certo grau de independência política. Apesar da fragmentação política do mundo grego, as várias cidades-estado reconheciam-se como partes de uma mesma unidade cultural, com língua, costumes e valores comuns. Essa comunidade cultural formava uma civilização, ao qual se contrapunha o mundo "bárbaro".



Em toda cidade-estado grega havia espaços comuns a todos os grupos sociais e outros reservados aos grupos que eram, de alguma forma, diferenciados.
Todas as pessoas frequentavam o mercado e o teatro. Já a assembleia era reservada apenas aos que eram cidadãos, ou seja, homens livres descendentes de pessoas nascidas na cidade. O conselho e os tribunais eram reservados aos eleitos para suas funções, embora todo cidadão pudesse sê-lo. O estádio era frequentado por homens adultos e jovens com mais de 12 anos que tivessem tempo livre para praticar esportes. Todos esses lugares ficavam na parte baixa da cidade, a ágora.
No interior dos templos não eram admitidos fiéis. Eles deviam ficar do lado de fora, onde eram feitos os sacrifícios, e só através da porta de entrada podiam entrever a estátua do deus. Apenas os sacerdotes e os funcionários ocupavam o espaço do interior dos templos, que, em sua grande maioria, se localizavam na acrópole, local mais alto onde, nos períodos Micênico e Homérico, se situavam também os palácios dos reis e residia a comunidade. Com o crescimento da população, as regiões mais baixas foram sendo ocupadas e a acrópole ficou reservada às funções religiosas.
O que é Mitologia?
Os mitos fazem parte da tradição oral de um povo, ou seja, são narrativas que usam a palavra falada para transmitir e comunicar o modo de pensar desse grupo, preservando a memória e garantindo a continuidade de sua cultura.
As narrativas são passadas de geração a geração pelos contadores de histórias, principalmente os anciãos e poetas. Uma mesma história mítica pode surgir em diferentes versões, porque com o passar do tempo o mito é permanentemente recriado.
Alguns dos mitos gregos referem-se aos contatos e encontros amorosos entre os deuses e os seres humanos, dos quais nasciam os heróis. Um exemplo clássico é a História de Hércules (nome dado pelos romanos ao herói de força descomunal que em grego se chamava Héracles).

Baú de ideias:
Mito da origem do mundo - Teogonia - Hesíodo
Trabalhar a ideia de pluralidade cultural mostrando a existência de diversas cosmogonias. Sendo a Teogonia uma delas.
A narrativa da origem do mundo, segundo os gregos, a partir da versão de Hesíodo, no poema Teogonia (isto é, "nascimento dos deuses"):
Primeiro nasceu o Caos, a existência indistinta; depois nasceram a terra (Gaia) e Eros. [...] Caos gerou a Noite, que gerou o dia. A Terra gerou o céu (Urano), as Montanhas e o Mar; uniu-se ao Céu (Urano) e gerou os Titãs, Reia, Têmis, memória, os Cíclopes, fabricantes do raio, os Gigantes, de cinquenta cabeças e cem braços, e cronos, o tempo. [...]
[...] Guiados por Eros, os deuses se reproduzem: há os filhos da noite, entre os quais estão a Morte, o Sono, os Sonhos e as Parcas, divindades do destino, de cujos desígnios nem os deuses escapavam, que eram três; Fiandeira, Distribuidora e Inflexível, e a linhagem do mar: Nereu e as várias Nereidas, suas filhas Espanto, Ceto, entre vários outros.[...]
O Céu detestava os filhos, e escondia -os na Terra; até que ela, atulhada, criou uma foice e deu-a a seus filhos, para que castrassem o pai. Todos ficaram com medo, mas Cronos aceitou a missão, e, ao entardecer, quando o céu se deitava junto com a terra, a cumpriu. [...] A partir daí começa o domínio da segunda geração de deuses, encabeçados por Cronos. Cronos sabia que ía ter um destino semelhante ao de seu pai, ser destronado por um de seus filhos; então os engolia à medida que iam nascendo do ventre de Reia. Foi assim com Hera, Deméter, Héstia, Hades e Posêidon; quando Zeus nasceu, Reia deu uma pedra para Cronos engolir e escondeu o filho, que cresceu e cumpriu o destino de destronar o pai. Como ele fez isso não é dito; mas fez Cronos vomitar seus irmãos. Depois disso, aliado aos outros deuses e aos gigantes, derrotou os Titãs numa guerra terrível, na qual os deuses se aliaram aos Gigantes, filhos da Terra.
O domínio de Zeus marca a terceira geração de deuses. Ele repartiu o mundo com seus irmãos, Posêidon e Hades. Essa geração teve muitos filhos. De Zeus e Deméter nasceu Perséfone: de sua união com Memória nasceram as musas; com Leto, Apolo e Artêmis; com hera, ares Hebe e Ilítia; com Maia, Hermes; com Sêmele, Dioniso. Mas a primeira esposa de Zeus, Métis, a astúcia, foi engolida por ele, porque estava destinada a dar à luz dois filhos: um era Atena, e o outro seria aquele que destronaria seu pai. Zeus engoliu Métis e ficou astucioso, e gerou Palas Atena, que nasceu da sua cabeça.

A importância da tradição oral para a civilização grega
Devemos historicizar a disseminação da tradição oral entre os gregos. Essa questão é o cerne da reflexão que vamos propor na atividade em torno da Odisseia, de Homero.
"Historicizar" a tradição oral não significa localizar o aparecimento da escrita como um marco mais evoluído do ponto de vista linear. É bom lembrar, também, que o processo histórico não produz apenas mudanças, ele é constituído também de permanências.
Para compreendermos o lugar da tradição oral na cultura grega é preciso retomar o momento da entrada dos Dórios na Península Balcânica. Este povo indo-europeu foi responsável pela destruição da civilização Micênica e pela ocupação de Esparta na região do Peloponeso. Nesse contexto, a escrita caiu em desuso e houve uma significativa redução da vida urbana e do comércio. Muitos Aqueus fugiram para as ilhas do Mar Egeu e para as costas da Ásia Menor, onde fundaram várias cidades. Após as invasões dóricas, o conhecimento sobre a civilização Micênica passou a ser transmitido apenas por tradição oral pelos Aedos (cantores e poetas inspirados pela musa, que os impelia a cantar a glória dos homens). Estes percorriam a Grécia narrando fatos e histórias da época Micênica. Os aedos recorriam às repetições, que facilitavam o processo de memorização. Destituída do suporte da escrita, a memorização estava reduzida à simples transmissão oral.
É preciso atenuar as conquistas da escrita nas províncias do mundo grego. Devido à relativa raridade do objeto livro e ao pequeno número de letrados, os livros eram mais escutados do que lidos. Os filósofos, os médicos, os historiadores, todos se dedicavam a recitações públicas. O livro era escrito no interior de um amplo sistema cultural, cuja transmissão continuava a se fazer de forma oral e auditiva. A cultura tradicional nunca precisara da escrita para se fazer ou se dizer, pois se encontrava na memória comum a toda comunidade, seus princípios de organização e suas modalidades de aprendizagem.
Provavelmente, certas sociedades, mais do que outras, preocupam-se em colocar em ação meios não escritos de fixar sua tradição, seja confiando-a parcialmente aos profissionais da memória - virtuoses dos procedimentos mnemotécnicos - seja assegurando, por meio dos rituais, uma repetição regular, senão imutável, das palavras, das narrativas ou dos cantos litúrgicos.
Essa necessidade de sempre redizer e repetir é que confere à oralidade o seu modo próprio de criação.
A produção oral, por sua vez, se não for recebida imediatamente, captada por ouvidos atentos e salva do silêncio que a espreita desde o primeiro momento, acaba condenada ao esquecimento, destinada ao desaparecimento imediato, como se nunca tivesse sido pronunciada. Para poder penetrar e tomar seu lugar na tradição oral, uma narrativa, uma história ou qualquer obra falada deve ser entendida, isto é, deve ser aceita pela comunidade.
Baú de ideias
Os aedos
No canto VIII da Odisseia, o rei dos Feaces prepara-se para receber com as honras devidas um hóspede desconhecido. Na verdade, trata-se de Ulisses, arrastado pela tempestade até as suas praias. Ulisses penetra então na sala onde se desenrola o festim, para o qual foram imoladas “doze ovelhas, oito porcos de presas brancas e dois pacíficos bois”. Em seguida chega o aedo que o rei mandara buscar: “Um arauto adiantou-se, conduzindo o fiel aedo a quem a musa, por o amar, dera bem e mal: privara-o de visão ao matar-lhe os olhos, mas em troca tornara assim mais doce a suavidade do seu canto. Pontíono ofereceu-lhe um assento no meio dos convivas, um banco com pregos de prata, encostado a uma coluna. Depois de dependurar a lira pontiaguda por sobre a cabeça, suspensa de um gancho, mostrou-lhe como a tomar nas mãos. Colocou depois uma mesa ao seu alcance, uma mesa com um cesto de frutas e uma taça de vinho para que pudesse comer e beber sempre que o desejasse. Após isso, todos eles se serviram das iguarias oferecidas. Uma vez apaziguada a sede e satisfeito o apetite de quantos ali estavam, a musa impeliu-o a cantar a glória dos homens e, numa narrativa cuja fama chegava então aos céus, falou da contenda entre Ulisses e Aquiles, filho de Peleu...”. (Odisseia, p. 62 sqq) [pág.20 – O aedo e seu público – Claude Mossé].
O aedo, esse cantor inspirado pela musa, que anda de mansão em mansão evocando os altos feitos da guerra de Troia acompanhado da sua lira, não poderia ser o próprio Homero? Os aedos, movendo-se num mundo de que a escrita viera a desaparecer, faziam-no para nobres que, muito embora igualmente iletrados, não deixavam por isso de ser os detentores do poder e da riqueza.

Sobre livros e textos
Para uma reflexão mais refinada sobre a centralidade da tradição oral no contexto grego é indicada a leitura do capítulo “Pela boca e pelo ouvido”, in: A Invenção da Mitologia, de Marcel Detienne.
O artigo “O Narrador”, de Walter Benjamin, analisa a extinção progressiva da experiência de narrar. A difusão do saber oral, distante espacialmente ou temporalmente, não carece da confirmação através da experiência, diferentemente do que acontece com a informação. A Autoridade do saber não está no testemunho nem nas provas factuais, e sim na crença que o cerca. Walter Benjamin parece nostálgico ao afirmar que a Modernidade inaugura a substituição da narrativa pela informação.

Um pouco da História dos deuses
Vamos tentar localizar a mitologia no interior da sociedade grega, ou seja, compreender o que ela representa para os gregos.
Os gregos eram politeístas: acreditavam em diversos deuses. Os deuses tinham uma importância central na sua história, eram vistos como senhores da terra e do céu, habitantes do Monte Olimpo. Os deuses eram todos antropomorfos: tinham forma, sentimentos, virtudes e fraquezas humanas. Além da crença nos deuses, as almas dos antepassados também eram cultuadas pelas famílias, através de uma série de rituais que ficavam a cargo das mulheres.
Zeus, o chefe supremo da família dos deuses, casou-se com Hera. Desse casamento nasceram novos deuses, cada qual personificando um elemento ou um fenômeno da natureza: Hermes era a chuva e também o mensageiro dos deuses; Apolo, um jovem muito belo, personificava o sol; Artêmis era a deusa da lua, representada como caçadora; Deméter era a terra fértil, que produzia as colheitas e alimentava os homens; Perséfone era a semente; Dionísio o deus das vinhas.
A todos esses deuses ofereciam-se sacrifícios de animais, cerimônias, festas e jogos. Os jogos mais famosos da Grécia, as Olimpíadas, realizavam-se de quatro em quatro anos na cidade de Olímpia, em homenagem a Zeus. Ali, atletas de todas as cidades gregas participavam de várias competições: salto, corrida, luta, arremesso de dardo e de disco. O atleta vencedor, quando voltava à sua cidade, recebia honras de herói, ficava livre do pagamento de impostos e tinha um lugar especial nas festas públicas. Todos os atletas competiam completamente nus. O espetáculo dos jovens se movimentando era apreciado pela beleza. Entretanto, as mulheres não participavam dos jogos olímpicos. Estes eram tão importantes para os gregos que durante sua ocorrência as guerras deixavam de acontecer. Os gregos também contavam o tempo pela Olimpíada. A primeira Olimpíada ocorreu em 776 a. C., data considerada o ano 1 da Grécia Antiga.

Primeira atividade
Sugerimos que você institua 15 minutos de Mitologia por aula. Reúna os seus alunos numa roda no pátio da escola e conte um mito. Você pode começar pelo mito do Minotauro, que retrata a origem do mar Egeu e se relaciona com a própria origem da Grécia.
Quando acabar, peça aos seus alunos que recontem o mito, oralmente. Depois, é o momento de perguntar se ele foi contado de maneira idêntica à primeira narração (feita por você). Ao perceber que houve algumas diferenças no recontar, temos a brecha para discutir a construção da memória, que pressupõe seleção, idealização e a própria História enquanto representação...
A experiência pode ser repetida durante todo o período em que está sendo discutido o tema Grécia Antiga.
Sugerimos, como segundo mito a ser contado, o Mito de Perseu, que se tornou o rei de Micenas, importante cidade-estado da Grécia Antiga. Desta vez, além da experiência do recontar, a atividade pode incluir o registro escrito da versão dos alunos, que pode acontecer na forma de uma narrativa convencional ou em outros formatos sugeridos por eles, como história em quadrinhos. No caso do público ser de 5ª série isso significa um espaço lúdico muito estimulante, além de proporcionar a concretização da História através dos desenhos.
Na segunda parte da oficina, vamos propor uma atividade em torno da Odisseia, de Homero.

A odisseia de Homero
Trabalhando os Tempos Homéricos na Grécia Antiga
Quatro séculos depois do desaparecimento da Civilização Micênica, algumas histórias foram reunidas por um poeta grego chamado Homero. Segundo a lenda, Homero seria um aedo cego que, devido a essa deficiência, teria o dom de ver o mundo sobrenatural.
Os registros de Homero deram origem a duas obras que são as mais importantes fontes de conhecimento do mundo grego: a Ilíada e a Odisseia. Ainda hoje, há quem discuta se os dois livros são obra do mesmo poeta e se de fato Homero teria existido. Fusões de fatos históricos com mitos gregos, a primeira retrata a Guerra de Troia e a segunda conta a história de Odisseu (ou Ulisses), rei de Ítaca, e sua dificuldade de retornar à ilha após sua participação na Guerra de Troia.

Guerra de Troia
A história da Guerra de Troia se relaciona de maneira estreita à própria história do retorno de Ulisses a Ítaca. Ulisses, como rei de Ítaca, teria sido chamado a colaborar no resgate de Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta.
Troia era uma cidade grande, fortificada e muito rica. O rei desta cidade, Príamo, teve muitos filhos, entre eles Páris, que segundo um oráculo iria colocar fogo em Troia. O rei, ao saber o que os oráculos previam, resolveu abandonar o menino numa montanha próxima, onde ele seria devorado pelos lobos. O menino acabou sendo resgatado por um casal que se responsabilizou por sua criação.
Anos mais tarde, na morada dos deuses, o Olimpo, houve uma grande festa. Quase todos os deuses foram convidados, com exceção de Éris, deusa da discórdia, para evitar que ela levasse conflitos para a festa. Éris entrou na festa e lançou sobre a mesa um bilhete onde estava escrito "A mais bela!". As deusas do Olimpo eram extremamente vaidosas e por isso começaram a competir para ver quem era a mais bela. Por fim permaneceram apenas três deusas na competição, Hera, a esposa de Zeus, Palas Atena, que havia saído da cabeça de Zeus, e Afrodite, filha de Zeus.
Como Zeus não queria se incumbir do desempate, convenceu as candidatas a chamarem um mortal, Páris, filho de Príamo, o poderoso rei de Troia, para decidir. As deusas resolveram subornar o mortal oferecendo poder, sabedoria e a mulher mais bela do mundo. Esta dádiva havia sido oferecida por Afrodite e foi aceita imediatamente por Páris. A mulher mais linda da terra era Helena, casada com Menelau, rei de Esparta. Páris, ajudado por Afrodite, sequestrou Helena, levando-a para Troia.
Quando Helena foi sequestrada, Menelau apelou a todos os reis da Grécia para que o ajudassem a resgatá-la. Formou-se então um enorme exército, pois cada rei levou seus soldados. E todos, chefiados por Agamenon, que era irmão de Menelau, dirigiram-se a Troia para buscar Helena de volta. A guerra durou dez anos, porque os deuses ora ajudavam os gregos, ora ajudavam os troianos.
Entre os reis gregos que sitiaram Troia estava Ulisses, o mais astuto de todos. Este planejou a construção de um cavalo de madeira e no interior dele acomodou os guerreiros valentes. O cavalo foi colocado nos portões de Troia, como se fosse um presente. Os soldados dissimularam sua saída fazendo os troianos acreditarem que a guerra havia acabado e que o presente era uma prova disso. O cavalo era tão grande que foi preciso derrubar uma parte da muralha para colocá-lo ali dentro.
Todos os troianos beberam para comemorar, ficaram muito cansados e foram dormir. Nesse meio tempo os gregos que estavam no interior do cavalo saíram e se juntaram aos soldados que atravessaram a brecha aberta na muralha. Os gregos se espalharam pela cidade matando os troianos e libertando Helena, que foi levada de volta para Esparta.

Contando e recontando a Odisseia
É importante que a Odisseia não apareça num registro escrito, embora saibamos da existência de várias versões escritas para a obra. A grande questão é promover uma vivência, realizar com os alunos uma experiência oral. Reúna os alunos numa roda, no pátio externo da escola ou mesmo na sala, e procure contar a História da Odisseia numa linguagem bem acessível. Após esse momento peça para os alunos para recontar a História. Certamente eles levantarão questões sobre as dificuldades de memorizar todos os detalhes da história. O importante não é decorar os detalhes mas é lembrar do processo como um todo e recontar para os outros acrescentando ou diminuindo, acima de tudo selecionando informações.
A atividade pode levar a uma reflexão sobre as diferenças entre o registro escrito e a história contada oralmente. Além disso, o fascínio que as aventuras de Ulisse certamente despertarão ajuda a aproximar as crianças do universo mítico e da organização social da Grécia Antiga.
O resultado final dos encontros para contar e recontar a Odisseia pode assumir diversas formas: apresentações teatrais (o que abriria a oportunidade de estudar as origens do teatro grego), histórias em quadrinhos, um mural ilustrado, entre outras possibilidades.
Caso os alunos estejam motivados, vocês podem pesquisar outros mitos gregos e prosseguir com a atividade de contar e recontar indefinidamente, o que em muito contribuirá para a capacidade de memorização, expressão, leitura e escrita dos alunos, além de abrir caminho para o trabalho de inúmeros outros temas, como a cidadania, a política, a filosofia, a arte, etc.
Vamos agora conhecer a Odisseia.

Odisseia - A disputa dos pretendentes
Dez anos após o término da Guerra de Troia, os soldados, generais e comandantes já haviam retornado para casa. Só o guerreiro Ulisses não conseguia retornar à ilha de Ìtaca, onde lhe esperavam sua mulher Penélope e seu filho Telêmaco, já com 20 anos. Os deuses faziam de tudo para adiar esta volta ou mesmo impossibilitá-la. Palas Atena, ao perceber que Hélio (Deus do sol) e Poseidon (Deus das águas) estavam envolvidos na elaboração de obstáculos que visavam impedir a viagem de Ulisses, resolveu fazer uma reunião no Olimpo para discutir o caso. Chegando a um consenso com alguns deuses, inclusive Zeus, resolveu ajudar Ulisses a voltar para casa.
Palas Atena dirigiu-se a Ítaca para ajudar Telêmaco, que tinha que afastar os inúmeros pretendentes de Penélope, mulher de Ulisses, dado como morto pelos pretendentes que estavam de olho no trono de Ítaca e na sua bela mulher. A deusa disfarçou-se de Mentes, rei dos Táfios, e entrou no palácio logo após uma grande comilança realizada pelos pretendentes.
Telêmaco estava cansado de sustentar os pretendentes com banquetes. Palas Atena transmitiu ao filho de Ulisses a certeza de que o pai estava vivo e disse-lhe que ele deveria divulgar isso aos príncipes para convencê-los sobre a necessidade de buscá-lo. Telêmaco dirigiu-se aos habitantes de Ítaca na ágora para comunicar que precisava da ajuda de todos para resolver um problema que o afligia. Descreveu a situação que estava vivendo: os pretendentes de sua mãe não saíam de sua casa, não paravam de consumir seus rebanhos e vinhos.
Os pretendentes, por sua vez, ouviram a queixa e acusaram Penélope de adiar a escolha com o pretexto de terminar um manto para o seu sogro. Essa costura já levava 4 anos e não se concluía porque Penélope desfazia tudo que costurava durante a noite. Sendo assim, os pretendentes afirmaram que permaneceriam na casa de Ulisses até sua mulher decidir aceitar um dos homens. Exigiam que Penépole voltasse para a casa de seu pai, e de lá sairia com um dos pretendentes. Telêmaco respondeu que não podia mandar sua mãe embora, e que eles é que tinham que sair da casa, que fossem banquetear-se uns na casa dos outros. Se continuassem com essa atitude, ele iria pedir a Zeus que os castigasse.
Haliterses, um velho herói que costumava fazer profecias, dirigiu-se especialmente aos pretendentes e contou que Ulisses, que ficou tanto tempo fora, estava voltando e que o herói deveria estar tramando vingança contra os que tentaram tomar-lhe a mulher e arruinar sua casa. "Quando Ulisses partiu, eu previ que ele levaria vinte anos para voltar. Minhas profecias vão se cumprir agora."
Ao perceber a ira dos pretendentes, Telêmaco tomou a iniciativa de reunir uma embarcação com tripulação, para que pudesse dirigir-se a algumas cidades próximas, pois ele ainda queria tentar saber notícias de seu pai. Nesse momento Telêmaco pediu ajuda a Atena, que seria sua protetora. Atena prometeu ajudá-lo. O filho de Ulisses resolveu manter segredo sobre sua ida.
Atena, disfarçada de Telêmaco, disponibilizou um barco com remadores, fez com que os pretendentes dormissem pela cidade e embarcou sua tripulação.
Mal amanheceu, o barco já se encaminhava para Pilo, onde havia uma grande festa em que animais eram sacrificados em honra dos deuses. Os sacrifícios eram sujeitos a regras, o jeito de matar os animais, os pedaços que deviam ser servidos, tudo isso era dedicado aos deuses. Telêmaco e Atena se apresentaram e justificaram sua presença ali para buscar notícias de Ulisses. Nestor, o rei do lugar, contou a Telêmaco sobre as dificuldades que os participantes da guerra estavam encontrando para voltar, e sugeriu que este fosse a Esparta (Lacedemônia) encontrar Menelau, que talvez tivesse notícias de Ulisses. Foi o que fez Telêmaco.
Menelau contou-lhe que, através de contatos com Proteu, servo de Poseidon, soube que Ulisses estaria vivo, preso na ilha da ninfa Calipso, sem navio e companheiros, sem poder voltar ao mar. Enquanto isso, em Ìtaca, os pretendentes ficaram furiosos quando souberam da viagem de Telêmaco. Eles tramavam uma cilada para Telêmaco quando um arauto fiel de Penélope escutou toda a conversa e resolveu contar à rainha.

Odisseia - As dificuldades do retorno de Ulisses
Os deuses estavam reunidos discutindo o destino de Ulisses. Atena saía em sua defesa dizendo o quanto ele tinha sido bom para todos em Ítaca, e que não era justo que ele encontrasse dificuldades em voltar para casa. Zeus então mandou um recado para que Ulisses fosse libertado. Esse recado seria mandado por Hermes. Calipso então comunicou a a Ulisses que ele deveria construir uma jangada e partir. Deu-lhe ainda o linho para confeccionar a vela e, quando a jangada ficou pronta, colocou nela vinho e alimentos. Ulisses levantou a vela e, com os olhos nas estrelas que o guiavam, partiu. Ulisses navegou dezessete dias. No décimo oitavo dia, divisou os montes da costa da terra dos Feácios. Mas Poseidon, que neste momento vinha voltando da África, onde tinha ido receber um sacrifício, de longe conseguiu enxergar a jangada de Ulisses. Já sabemos que Poseidon tinha horror a Ulisses. Chamou então as nuvens e os ventos e com o tridente agitou o mar. Em poucos minutos fez cair uma tempestade terrível.
Entretanto, do fundo do mar uma deusa chamada Leocótea viu o que estava acontecendo e teve pena do nosso herói. Tomou a forma de uma gaivota, decerto para não ser vista por Poseidon, e pousou numa trave da jangada. Disse então a Ulisses que despisse a roupa que ele vestia, pois estava muito molhada e pesada, pusesse no peito um manto que ela lhe emprestou e então se atirasse na água e nadasse até a terra.
Ulisses tinha chegado à terra dos Feácios, cujo rei era Alcino. Por manipulação dos deuses, Ulisses acabou protegido por Nausícaa, filha do rei. Ulisses foi recebido no palácio com as honrarias de um visitante. As escravas lavaram suas mãos e lhe ofereceram bebidas e comidas. Alcino, como todos os gregos naquela época, sempre que via um estrangeiro ficava imaginando se ele não seria um dos deuses, e por isso o tratava muito bem. Mas Ulisses disse que não passava de um mortal e que seu maior desejo era voltar para casa. Prepararam um leito para Ulisses e foram todos dormir.
No dia seguinte, Alcino convocou a população para ajudar a montar um navio para embarcar Ulisses, que omitia sua identidade. Quando houve a realização dos jogos e posteriormente as comemorações, o aedo começou a contar a história do cavalo de Troia, o que acabou emocionando muito Ulisses. Ele então foi questionado sobre o porquê da comoção, e resolveu contar sua história.
Contou que era Ulisses, filho de Laertes e rei da ilha de Ítaca, aquela que se avista de longe. Contou como lutou em Troia, ao lado do exército grego. Após algumas vitórias a sorte mudou, eles foram derrotados e tiveram que fugir nos navios. Acabaram chegando num lugar muito estranho onde as pessoas comiam flores de lótus e eram chamadas de lotófagas. Essas flores provocavam uma sensação tão grande de felicidade que alguns homens, depois de comê-las, acharam ótimo e não quiseram mais ir embora. Ulisses mandou prendê-los dentro dos navios e tratou de sair daquele lugar.
Passaram pela ilha dos Cíclopes, gigantes enormes de um olho só que viviam em cavernas sem que precisassem plantar nada, pois tudo crescia nesse lugar. Ulisses resolveu se aproximar de uma caverna habitada por um Cíclope. Quando o gigante apareceu, trazia seu rebanho e um enorme feixe de lenha que arremessou no chão apavorando os homens de Ulisses. Este clamou pela clássica hospitalidade dos gregos aos estrangeiros. O Cíclope ironizou o pedido de hospitalidade dizendo-se mais forte do que os deuses e perguntou onde estava a nau que os trouxera. O gigante devorou dois marinheiros e atirou-os ao chão além de prender os companheiros de Ulisses numa caverna. Quando amanheceu, o gigante acordou, acendeu o fogo, ordenhou suas ovelhas e cabras e agarrou mais dois homens e os devorou. Ulisses então pensou num plano para matar o Cíclope. Descobriu num canto um tronco de oliveira que estava secando. Cortou um bom pedaço e pediu aos companheiros que o descascassem. Aguçou a extremidade e endureceu a ponta no fogo. Escondeu então essa arma no meio do estrume que havia no chão. Quando o monstro chegou, fez tudo como tinha feito na véspera, inclusive devorar mais dois homens. Ulisses lhe ofereceu canecas de vinho e disse para o monstro que se chamava Ninguém. O monstro decidiu que graças ao vinho Ninguém seria o último a ser devorado. O Cíclope estava bêbado e dormiu profundamente. Ulisses e seus homens desenterraram com força o espeto, colocaram-no no fogo até que ficou em brasa. Então, todos juntos, enterraram-no no olho do Cíclope. O gigante começou a berrar de dor e a chamar todos os gigantes da ilha para que o socorressem. Quando o Cíclope se referiu a Ninguém como o responsável pelo ataque, seus companheiros não entenderam nada. O monstro, louco de dor, retirou a pedra que fechava a gruta e sentou-se na saída, estendendo os braços em todas as direções para que nenhum deles fugisse. Ulisses amarrou as ovelhas e as cabras de três em três e debaixo de cada grupo de animais prendeu um de seus homens. Foram todos saindo até o navio. Além de assumir ter sido ele o responsável pelo ferimento do Cíclope, Ulisses gritou que este havia abusado da hospitalidade devorando seus homens e que Zeus o faria pagar por seus pecados. O gigante respondeu dizendo já saber da antiga profecia de que perderia a visão por culpa de Ulisses. O gigante pediu a Poseidon que não permitisse a volta de Ulisses, mas os deuses intercederam a favor do herói.
Depois de navegar durante alguns dias, os viajantes chegaram a Eólia, ilha flutuante onde morava Éolo, guardião dos ventos, e sua grande família. Ulisses e seus homens foram muito bem recebidos e lá ficaram durante um mês. Quando resolveram partir, Èolo deu a Ulisses um enorme odre de couro onde estavam guardados todos os ventos perigosos, para evitar que a viagem fosse mais retardada ainda. Enquanto Ulisses dormia, seus companheiros, desconfiados dos segredos que Ulisses guardava, resolveram abrir o odre. Liberados, os terríveis ventos causaram uma tempestade que levou o navio novamente para a ilha Eólia. Desta vez, Éolo os expulsou alegando que não daria ajuda a homens detestados pelos deuses.
Passaram pela ilha dos Lestrigões, depois pela ilha Eeia, onde vivia uma misteriosa feiticeira dotada de linguagem humana, Circe. O contato de Ulisses com Circe durou um ano. Circe disse a Ulisses que antes de voltar a Ítaca ele deveria ir ao inferno consultar o cego Tirésias, único morto a quem Perséfone consentia que visse o futuro dos homens. Ulisses deveria interrogar Tirésias para saber o que lhe iria acontecer. Ulisses ficou temeroso com essa visita, apesar de Circe ter dado todas as coordenadas de como deveria agir. Todo o ritual foi feito. O adivinho apareceu, reconheceu Ulisses e fez as previsões para o futuro. Estas apontavam para as dificuldades no retorno à casa porque Poseidon estava furioso com Ulisses por este haver cegado Polifemo, filho de Poseidon.
O cego afirmou: "Tu e teus companheiros poderão chegar à pátria se não perturbarem os bois e os carneiros de Apolo, o Sol. Mas, se maltratarem os animais dele, embora tu escapes da morte, vais prender todos os seus companheiros. E vais chegar a teu lar em navio estranho e em tua casa encontrarás problemas."
Terminada a divulgação da profecia, Ulisses e seus homens retornaram à ilha de Circe. Embarcaram e se aproximaram da ilha das sereias. As sereias eram criaturas que atraíam os marinheiros com suas vozes maravilhosas. Todos os que passavam perto delas acabavam se atirando ao mar, enlouquecidos pelo seu canto, e morriam afogados. Ulisses amassou com as próprias mãos uma boa porção de cera, que foi amolecendo graças com a ajuda do calor do sol. Tapou com a cera os ouvidos dos marinheiros. Mas antes pediu-lhes que, depois que estivessem com a cera no ouvido, amarrassem Ulisses bem forte no mastro, já que ele não teria vedado os ouvidos.
Após essa provação, Ulisses teve que passar pelos rochedos de Cila e Caríbdes. Entre as rochas havia uma caverna habitada por um monstro de seis cabeças, Cila. Quando passava algum navio, Cila devorava quantos marinheiros pudesse. Remando com vontade acabaram passando pelos perigos das rochas e seu monstro. Logo chegaram à ilha dos rebanhos do deus Hélio. Como sabemos, a profecia de Tirésias indicava perigo caso acontecesse alguma coisa com os animais de Hélio. Devido às tempestades, o barco deveria permanecer um mês na ilha à espera que o vento diminuísse. Os homens começaram a sentir fome e a primeira coisa que imaginaram foi comer a carne de um animal do rebanho sagrado. Quando Ulisses acordou o mal já estava feito. Os deuses se vingaram enviando ventos, varrendo os instrumentos de navegação, quebrando os cabos do mastro, ferindo o piloto e atirando todos os homens para fora do navio, com exceção de Ulisses. O navio foi se partindo e por fim havia apenas um pedaço da quilha, ao qual Ulisses atou o que sobrava do mastro. Sentou-se sobre esses restos e deixou-se arrastar pelos ventos furiosos. Durante toda a noite vagou no mar até chegar à ilha Ogígia, onde morava a ninfa Calipso. Foi mantido prisioneiro na ilha durante sete anos.

Os Oráculos
Entre os gregos havia templos dedicados aos vários deuses, e em alguns deles existiam oráculos, sistemas de interpretação da sabedoria dos deuses, que se comunicavam com os homens que vinham pedir conselhos ou saber do futuro. Muitas vezes a consulta não era pessoal, envolvia uma cidade inteira, sobretudo em épocas de guerra ou de peste.
A consulta ao oráculo era uma ocasião solene, como uma visita ao próprio deus, e exigia vários rituais. Além dos oráculos, os gregos acreditavam em presságios, sinais significativos que eram interpretados como um aviso dos deuses, como o voo das aves, que em certas ocasiões eram identificados como bons ou maus. Na Guerra de Troia, por exemplo, os troianos foram intimidados por uma águia que voava com uma serpente nas suas garras, ensaguentada, ainda viva, que picou a ave perto do pescoço, e eles acreditaram que a visão era um presságio de Zeus.

Bibliografia
BENJAMIN, Walter. O Narrador: Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Obras escolhidas - magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994.
BRANDÃO, Junito S. Mitologia Grega, vols. I,II e III. Petrópolis: Vozes, 1987.
COMMELIN, P. Mitologia Grega e Romana. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
DETIENNE, Marcel. A Invenção da Mitologia. Rio de Janeiro: José Olympio/UnB, 1992.
ELIADE, Mircea. História das crenças e das ideias religiosas, tomo 1, vol.2. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
FINLEY, M. I. Aspectos da Antiguidade. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
________ . Grécia Primitiva: Idade do Bronze e Idade Arcaica. São Paulo: Martins Fontes,1990.
_________ . O Mundo de Ulisses. Lisboa: Presença, 1972.
GRIMAL, P. A Mitologia Grega. São Paulo: Brasiliense, 1987.
__________ . Dicionário de Mitologia Grega e Romana. Lisboa: Difel, 1993.
JONES, Peter V. (org.). O Mundo de Atenas. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
KERÉNYI, C. Os Deuses gregos. São Paulo: Cultrix, 1993.
_________ . Os Hérois gregos. São Paulo: Cultrix, 1993.
KURY, Mário da Gama. Dicionário de Mitologia Grega e Romana. São Paulo: Jorge Zahar, 1987.
LAVERDET, Marcel, RAGACHE, Claude-Catherine. A Criação do mundo, mitos e lendas. São Paulo: Ática, 1995.
MOSSÉ, Claude. As Instituições Gregas. Lisboa: Edições 70, 1985.
________ . A Grécia Arcaica de Homero a Ésquilo. Lisboa: Edições 70, 1988.
PRIETO, Heloísa. Divinas Aventuras, Histórias da Mitologia Grega. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1997.
SISSA, G. e DETIENNE, M. A vida quotidiana dos deuses gregos. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
VAN ACKER, Teresa. Grécia, A vida cotidiana na cidade-estado. São Paulo: Atual, 1994.
VERNANT, Jean Pierre. Mito e religião na Grécia Antiga. Campinas: Papirus, 1992.
__________ . Mito e pensamento entre os gregos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
__________ . A Morte nos olhos: figurações do outro na Grécia Antiga: Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
VIDAL-NAQUET, Pierre. O Mundo de Homero. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
Biblioteca virtual
· História Antigahttp://www.historianet.com.br/main/assuntos.asp?assunto=2&divisao=7Diversos artigos sobre a História Antiga: mitologia, cidades-estado, a lenda de Osíris, o período Clássico, a Grécia pré-helênica.
· Laboratório de História Antiga da UFRJhttp://www.ifcs.ufrj.br/~lhia/
· Mito, rito e religiãohttp://www.mundodosfilosofos.com.br/mito.htmA parte conceitual é interessante, mostra um panorama das definições de mito, de Jung a Roland Barthes. Aborda a equivalência entre os deuses gregos e romanos e resume a História dos deuses gregos.
· Jogos Olímpicoshttp://www.historianet.com.br/main/mostraconteudos.asp?conteudo=210 Da Grécia Antiga aos dias de hoje.
Sobre esta oficina
Autora: Elisa Goldman, Mestre em História pela PUC-Rio
Ilustrações: Salmo Dansa
Copyright © 2008 Fundação CECIERJ
Todo o material deste site pode ser utilizado desde que citados a fonte e o autor.
Data: Oficina publicada na Revista Educação Pública em 20 de julho de 2001..

Fonte: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/oficinas/historia/mitologia/index.html

segunda-feira, 29 de março de 2010

História e memória


A história local dos afro-descendentes
Bloco de Conteúdo
História
ConteúdoRelações Sociais - Cultura - Trabalho

Objetivos
Estabelecer relações entre passado e presente, discutindo mudanças e permanências nas relações sociais. Estabelecer uma ponte entre o conteúdo estudado e sua vida cotidiana por meio de estudos da história local. Compreender e valorizar elementos das culturas africanas e de afrodescendência.
Ampliar o conceito de cidadania, discutindo questões como respeito à diversidade, religiosidade e sincretismo, preconceito, direitos, inclusão.
Anos 7º., 8º. e 9º. anos
Tempo estimado 3 aulas e atividades extra-classe em prazo a ser definido pelo professor. Material necessário:
Câmeras fotográficas, gravadores ou mp3 player, computador com acesso à internet.

Introdução
importância de se estudar a história de africanos e de afro-descendentes está relacionada às profundas relações que guardamos com a África. No geral, somos frutos dos encontros e confrontos entre diferentes grupos étnicos como indígenas, europeus, africanos e outros.

Entendemos que história do Brasil e história da África estão intimamente relacionadas, cabendo ao professor ampliar a discussão sobre, por exemplo, a escravidão, introduzindo elementos da história dos africanos, de sua cultura e não tratá-los como simples mercadoria que enriquecia europeus e tiveram seu trabalho explorado à exaustão no Brasil antes e após a independência política.

Nessa perspectiva, não podemos tratar a questão africana apenas do ponto de vista da escravidão, como se fosse uma questão isolada e superada pela assinatura da Lei Áurea em 1888. Um ponto de partida para ampliar nossa visão e tentar superar as visões estereotipadas sobre o tema é procurar recuperar os elementos da resistência negra, suas formas de luta e de organização, sua cultura, não apenas no passado, mas também no tempo presente. Desenvolvimento

1ª. Etapa Comece o trabalho explorando com os alunos os elementos da história africana e/ou da presença africana na História do Brasil que eles já tenham estudado. Procure levantar os conhecimentos dos alunos acerca das relações sociais estabelecidas, das visões que foram construídas sobre africanos e afro-descendentes no Brasil, sobre a cultura africana e/ou a mescla de culturas que se convencionou chamar "cultura brasileira" com forte influência de elementos africanos. É possível que surjam respostas que remetam a determinados assuntos como alimentação, música, dança, lutas e religiosidade. Se não surgirem, instigue-os a refletir sobre a presença ou ausência desses elementos no modo de vida deles.
Após essa conversa inicial, convide os alunos para explorar o site http://www.acordacultura.org.br/, que mostra informações sobre a cultura negra africana em forma de jogos, livros animados, vídeos, músicas e textos. Dica: veja textos sobre a importância da cultura negra na coluna da esquerda da página inicial - "valores civilizatórios".
A exploração do site é apenas um ponto de partida para a discussão que poderá ser fundamentada em conhecimentos anteriores dos alunos, de acordo com os conteúdos previstos no currículo de História, como: - História da África, incluindo elementos da cultura e religiosidade etc. (o período variando de acordo com o ano/série dos alunos). - Escravidão no Período Colonial e/ou no Período do Império. As lutas e as formas de resistência, e elementos da cultura trazida pelos africanos.
Proponha aos alunos um trabalho de investigação da presença da cultura negra na localidade e das relações sociais estabelecidas entre os diferentes grupos étnicos, por meio de entrevistas. O objetivo é fazer com que os alunos percebam as relações entre o passado (os conteúdos estudados em História) e o tempo presente, observando as mudanças e permanências nas relações estabelecidas entre os diferentes grupos étnicos e da situação dos afro-descendentes na sociedade brasileira. Essas pesquisas podem ser incluídas em um blog produzido pela classe. Será um espaço de debate virtual em que os alunos da escola e os moradores da comunidade local poderão trocar idéias sobre o assunto.
2ª Etapa Agora é o momento de planejar as entrevistas. Divida a turma em grupos de quatro ou cinco alunos e faça a mediação dos seguintes pontos:
- O levantamento de afro-descendentes que sejam moradores antigos da localidade para serem entrevistados.
- Combinar com os alunos se as entrevistas serão realizadas na escola ou na casa dos entrevistados.
- Elaborar as questões que serão feitas aos entrevistados. Exemplos de coleta de bons depoimentos podem ser encontrados no portal do Museu da Pessoa (http://www.museudapessoa.net/). O questionário deverá ter:
Nome
Idade
Há quanto tempo mora na localidade,
Profissão, atividades que exerceu
Religião
O lazer no passado e no presente
Os tipos de música e de dança preferidos do passado e do presente
Se sofre ou já sofreu discriminação por ser afro-descendente
Participa de organizações como clubes, associações de moradores, ONGs que lutem pela defesa dos direitos dos afro-descendentes
Outras questões sugeridas pelos alunos a partir dos estudos realizados
- A definição das formas de registro da entrevista
- Reforçar com os alunos a importância do respeito aos entrevistados.
- O estabelecimento de uma data para que os materiais coletados sejam levados para a classe.

3ª. Etapa Os grupos de alunos deverão realizar as seguintes atividades:
- Contatar os moradores escolhidos, explicando o objetivo da entrevista.
- Gravar as entrevistas com equipamentos de áudio (gravadores, mp3 player etc.) - Pedir permissão para fotografar os entrevistados
- Perguntar se eles possuem fotos antigas ou outros objetos e se permitem que eles sejam fotografados para compor o trabalho final.
No retorno do trabalho, em sala de aula, você deverá mediar a socialização das experiências de cada grupo por meio da discussão:
- como se deu a interação com os entrevistados - quais foram as informações obtidas
- as semelhanças e diferenças entre as respostas dos entrevistados
4ª. Etapa
A partir das entrevistas e dos materiais coletados, é possível recuperar um pouco da história das relações sociais na localidade, da presença (ou não) de discriminação de afro-descendentes e de elementos da cultura de origem africana.
Produto final
O material coletado pode ser organizado: - em um painel com fotos e informações escritas - elaboração coletiva de um blog que poderá conter as gravações das entrevistas, depoimentos de alunos sobre o tema, mudanças e permanências nas relações sociais na localidade, espaço para postagem de sugestões sobre a formas de combate ao preconceito e à discriminação racial.
Avaliação
Os pontos que deverão ser avaliados são:
- envolvimento e participação dos alunos nas discussões em grupos
- pertinência das informações e dos materiais coletados
- organização e clareza das informações no painel e nos textos e áudios postados no blog.
Quer saber mais?
Bibliografia
BARBOSA, R. M. Ambientes virtuais de aprendizagem. Porto Alegre: Artmed.
BITTENCOURT, Circe Maria F. Ensino de história: fundamentos e métodos. São Paulo, Cortez. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembranças de velhos. Companhia das Letras.
LUCENA, Célia Toledo. Artes de lembrar e de inventar: (re) lembranças de migrantes. São Paulo, Arte & Ciência.

Na internet
www.ritosdeangola.com.br/news.php
http://www.capoeiradobrasil.com.br/


Materiais para aprofundar a discussão sobre racismo:
http://www.dialogoscontraoracismo.org.br/

sábado, 7 de fevereiro de 2009

IDADE MODERNA. GRANDES NAVEGAÇÕES

AS GRANDES NAVEGAÇÕES E O DESCOBRIMENTO DO BRASIL

Esse plano de aula está baseado na revista Veja: A aventura do descobrimento.
Caso necessitem da revista é só entrar em contato.

Objetivos
Compreender a complexidade do momento histórico que originou o movimento das grandes navegações.
Atividades
1. Um elemento importante para compreender a expansão marítima européia dos séculos XV e XVI foi o apoio e a ação política dos Estados nacionais centralizados, em formação nessa época. Nicolau Maquiavel (1469-1527), autor de O Príncipe, foi um dos primeiros a defender a necessidade do fortalecimento de um Estado centralizado e duradouro para o desenvolvimento e a expansão de uma nação. Como explica o pensador italiano Antonio Gramsci, Maquiavel "mostra como deve ser o Príncipe para levar um povo à fundação do novo Estado, e o desenvolvimento é conduzido com rigor lógico, com relevo científico". Analise com seus alunos, apoiado no texto "A Realidade Crua do Poder", entrevista baseada em fragmentos de O Príncipe, os seguintes aspectos: - Que pontos são propostos com destaque por Maquiavel para a fundação do Estado e da ação política modernos? - Qual era a realidade política dos Estados ibéricos naquele momento histórico? - Que relação há entre as idéias de Maquiavel e as condições políticas de Portugal e Espanha?
2. Após a discussão de caráter mais abrangente realizada na questão anterior, recupere com a turma, a partir das reportagens "A conquista do Mar Oceano' (págs. 42 e 43), "O Salto de Qualidade" (págs. 48 e 49) e "Santa Cruz é Nossa" (págs. 54 a 56), a ação efetiva (recursos financeiros, tecnologia, apoio político e militar, entre outros fatores) dos Estados espanhol e português para o desenvolvimento da expansão marítima.
3. Desde o século XI, a Europa feudal passou por mudanças que atingiram todas as esferas da vida - relações políticas, econômicas, culturais, religiosas e a própria visão de mundo. Como resultado, nos séculos XV e XVI o universo medieval estava em colapso, enquanto o capitalismo dava seus passos iniciais. Com base nas reportagens "Admirável Mundo Novo" (págs. 24 e 25), "O Império Ataca" (págs. 60 a 63) e "Guinada no Mercado" (págs. 76 a 78), procure reconstruir os aspectos mais importantes da economia da Europa e o impacto deles para o restante do planeta.
4. Muitos cronistas registraram as tremendas dificuldades que os navegadores europeus enfrentavam em suas longas viagens ao Oriente, à África e à América nos séculos XV e XVI. Um deles, o artesão calvinista francês Jean de Léry, nos deixou um magnífico relato no livro Viagem à Terra do Brasil: "O sol é fortíssimo e, além do calor que padecíamos, não tínhamos, fora das parcas refeições, água doce nem outra bebida em quantidade suficiente. Sofríamos assim tão cruelmente a sede que cheguei quase a perder a respiração (...)". Apoiado nesse relato, no quadro "Uma Equipe Multinacional" (págs. 28 e 29) e nas reportagens "A Conquista do Mar Oceano", "A Vastidão das Águas do Sul" (págs. 44 a 46) e "Profissão de Alto Risco" (págs. 58 e 59), procure recriar com seus alunos o cotidiano de quem enfrentou essas viagens rumo ao desconhecido.
5. Para os viajantes europeus dos séculos XV e XVI, os oceanos e as terras recém-descobertos estavam repletos de mistérios e mitos, originários da Idade Média e influenciados pelo catolicismo. Como observou o historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda em seu livro Visão do Paraíso, "mesmo quando não se mostrou ao alcance dos olhos mortais (...) [a Visão do Paraíso] esteve continuamente na imaginação de navegadores, exploradores e povoadores do hemisfério ocidental". Baseado na afirmação de Sérgio Buarque e na reportagem "Admirável Mundo Novo", coloque em discussão as características desses mitos e lendas, a exemplo da existência de um paraíso criado por Deus e perdido em terras desconhecidas, provavelmente na América.
6. Quando os europeus chegaram ao novo continente encontraram diversas sociedades organizadas de maneiras distintas. A estranheza das primeiras impressões manifestou-se de vários modos, das relações cordiais à violência e à intolerância. A partir das reportagens "Uma Terra Graciosa, um Povo Gentil" (págs. 26 a 31), "A Crônica do Achamento" (págs. 36 a 39) e "Paraíso ou Inferno?" (pág. 86), proponha que seus alunos: - Utilizem a seguinte frase de Sérgio Buarque de Holanda para debater as relações entre europeus e ameríndios: "É o confronto de duas humanidades diversas, tão heterogêneas, tão verdadeiramente ignorantes, agora sim, uma da outra, que não deixa de impor-se entre elas uma intolerância mortal" (trecho de O Extremo Oeste); - Analisem o seguinte texto do português Gabriel Soares de Souza (1540-1592), na obra Tratado Descritivo do Brasil em 1578, no qual um comentário sobre a fala dos tupinambás traduz a visão eurocêntrica dos colonizadores: "(...) Faltam-lhes três letras das do ABC (...) Se não têm F é porque não têm fé (...). E se não têm L na sua pronunciação é porque não têm lei alguma que guardar, nem preceito para se governarem (...) E se não têm R na sua pronunciação é porque não têm Rei que os reja, e a quem obedeçam (...)".
7. O termo globalização vem sendo usado para explicar, positiva e negativamente, a realidade que vivemos. Discuta essa questão com seus alunos. Use o especial de VEJA para traçar um paralelo entre o atual processo de expansão e o dos séculos XV e XVI.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

REGIMES TOTALITÁRIOS - NAZISMO E PRECONCEITO

Nazismo e preconceitos
Érica Alves da Silva *Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Introdução
Tratar com os alunos sobre nazismo permite historicizar as idéias que fundamentaram esse movimento político e perceber o alcance temporal e espacial do que esse regime idealizava. O estudo desse tema permite analisar aspectos fundamentais da história do mundo durante o século 20, incluindo as justificativas ideológicas e as estratégias usadas para se criar a denominada "raça pura".
Também é possível problematizar questões como o preconceito na atualidade e efetuar a análise das relações entre história e cinema, já que são inúmeros os filmes que tratam do nazismo.
Objetivos
1) Análise do contexto histórico mundial em que são formados os regimes autoritários durante o século 20.
2) Reconhecimento dos ideais nazistas e das idéias de superioridade e inferioridade que fundamentavam sua prática.
3) Análise de documento: os filmes como fonte para a construção do conhecimento histórico.
4) Reconhecer a existência do preconceito (na atualidade) e a importância de um museu para a contemporaneidade (uso do filme "Escritores da liberdade").
Estratégias
1) Apresente em classe algumas das imagens que eram veiculadas pela propaganda nazista. Não explique do que se trata e pergunte aos alunos o que vêem. Registre tudo que disserem na lousa, mesmo as brincadeiras que possam surgir, já que eles não sabem a que se referem as imagens.
Atenção: antes de mostrar as imagens, peça que os alunos que, possivelmente, saibam do que se trata, auxiliem no desenvolvimento da aula, nada dizendo aos colegas.
2) Explique aos alunos quando foram divulgadas as imagens e quais as intenções daqueles que as veiculavam. Use essa estratégia para iniciar uma aula expositiva sobre o nazismo e seu alcance temporal e geográfico. Esse momento deve ser entrecortado pela apresentação de documentos que comprovem suas afirmações, como trechos de filmes, trechos de obras literárias (como o "Diário de Anne Frank") e outras imagens veiculadas com o objetivo de tornar as pessoas simpáticas ao nazismo.
Seria interessante usar alguma cena do filme "Olga" para demonstrar o anti-semitismo no Brasil e suas conseqüências (talvez a cena em que ela é considerada um presente de Getúlio Vargas a Hitler).
3) É importante que aos alunos saibam como a arte foi usada a serviço do regime nazista (mais de noventa filmes, por exemplo, foram organizados pelo Ministério da Propaganda de Hitler), com o objetivo de exaltar a figura do führer, a militância e o anti-semitismo.
4) Para relacionar esse tema com a atualidade, exiba para os alunos duas cenas do filme "Escritores da liberdade". A primeira deve ser aquela em que uma caricatura preconceituosa é vista pelos alunos que ridicularizam um dos colegas. Deixe que vejam o que a professora diz quando descobre a caricatura. A segunda cena deve ser aquela em que os alunos vão ao museu onde são vistas as atrocidades cometidas durante o regime nazista.
5) A seguir, problematize as cenas assistidas e, para finalizar o trabalho, entregue aos alunos notícias recentes que tratem do preconceito. Depois da leitura, eles devem fazer pequenas redações, relacionando passado e presente.
Atividades
1) Leve à sala de aula sinopses de filmes que tratem do nazismo (filmes que possam ser vistos pelos alunos). Peça que leiam para toda a turma. A seguir, que escolham qual filme assistirão.
2) Exiba o filme para a turma e peça que anotem as cenas que melhor representem o que estudaram sobre o nazismo, bem como as que mais os chocaram e as razões de tais estranhamentos.
3) Por fim, peça que os alunos apresentem suas anotações e que, juntos, escrevam uma frase ou um pequeno texto (escolha da turma) sobre o que concluíram.
Sugestões
Disponibilize uma lista de filmes que possam assistir sobre nazismo e preconceito, a fim de que se aprofundem nos temas debatidos em sala de aula.
* Érica Alves da Silva é historiadora.

REFORMAS RELIGIOSAS 2

Reforma Protestante e reação da Igreja Católica
Luciane Cristina Miranda de Jesus*Especial para a página 3 Pedagogia & Comunicação
Ponto de partida
Leitura de um texto sobre a reação católica a reforma.
Objetivos
1) Conceituar a palavra "reforma" a partir do contexto histórico em que os alunos vivem.
2) Constatar, por meio de pesquisa (levantamento de informações sobre as religiões seguidas pelos próprios alunos), que vivemos numa democracia religiosa.
3) Refletir sobre a liberdade de credo no Brasil, comparando-a aos fatos do século 16, na Europa Ocidental.
4) Conhecer as várias correntes de pensamento que explicam a dimensão da Reforma Protestante num universo dominado pela Igreja Católica.
5) Enumerar as ações da Igreja Católica na tentativa de conter o avanço da Reforma Protestante na Europa Ocidental e nas Américas, sobretudo na América portuguesa.
Estratégias
1) Pergunte aos alunos no que pensam quando se fala em "reforma". Anote na lousa o que eles disserem.
2) Em seguida, passe para cada aluno uma ficha em que ele possa escrever qual a sua religião e de que forma essa escolha ocorreu.
. Elabore uma ficha na qual o aluno não precise se identificar e que deverá conter os seguintes itens:
a) Se pertence ao sexo feminino ou masculino;
b) Qual a religião;
c) Se a escolha da religião partiu dele;
d) Se a escolha da religião foi influência dos pais, porque já a praticavam.
3) O próximo passo é trabalhar com o professor de Matemática. Ele poderá ficar incumbido de tabular os dados das fichas, sendo que os resultados obtidos poderão ser convertidos em gráficos, mostrando o universo da sua série em números e porcentagens.
4) Apresente o resultado da pesquisa aos alunos, mostrando como vivemos, no Brasil, em uma democracia, inclusive do ponto de vista religioso. A seguir, informe os alunos de que, durante a Idade Média e início da Idade Moderna, não existia tolerância religiosa na Europa Ocidental. Ou seja, a realidade era muito diferente da que vivemos hoje na maioria dos países ocidentais, pois a Igreja Católica era a única referência religiosa. Conte a eles que, a partir do século 16, a Europa passou por transformações estruturais que abalariam o modo de os homens lidarem com os dogmas impostos por uma única religião.
5) Depois, retome o conceito de "reforma" com os alunos. Explique que o conceito expressa a idéia de "mudança", e que foi exatamente isso o que aconteceu quando começaram a surgir na Europa Ocidental várias novas religiões, embora todas fossem cristãs. O processo de surgimento dessas novas religiões é chamado de Reforma ou Reforma Protestante.
6) Em seguida, esclareça que os historiadores interpretam a Reforma Protestante sob variados ângulos. Cite os historiadores que analisam a Reforma a partir das transformações ocorridas na economia e na reorganização social, com a emergência da burguesia, e também os que atribuem igual importância às críticas ao comércio de indulgências e à adoração de relíquias.
7) Leia o texto citado acima com os alunos. Peça que eles indiquem quais as ações tomadas pela Igreja Católica no sentido de conter o avanço das novas religiões cristãs. A essas ações os historiadores dão o nome de Contra-Reforma. O texto proposto traz à tona a volta da Inquisição, o surgimento da Companhia de Jesus e o Concílio de Trento.
8) Retome com os alunos o parágrafo que descreve as ações da Igreja Católica e lembre-os de que o Brasil, enquanto colônia portuguesa, também sofreu restrições religiosas.
*Luciane Cristina Miranda de Jesus é formada em história pela Universidade de São Paulo e professora na rede particular de ensino do Estado de São Paulo.

REFORMAS RELIGIOSAS 1

Reforma e Contra-Reforma
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Objetivos
1) Conhecer os fatores econômicos, políticos e sociais que deram origem à Reforma protestante;
2) Estudar a cronologia de acontecimentos da Reforma, o surgimento das teses de Lutero, o papel de Calvino e a formação da Igreja anglicana;
3) Discutir as deliberações da Igreja católica para combater o avanço do protestantismo.
Comentário
O período de transição marcado pela Reforma protestante e pela eclosão da Contra-Reforma é complexo e pode ser estudado sob vários ângulos. O professor deve avaliar a distribuição do conteúdo levando em conta o número de aulas disponíveis e o conhecimento prévio dos alunos, adquirido em outras unidades da disciplina.
Material
O texto Reforma e Contra-Reforma pode servir como ponto de partida para o trabalho em aula.
Estratégias
1) Inicialmente, proponha a seus alunos a leitura do texto indicado no item anterior;
2) Depois da leitura, os alunos devem formular questões sobre o conteúdo estudado, para serem debatidas com o professor em aula;
3) A seguir, a classe é dividida em grupos para o estudo específico de alguns tópicos, como os abaixo relacionados:
a) Reforma e Contra-Reforma: aspectos econômicos;b) Aspectos políticos;c) Decadência espiritual da Igreja católica;d) Lutero e Calvino;e) A formação da Igreja anglicana;f) Concílio de Trento e os tribunais do Santo Ofício.
Atividades
1) Uma vez estabelecidos os temas que serão trabalhados por cada grupo, o professor pode auxiliar na elaboração de um roteiro de estudos, para fixar os principais pontos a serem abordados pelos alunos;
2) Os grupos devem apresentar o resultado de suas pesquisas num seminário, realizado em sala de aula.
Sugestões
Há um grande número de recursos que podem ser utilizados como apoio a essa unidade. O uso de material iconográfico, com imagens referentes ao período, é interessante como ferramenta de trabalho, e pode ser facilmente acessado em sites da internet. Outro recurso didático eficiente é a projeção do filme "Lutero", dirigido por Eric Til (2003), disponível em DVD. O filme fornece um bom panorama da época em questão e pode ser debatido em classe com bons resultados.
Reformas religiosas (1)
Causas e contexto histórico
Gilberto Salomão*Especial para Página 3 Pedagogia & Comunicação
O século 16 teve como uma de suas manifestações mais profundas o processo de reformas religiosas, responsável por quebrar o monopólio exercido pela Igreja Católica na Europa e pelo advento de uma série de novas religiões que, embora cristãs, fugiam aos dogmas e ao poder imposto por Roma, as chamadas religiões protestantes. Mais do que apenas um movimento religioso, as reformas protestantes inseriram-se no contexto mais amplo que marcou a Europa a partir da Baixa Idade Média, expressando a superação da estrutura feudal tanto em termos da fé como também em seus aspectos sociais e políticos.
Da mesma forma, não se pode considerar as reformas religiosas como um processo que se iniciou no século 16. Ao contrário, elas representaram o transbordamento de uma crise que já vinha se manifestando na Europa desde o início da Baixa Idade Média, fruto da inadequação da Igreja à nova realidade, marcada pelo declínio do mundo feudal, pelo crescimento do comércio e da vida urbana, pela centralização do poder político nas mãos dos reis e pelo advento de uma nova camada social, a burguesia.
Também não se pode deixar de lado a influência do Renascimento Cultural, no sentido de romper com o monopólio cultural exercido pela Igreja Católica na Idade Média. O Renascimento teve o efeito de possibilitar a aceitação de conceitos e de visões de mundo diferentes daqueles impostos pela Igreja Católica, ao quebrar o quase monopólio intelectual que a Igreja exercia na Idade Média. Num certo aspecto, as Reformas Protestantes são filhas do Renascimento, e representaram, como este, uma adequação de valores e de concepções espirituais às transformações pelas quais a Europa passava - nos campos econômico, social e cultural.
Humanismo e desvirtuamento da Igreja
As contestações ao poder e aos dogmas da Igreja não eram um fenômeno desconhecido na Europa do século 16. O próprio crescimento do pensamento humanista, absorvido pela Igreja através das universidades, e uma nova visão teológica, representada pelo tomismo, podem ser vistos como uma abertura da Igreja ao racionalismo e a uma visão de mundo mais humanística, se comparada ao forte teocentrismo que prevalecera até ali. As universidades foram canais por onde pôde penetrar a influência do pensamento racional, ao mesmo tempo em que o tomismo fundia a fé com elementos do racionalismo greco-romano.
Ao mesmo tempo, há que se levar em conta o desvirtuamento da Igreja e sua incapacidade de dar resposta aos anseios espirituais dos fiéis. Essa questão tem origem no papel que a Igreja passou a ocupar a partir da Idade Média. O fato de ser ela a principal possuidora de terras na Europa, bem como a instituição mais poderosa politicamente, colocava-a ao lado da nobreza como uma instituição beneficiária da estrutura feudal e, também, responsável por sua manutenção.
Na verdade, o vínculo orgânico entre a Igreja e a nobreza criava, necessariamente, distorções. A tendência é que as nomeações para cargos na alta hierarquia da Igreja (o termo correto para essas nomeações é investidura) obedecessem a critérios que passavam muito longe da vocação ou formação religiosa do postulante. Essas investiduras eram feitas levando-se em consideração o grau de riqueza, de poder e as benesses que a aliança com esta ou aquela família pudesse trazer para a Igreja.
A prática das chamadas investiduras leigas acabou acarretando graves problemas para a Igreja medieval. Em primeiro lugar, os problemas políticos, decorrentes da constante disputa com os poderes temporais para a ocupação de cargos e terras.
Mais grave que isso, entretanto, foi o fato de gerar um clero inadequado às suas funções religiosas, incapaz de dar resposta às necessidades espirituais dos fiéis. O desregramento do clero evidenciava-se numa atitude conhecida usualmente como nicolaísmo, termo usado para designar o desregramento que passara a marcar o comportamento do clero.
Mais que isso, a constante busca por um aumento da renda que sustentava o imenso luxo em que vivia o clero, levou a Igreja a intensificar, durante a Idade Média, práticas como a venda de relíquias sagradas ou de cargos eclesiásticos (práticas conhecidas como simonia) e a venda de indulgências (absolvição dos pecados cometidos).Assim, cresciam manifestações intelectuais de críticas ao comportamento da Igreja. Nomes como Erasmo de Roterdã ou Thomas Morus propunham uma reforma interna da Igreja, com um retorno à pureza original do cristianismo. Por trás dessas propostas havia, por certo, uma crítica ao excessivo apego da Igreja aos bens materiais e ao poder.
Nacionalismo, heresias e política
Tais críticas já haviam atingido níveis mais preocupantes para Roma desde o final do século 14. Na Inglaterra, John Wycliff pregava o confisco dos bens da Igreja, o voto de pobreza por parte dos membros do clero e uma retomada das Sagradas Escrituras como única fonte da fé.
No reino da Boêmia, então pertencente ao Sacro Império, John Huss, tendo por base as idéias de Wycliff, viu suas pregações constituírem-se na base do sentimento nacionalista da região contra o domínio do Império e da Igreja de Roma. A prisão, seguida da condenação e execução de Huss, não conseguiu apagar a chama nacionalista, o que mostrava um lado intenso da crise vivida pela Igreja, qual seja, o seu domínio sendo alvo de reações nacionalistas.
Há outra forma de reação a esse desvirtuamento do papel da Igreja e ela fica evidente ao observarmos o crescimento das heresias. O termo era empregado para designar todas as manifestações de pensamento religioso discordante dos dogmas impostos pela Igreja Católica. Durante a Baixa Idade Média, e particularmente no século 13 (considerado o grande século das heresias), cresceram de modo significativo o número de seitas heréticas e o número de adeptos a essas seitas.
Ao contrário de uma primeira impressão, as heresias constituem-se numa prova de fé e não de falta de fé. Evidenciam a existência de uma população imbuída de uma profunda religiosidade não contemplada pelos dogmas e pelo materialismo da Igreja. Esta, por sua vez, jamais foi capaz de compreender o real significado das heresias. Ao contrário, a Igreja apenas viu nelas o que representavam em termos de ameaça ao seu poder baseado na unidade da fé. Assim, a reação da Igreja Católica às heresias concentrou-se na repressão. Não foi outra a função da criação do Tribunal do Santo Ofício ou Inquisição, justamente no século 13.
Há outros elementos decisivos nesse processo. A questão política passa a ganhar um peso significativo a partir do início do processo de centralização do poder. Naturalmente, os reis, ao buscarem se fortalecer politicamente, vão entrar em choque com o poder da Igreja. Em muitos casos (e o exemplo da Inglaterra, como veremos a seguir, é apenas o mais evidente), romper com a Igreja Católica e criar uma nova Igreja sob seu comando foi a forma encontrada pelos reis para se libertar do poder político do papado.
Além disso, num quadro de crescimento do comércio, os dogmas da Igreja, de condenação à usura e ao lucro excessivo, representavam um forte obstáculo para a burguesia. Assim, também essa nova camada ascendente vai ter interesse em romper com os entraves impostos pelo catolicismo e adotar uma nova religião, para a qual suas práticas não se constituíssem em pecados e fossem consideradas como dignificantes do homem.

PALESTINA (ISRAELENSES X PALESTINOS)

Conflitos entre israelenses e palestinos
*Érica Alves da SilvaEspecial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Introdução
O estudo dos conflitos entre a Palestina e Israel se justifica por diversas razões, entre elas, a constante divulgação pela mídia, o que é feito, de maneira geral, sem a preocupação de tornar as motivações dos conflitos mais compreensíveis.
Além disso, buscar as raízes históricas desses conflitos permite demonstrar aos alunos a importância de se conhecer a história do Oriente Médio, nem sempre valorizada pelos livros didáticos.
O tema possibilita desenvolver debates sobre o respeito às diferenças, ou seja, sobre a necessidade de se perceber as diferenças entre as religiões e como elas interferem na organização dos estados.
Pode-se também demonstrar o quanto os conhecimentos da geografia são fundamentais para a construção do conhecimento em história. E como o estabelecimento das fronteiras é definido, historicamente, pela ação humana.
Objetivos
1) Reconhecimento do processo de longa duração dos conflitos entre israelenses e palestinos.
2) Reconhecimento dos conceitos: Estado, nação, território (estado) e estado laico.
3) Reconhecimento da história e das fundamentações das religiões envolvidas.
4) Desenvolvimento da habilidade da leitura de mapas e percepção do papel do homem na delimitação das fronteiras.
Estratégia
1) Inicie a aula com as definições de Estado, nação, território (estado) e estado laico. Você pode expor as definições presentes nos dicionários, usando pequenos cartazes. Ao mesmo tempo, explique com desenhos, exemplos e brincadeiras o que é cada um deles.
Por exemplo: para explicar o que é um território, você pode levar um barbante e delimitar pequenos territórios na classe. Por mais que a noção de território possa parecer evidente, salientar esses conceitos facilitará trabalhar com os demais, que são mais complexos.
2) Traga para a sala de aula uma série de cartazes sobre as origens dos grupos sociais envolvidos no conflito, mostrando por quais razões cada um dos grupos tem a crença de que aquele território é sagrado. Se for possível, organize uma apresentação com slides no PowerPoint. O uso dessa mídia aprofunda o envolvimento dos alunos.
3) Nesse momento, é importante que você faça uma aula expositiva sobre o histórico dos conflitos, levando em conta, inclusive, a influência de outros países, como a Inglaterra e os EUA, na delimitação das fronteiras daquela região e na criação do Estado de Israel, fato que agravou os conflitos já existentes.
Atividades
1) Traga duas reportagens sobre o tema e entregue cópias a todos os alunos. Escolha a mais simples e leia com eles, discutindo sobre os fatos relatados e retomando os conceitos e dados históricos analisados até aquele momento. Faça esse trabalho demonstrando como fazer um exercício de leitura que seja, ao mesmo tempo, uma análise crítica.
2) Depois de formar duplas, entregue aos alunos a reportagem mais complexa e peça que façam um exercício semelhante ao desenvolvido anteriormente. Solicite que eles anotem as principais observações e, posteriormente, realize um debate, de maneira a aprofundar as descobertas dos alunos.
Sugestões
Exiba o documentário "Criação do Estado de Israel", presente no terceiro DVD da coleção Dias que abalaram o mundo, produzida pela BBC. O filme tornará a questão dos conflitos entre palestinos e israelenses mais evidente, sendo que os alunos poderão perceber toda as tensões presentes no processo de criação do Estado de Israel.

MERCANTILISMO

Mercantilismo
Newton Nazaro*Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Objetivos
1) Estabelecer uma relação entre o Estado absolutista e seu conjunto de práticas econômicas entre os séculos 15 e 18.
2) Criar uma base teórica que confira à compreensão do aluno um sentido para a colonização da América pelas potências européias do período em questão.
3) Especificar os papéis de colônias e metrópoles na busca da acumulação de riqueza por parte do Estado metropolitano.
4) Esclarecer por que o mercantilismo é antes um "conjunto de práticas" e não uma teoria criada para ser aplicada a posteriori.
5) Dar ao aluno condições para que ele venha a entender por que a política mercantilista foi praticada pelo Estado absolutista da Idade Moderna e em favor de seu próprio fortalecimento.
Comentários
O Mercantilismo é, entre a Expansão Marítima Européia e o início da colonização da América, o primeiro elo que aproxima a história das colônias do contexto do Velho Mundo. Na crise do antigo sistema colonial, a partir da segunda metade do século 18, a falta da noção acerca da política mercantilista pode comprometer o entendimento do aluno quando se vão trabalhar conceitos como o liberalismo e o processo de independência das colônias. Antes de aprofundar temas como a cultura, o trabalho, as manifestações religiosas e os movimentos políticos e sociais, é necessário que se dê ao aluno subsídios teóricos para que ele não se perca na busca de compreensão do processo histórico. Sem a base teórica, corre-se o risco de a programação acabar por se ater apenas ao pitoresco, à mera disposição de luta dos heróis e a uma falsa noção de vilões e de vítimas como agentes do fazer-se da história.
Estratégias
Exposição do tema é fundamental antes que se iniciem os estudos de História da América Colonial. O professor pode recomendar a leitura do texto Mercantilismo, que se encontra abaixo. No caso de História do Brasil, o assunto deve ser trabalhado entre o chamado período pré-colonial (1500 a 1530) e o início do estudo do período colonial propriamente dito (1530 a 1808). A aula pode ser iniciada com a exposição, na lousa, dos itens que compõem a política mercantilista.
Metalismo - a busca de acúmulo de metais preciosos dentro das fronteiras dos países europeus, o que era uma necessidade para se cobrir as despesas dos Estados absolutistas. O bulionismo é uma modalidade específica do metalismo, que significa o entesouramento do ouro e da prata na forma de barras ou buliões.
Balança comercial favorável ou superavitária - era uma necessidade de economias que tinham no comércio sua principal atividade e tinha como conseqüência o aumento do volume de metais preciosos.
Incentivo ao desenvolvimento de manufaturas - explicável pela diferença de preços em favor de produtos manufaturados se comparados aos das matérias-primas.
Intervencionismo - regulamentação da produção e do comércio pelo Estado, tais como a concessão de privilégios a grupos mercantis sobre o comércio com as colônias e, em casos específicos, a redução ou abolição de impostos sobre produtores internos.
Protecionismo - taxação dos manufaturados importados para dificultar sua concorrência com os produtos domésticos e evitar a evasão do ouro e da prata.
(Antigo) sistema colonial - também chamado de "pacto colonial", pode ser definido como a subordinação política, administrativa, jurídica, tributária e militar das colônias em relação às metrópoles em combinação com o monopólio do comércio das primeiras por grupos de comerciantes das segundas - ou exclusivo metropolitano sobre o comércio com as colônias.
A apresentação dos itens na lousa não precisa ser minuciosa. Bastaria apenas explicar o significado dos termos para que os alunos se familiarizem com eles, sem que, nesse primeiro momento ficassem claras as relações de uns com os outros.
Atividades
Após essa rápida exposição, os alunos seriam convidados à leitura de um texto específico - que pode ser o que está na sessão Comentários - ou de um trecho, previamente selecionado pelo professor, de alguma das fontes sugeridas na próxima sessão.
Feita a leitura, o professor mediaria a apresentação das conclusões feitas pelos próprios alunos, procurando destacar as relações entre as práticas mercantilistas apresentadas no quadro.
Indicações de leitura
Um bom dicionário de termos históricos, como o "Dicionário de Nomes, Termos e Conceitos Históricos, de Antonio Carlos do Amaral Azevedo (Nova Fronteira, 1999) pode ser usado para o aprofundamento dos itens expostos na abertura da aula.
. "Mercantilismo e Transição", de Francisco Falcon (Brasiliense, 1986) é um excelente paradidático e pode fornecer ótimas informações sobre, por exemplo, as origens do termo mercantilismo, quando, na prática, ele já era uma política econômica tida por ultrapassada.
. "História da Riqueza do Homem", de Leo Huberman (Guanabara Koogan, 1986), trata o tema no capítulo "Ouro, grandeza e glória". O livro é um clássico que vem sendo reeditado há sete décadas. O estilo do autor desmistifica a compreensão de assuntos relacionados à economia e, de tão interessante, pode fazer que o aluno toque adiante a leitura da obra por conta própria.
*Newton Nazaro Junior é graduado em História pela PUC-SP, professor do Curso Intergraus, em São Paulo, e co-autor da coleção "Panoramas da História", a ser lançada pela Editora Positivo.
Mercantilismo
Capitalismo comercial e início da colonização da América
Newton Nazaro*Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
A palavra merkantilismus foi concebida e usada pela primeira vez por economistas alemães, no final do século 19. Uma observação um pouco mais atenta nos permite concluir que o termo mercantilismo foi aplicada a um conjunto de práticas já tidas como ultrapassadas.
A caracterização do mercantilismo como um "conjunto de práticas" demonstra a ausência de um plano pré-concebido para a política econômica dos países europeus que, entre os séculos 16 e 18, disputaram fatias do território americano para mantê-las na condição de colônias.
Durante esse período, na Europa, pensava-se a riqueza disponível no mundo como algo que não poderia ser ampliado e, portanto, os Estados absolutistas se empenhavam em assegurar para si a maior porção possível dessa riqueza supostamente limitada.
O ouro e a prata, circulantes na forma de moedas ou trancafiados nos cofres dos reis eram entendidos como sua tradução, daí a verdadeira febre de busca dos chamados metais preciosos principalmente no Novo Mundo.
Expansão comercial
No século 16, o início da colonização da América foi um desdobramento da expansão marítima e comercial, iniciada pelos portugueses no século anterior. Os espanhóis foram os primeiros a encontrar ouro e prata em grande quantidade, em solo americano. Aos portugueses, que haviam dividido o mundo com os castelhanos no Tratado de Tordesilhas, em junho de 1494, restou manter a pujança de sua atividade mercantil através das especiarias do Oriente e do açúcar produzido e exportado pelas capitanias de Pernambuco e da Bahia.
Ingleses, holandeses e franceses, que se empenhavam em invadir terras americanas reivindicadas pelos países ibéricos buscavam manter um saldo positivo em suas balanças comerciais como um meio de atrair para si e estocar metais preciosos.
A forte presença do Estado se fazia sentir através do incentivo à expansão do comércio, de ações armadas na disputa de novos mercados, na regulamentação das atividades mercantis, na concessão de monopólios para a exploração das riquezas das colônias, na taxação de manufaturados importados que pudessem competir com os produtos de seus próprios países - e, como isso, provocar uma evasão do ouro e da prata - além, é claro, da cobrança de impostos sobre o crescente comércio.Quanto maior o lucro da burguesia, maior a arrecadação do Estado; quanto maior a diferença entre os valores exportados e os que se importava, maior o volume de ouro e prata mantido no país.
Exclusivo metropolitano
O monopólio do comércio das colônias americanas - também chamado exclusivo metropolitano - por grupos mercantis metropolitanos era, portanto, uma forma de manter um fluxo contínuo de riquezas da América para a Europa, promovendo o que Karl Marx, no século 19, chamou de acumulação primitiva do capital.
No decorrer do século 18, a Revolução Industrial, na Inglaterra, colocou em xeque a lógica que vinha norteando a política econômica do restante da Europa. Cabe ainda lembrar que as práticas mercantilista não foram aplicadas da mesma maneira por todos os Estados da Europa.
Cada um atuava de acordo com o que lhe fosse mais viável, privilegiando mais determinado setor. Por trás do comércio da Inglaterra e da Holanda, havia uma crescente atividade manufatureira que dava consistência ao seu comércio e lhes rendia superávit na troca com matérias-primas compradas de outros países ou de suas próprias colônias.
França de Luís 14, o ministro Colbert, promoveu uma reforma das estradas e dos portos para facilitar a circulação de mercadorias e incentivou a produção de artigos de luxo que, apesar de seu pouco volume, custavam caro e asseguravam a entrada de moedas de ouro e prata.
Mercatilismo espanhol e português
Já os espanhóis, pioneiros na exploração de ouro e prata na América, e os portugueses que vieram a descobrir o ouro apenas no apagar do século 17, após meio século de decadência da economia açucareira, não estabeleceram prioridades para o desenvolvimento de manufaturas nem reduziram os gastos de seus governos.
Quando suas reservas de metais nobres entraram em declínio, tornaram-se dependentes da exportação de matérias primas em troca de tecidos, ferragens e até de comida vinda de países com setores produtivos mais dinâmicos.
O resultado foi a perda da capacidade de acumulação do capital, que fluía principalmente para a Inglaterra, onde foi continuamente investido na manufatura e, dessa forma, contribuiu para o desencadeamento da Revolução Industrial.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

BANDEIRANTES: HERÓIS OU VILÕES

Desmitificando os bandeirantes
Luciane Cristina Miranda de Jesus*Especial para a página 3 Pedagogia & Comunicação
Ponto de Partida
1) Ler o primeiro e o terceiro itens do texto Entradas e Bandeiras - Bandeirantes expandiram limites do Brasil.
2) Ler o texto Bandeirantes - Heróis ou vilões? A construção do mito.
Justificativa
A capital paulista, vários municípios da região metropolitana de São Paulo e até mesmo várias outras cidades não só do interior paulista, mas também do interior do Brasil, foram no passado caminhos abertos pelos bandeirantes, em um Brasil inóspito, que se tornaria gigante pela natureza desbravadora e destemida destes bandeirantes, que ora aparecem como vilões e outrora como heróis.
Diante desses juízos de valor é fundamental que os alunos tenham conhecimento sobre a construção da memória mitificada dos bandeirantes paulistas e entendam as intenções dessa construção levando-se em consideração os vários sujeitos históricos envolvidos na preservação dessa memória.
Objetivos
1) Distinguir entre as expedições chamadas de Entradas e de Bandeiras ocorridas durante os primeiros séculos do período colonial brasileiro;
2) Refletir sobre o contexto histórico em que a memória em torno dos bandeirantes passa a ser construída com o intuito de mostrar o passado heróico do Estado de São Paulo.
Estratégias
1) Ao iniciar o estudo sobre os bandeirantes, é importante que o professor faça uma sondagem com os alunos a respeito do assunto. Faça uma tabela na lousa com duas colunas, sendo uma para o conceito de Entradas e outra para o conceito de Bandeiras. Peça aos alunos que verbalizem o que entendem por cada uma dessas nomenclaturas e paralelamente garanta o registro na lousa e os alunos no caderno, para posterior consulta.
2) Apresente aos alunos o primeiro item do texto Entradas e Bandeiras - Bandeirantes expandiram limites do Brasil e aleatoriamente escolha um dos seus alunos para realizar a leitura para toda a classe.
3) Em seguida, após a leitura do conceito de Entradas e de Bandeiras, peça para os alunos consultarem seus registros no caderno e verificarem se alguma conceituação se aproxima da qual foi dada pela historiografia.
4) Agora, apresente os motivos que levaram inúmeros homens a se organizarem nessas expedições desbravadoras não só para o interior, mas também para o litoral. A leitura do terceiro item do texto Entradas e Bandeiras - Bandeirantes expandiram limites do Brasil, cujo subtítulo é "São Vicente e São Paulo" demonstra os vários fatores que motivaram as expedições bandeirantes, como a procura de indígenas para apresamento e venda, metais e pedras preciosas.
5) A partir das etapas já trabalhadas, o professor deverá perguntar qual dos dois títulos serviria para dar aos bandeirantes: heróis ou vilões? É bem possível que os alunos devam ficar como último adjetivo. Portanto, esclareça que a memória em torno dos bandeirantes foi construída de forma positiva e não ao contrário. Cabe agora a leitura do texto Bandeirantes - Heróis ou vilões? A construção do mito.
6) A leitura do texto é ótima para elucidar que classe social forjou uma memória de glorificação do passado dos bandeirantes e os motivos pelos quais forjaram. É interessante esclarecer aos alunos que o conhecimento histórico é interpretação e sendo interpretação, está imbuído de subjetividade e ideologia.
7) Para dar sentido à mitificação dos bandeirantes, peça aos alunos para realizarem uma pesquisa sobre os monumentos construídos na cidade de São Paulo que fazem referência a eles. Também peça para elencarem o nome das principais rodovias que cortam a capital paulista, cujos nomes são de bandeirantes.
*Luciane Cristina Miranda de Jesus é formada em história pela Universidade de São Paulo e professora dessa disciplina na rede particular de ensino do Estado de São Paulo.

Entradas e Bandeiras
Bandeirantes expandiram limites do Brasil
Renato Cancian*Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Foi a partir do século 17 que as terras do interior do Brasil passaram a ser rotineiramente exploradas. O desbravamento e povoação dessas terras foram iniciados por expedições pioneiras chamadas de Entradas e Bandeiras. As Entradas geralmente eram expedições oficiais, ou seja, foram organizadas pelo governo da autoridade colonial. Já as Bandeiras tinham motivação particular, isto é, eram organizadas por colonos que se estabeleceram nos povoados.Os historiadores ainda hoje debatem sobre a caracterização dos dois tipos de expedições, mas ainda assim aceitam a diferenciação mencionada acima. O mais importante é entender os fatores que ocasionaram a criação das Entradas e das Bandeiras e as mudanças que essas expedições provocaram no processo de colonização do Brasil.
Riquezas e escravos
As Entradas e Bandeiras foram expedições organizadas para explorar o interior com o propósito de procurar riquezas minerais, tais como ouro, prata e pedras preciosas. Objetivavam também caçar e apresar índios para escravizá-los. Não era uma tarefa fácil organizá-las, e muito menos explorar o interior do território colonial. Havia a necessidade do preparo de muitas provisões, como alimentos, armas e instrumentos, que deviam ser transportados por animais e pelos próprios exploradores.
Outra tarefa difícil era reunir homens que estivessem dispostos a penetrar mata adentro e permanecer muitos meses no interior, sem a certeza de que retornariam com vida para seus povoados e do êxito que teriam na descoberta de riquezas ou no enfrentamento e apresamento dos índios.
As Entradas tiveram início logo após a descoberta do Brasil. Em 1504, Américo Vespúcio organizou uma Entrada composta por trinta homens que partiu de Cabo Frio e penetrou no sertão. Martim Afonso de Souza organizou duas Entradas. A primeira foi composta por quatro homens, saiu da Guanabara e permaneceu no interior por cerca de dois meses. A segunda foi composta por cerca de 80 homens e chefiada por Pedro Lobo. Saiu da ilha de Cananéia (no atual estado de São Paulo) e jamais retornou. Após o estabelecimento do Governo-Geral, as Entradas passaram a ser organizadas com maior freqüência, mas restringiram-se a explorar o interior da Bahia e de Minas Gerais.
São Vicente e São Paulo
As Entradas declinaram no início do século 17. As Bandeiras surgiram no início do desse mesmo século e se estenderam por todo o século seguinte. Foi na vila de São Vicente que surgiram as primeiras Bandeiras. O solo dessa região, impróprio para o plantio da cana-de-açúcar, ocasionou o rápido declínio da produção açucareira levando a estagnação econômica dos povoados. Os habitantes da região tiveram que encontrar outra atividade econômica para sobreviver. A alternativa foi a organização das expedições desbravadoras.
A vila de São Paulo também ficou famosa pela organização de expedições bandeirantes. As Bandeiras organizadas pelos habitantes de ambas as vilas dedicaram-se, inicialmente, à caça e apresamento de índios para vendê-los como mão-de-obra escrava aos engenhos produtores de açúcar, situados nos ricos solos do Nordeste brasileiro. Seus alvos principais eram as missões jesuíticas que concentravam grande número de índios em fazendas, para serem pacificados e depois catequizados pelos religiosos da Companhia de Jesus.
O colégio de Piratininga
Foram os jesuítas, liderados pelo padre Nóbrega, que se estabeleceram na região de Piratininga, fundando um pequeno povoado que cresceu e deu origem a vila de São Paulo. Tudo começou com a construção de um colégio e uma casa, que eram locais para catequese dos índios. Com o surgimento das Bandeiras e das atividades de caça e apresamento dos índios, os jesuítas entraram em conflito com os bandeirantes. Na década de 1640, os bandeirantes expulsaram os jesuítas de São Paulo. Muitas missões jesuíticas, além das que se fixaram em Piratininga, foram destruídas pelos bandeirantes.
Com a substituição do índio pelo negro africano no trabalho escravo da grande lavoura, o ciclo do bandeirismo de caça e apresamento dos nativos declinou. Os bandeirantes passaram, então, a se concentrar na exploração de riquezas minerais.
As Bandeiras organizadas pelos habitantes da vila de São Vicente começaram a procura de ouro nos leitos dos rios da região e foram percorrendo a zona litorânea.As Bandeiras organizadas pelos habitantes de São Paulo, com o mesmo propósito, foram motivadas a penetrar no sertão brasileiro, favorecidas pela situação geográfica da vila e pelo curso dos rios da região, que facilitavam a exploração do interior. Mas é importante assinalar que a caça e apresamento de índios não parou por completo, os próprios bandeirantes passaram a utilizar a mão-de-obra indígena para trabalharem nas pequenas lavouras de subsistência e até nas próprias expedições de exploração.
Povoamento e expansão territorial
As expedições bandeirantes tiveram importância crucial para o povoamento, diversificação das atividades econômicas e expansão territorial do Brasil colonial. Ao longo das trilhas percorridas e dos caminhos abertos pelos bandeirantes foram surgindo diversos povoados. As Bandeiras que percorreram o litoral à procura de ouro, partindo de São Vicente, deram origem às vilas de Itanhaém, Iguape, Paranaguá, Laguna e Desterro, entre outras. A penetração no sertão deu origem a vilas e arraiais como Cuiabá, Vila Rica, Diamantina, Sabará e Mariana, entre outras.
As expedições bandeirantes também possibilitaram a descoberta de riquezas minerais como ouro, prata e diamante, metais preciosos que deram origem a um novo ciclo econômico de exploração colonial. O êxito dos bandeirantes, principalmente na descoberta de metais preciosos, fez com que a Coroa portuguesa passasse a financiar muitas expedições com o objetivo de encontrar essas riquezas minerais e explorá-la como alternativa a crise econômica provocada pelo declínio da produção do açúcar.
Enquanto as Entradas respeitavam os limites territoriais fixado pelo Tratado das Tordesilhas, que dividia as terras do continente americano entre Portugal e Espanha, as Bandeiras geralmente ultrapassavam essa fronteira, em direção às regiões Sul, Norte e Centro Oeste. Entre 1580 e 1640, Portugal ficou sob domínio Espanhol. Durante esse período, também conhecido como a união das Coroas ibéricas, a Espanha governou Portugal e todos os seus domínios. Nessa época, os bandeirantes não encontraram resistências quanto a ultrapassar Tordesilhas. Quando Portugal se libertou do jugo espanhol o território colonial brasileiro havia se ampliado significativamente.
Mitos e monumentos
As Bandeiras deram origem a narrativas épicas, mitos e lendas sobre o desbravamento e conquista do sertão brasileiro, que hoje fazem parte do simbolismo regional. Embora tenham sido responsáveis pela escravização e dizimação de inúmeras etnias indígenas e pela destruição de muitas missões jesuíticas, os bandeirantes são retratados como homens heróicos, portadores de coragem, bravura e espírito aventureiro, que penetraram na mata e desbravaram a vastidão do interior até então desconhecido, enfrentaram e dominaram índios, descobriram e exploraram riquezas minerais e fundaram povoados.
Na capital paulista, outrora vila e centro irradiador das expedições bandeirantes, ergueu-se o Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret, um dos mais importantes escultores brasileiros. E bandeirantes famosos como Bartolomeu Bueno da Silva (conhecido como Anhangüera), Antônio Raposo Tavares e Fernão Dias Pais, foram homenageados tendo seus nomes dados a importantes rodovias que percorrem o interior do Estado de São Paulo.



Heróis ou vilões?

A construção do mito

Túlio Vilela*Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação


Os bandeirantes, nos quadrinhos de "Piratas do Tietê", obra de Laerte

Durante muito tempo, os bandeirantes foram encarados como "heróis". Eles teriam sido os desbravadores que contribuíram para a construção de nosso país, expandindo nossas fronteiras.Essa imagem heróica acabou dando lugar a outra, oposta: os bandeirantes teriam sido bandidos cruéis e sanguinários, que saqueavam aldeias indígenas, matando crianças, violentando mulheres e escravizando os índios.
Em nossos livros didáticos o bandeirante foi retratado dessas duas formas: ora herói, ora vilão. Ambas as imagens exageram aspectos verdadeiros da vida dos bandeirantes e ignoram outros.
Figuras polêmicas
Os bandeirantes estão entre as figuras mais polêmicas da história do Brasil. A confusão se dá entre a história dos bandeirantes propriamente dita e a construção da memória em torno deles.A imagem que bandeirantes que há os traz calçados com botas de montar, vestidos com calções de veludo e casacas de couro almofadado. É desse modo que eles aparecem em pinturas, ilustrações de livros e até em estátuas.A pesquisa histórica revela uma realidade bastante diferente: a maioria dos bandeirantes andava descalça e com roupas muito simples. Na verdade, todas as imagens que vemos dos bandeirantes foram feitas muito tempo depois da época em que eles viveram.Expedições que geralmente partiam de São Paulo e eram organizadas com o fim de capturar índios e encontrar ouro e pedras preciosas, as bandeiras existiram do século 16 ao 18, enquanto as pinturas mais antigas sobre o tema foram feitas a partir do século 19, sob a ótica idealizadora do Romantismo.
A construção do mito
Outro fator que contribuiu para o mito do herói bandeirante foi a própria transformação de São Paulo em uma metrópole, que ocorreu muito tempo depois da época dos bandeirantes. No período colonial, São Paulo não passava de um povoado isolado com pouco mais de mil habitantes.O crescimento da economia cafeeira contribuiu para que São Paulo crescesse. A região ganhou a fama de "terra do trabalho", de lugar em progresso. As elites paulistas resolveram difundir uma história idealizada, segundo a qual, as raízes desse progresso já existiam na época dos bandeirantes. Os membros da aristocracia do café seriam os descendentes diretos dos "heróicos bandeirantes".Os paulistas, especialmente os membros da elite, traziam "no sangue" a herança dos bandeirantes, homens valentes que não tinham medo de desafios, o que explicaria porque os paulistas eram trabalhadores dedicados e incansáveis.Repare que esse regionalismo está carregado de preconceito em relação aos habitantes de outras partes do Brasil: São Paulo seria uma exceção, terra de riqueza e progresso num país de miséria e atraso; o paulista leva o trabalho a sério enquanto os brasileiros de outros lugares seriam "preguiçosos".