Vida de professor da rede pública

Súplica Cearense

Mostrando postagens com marcador Artigos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

" 'Mass Murder' nas Escolas"


"Mass Murder" “Assassinato em massa” nas escolas: aconteceu...mais uma vez!
Historiador Francisco Carlos Teixeira, professor de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro, analisa os “mass murder” nas escolas americanas.
POR FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA*
Enviar ! Imprimir ! As notícias chegadas nas últimas horas ( 14/12/12) nos dão conta de mais um ataque massivo – “mass murder” - de um atirador contra civis inocentes nos Estados Unidos. Desta feita o massacre, atingindo crianças, foi em Sandy Hook, Connecticut. A imprensa norte-americana, notável por seus meios e equipamentos, transmitiu do local desde cedo e assinalou, com um traço vermelho, que era hora de oferecer solidariedade aos familiares e evitar quaisquer debates políticos sobre. A polícia prometeu, por sua vez, “esclarecer todos os fatos”. Será isso mesmo?
Caso de Polícia, saúde mental e fenômeno social
O mais notável no massacre de Sandy Hook, e tristemente notável, é a repetição dos acontecimentos narrados pelas agências internacionais. No caso atual um atirador mata um familiar, possivelmente em casa, e então busca a escola em que ela trabalha – ainda falta apurar detalhes - , e ele mesmo estudara, e inicia um ataque em massa contra os pequenos alunos. O saldo ainda não confirmado aponta para possivelmente mais de trinta pessoas mortas, a maioria crianças. Sandy Hook é uma “elementary school”, sendo seus alunos crianças e pré-adolescentes. O atirador, Adam Lanza, morto no local, tinha 20 anos e estava pesadamente armado com armas automáticas compradas por sua própria mãe.
Os ataques desse tipo, em especial contra escolas, são repetitivos no caso americano, a ponto de contarmos 177 ataques contra “High Schools” (a partir de 1853) e 111 outros contra “Elementary schools”, incluindo o atual ataque contra Sandy Hook. Alguns destes ataques, como Sandy Hook ou Bath School, em 1927, foram verdadeiros banhos de sangue. Outras, poucos, infelizmente, foram frustrados, deixando feridos e mereceram pouco destaque na mídia. Um bom número atingiu apenas um aluno ou um professor, sendo tratado com forte indiferença. A maioria absoluta deles foi cometida por alunos (e/ou funcionários) que estudavam/trabalhavam na mesma escola atacada e, ainda uma vez, a maioria dos atacantes, bem como de suas vítimas, tinha entre 14-18 anos de idade. Grande parte dos perpetradores deixou relatos – como no caso brasileiro da escola de Realengo (RJ) em 2011-, ou colegas relataram, um perfil solitário, inteligência média-alta, dedicação aos estudos e grande dificuldade de estabelecer e/ou manter relacionamentos. A grande maioria dos adolescentes e jovens sofreu alguma forma de assédio e de exclusão social, algumas vezes publicamente e de forma violenta (ainda uma vez como no caso da escola em Realengo, RJ).
Neste contexto – como também dos assassinatos de massa na Noruega e na Alemanha – os “especialistas” trataram de construir, rapidamente, análises e perfis “pessoais”, buscando descobrir o que, na personalidade do perpetrador, originou os ataques. Assim, uma “cliniquização” ( ou uma explicação psicologizante ) do atacante – família desfeita, distúrbios mentais, uso de drogas – é imediatamente aventada. Embora, paradoxalmente, os próprios colegas digam que eram “excêntricos” talvez, mas não mais do que boa parte do alunado – e que não mata colegas!
Assim, a sociedade e suas instituições, em especial as escolas, seriam poupadas de quaisquer responsabilidades na irrupção de um surto psicótico na pessoa do atacante. Em suma, estaríamos verdadeiramente buscando as respostas certas no lugar/pessoas certas? Ou, num movimento rápido de ocultamente do massacre que se passa nas escolas, estaríamos ocultando a dimensão social dos “mass murder” e de seus íntimos imbricamentos com o clima mental e emocional existente nas escolas?
É comum ouvirmos, e depois de 38 anos de magistério pude, eu mesmo, vivenciar e acompanhar casos seguidos de stress coletivo, cólera, mágoas e ira entre alunos e seus colegas, professores e alunos, bem como professores e seus colegas, funcionários e, até mesmo, pais e professores. Algumas vezes, incluindo o Brasil, com desdobramentos de violência física.
Não seria o caso de pensarmos a instituição escolar em seu conjunto? E isso seria muito especialmente verdadeiro para o caso norte-americano.
Um massacre oculto
Desde o ataque de Columbine High School (que não foi nem o primeiro e nem o mais letal dos ataques) até o atual ataque em Sandy Hook, as escolas são palco, alvo e/ou causação de súbitas explosões de raiva e ira. Sabemos todos – e isso não é um apanágio dos Estados Unidos – a escola, mesmo com escolas de ensino básico, e particularmente nas escolas para adolescentes – como as chamadas “High school” norte-americnas – são lugares onde o assédio moral, social (e mesmo sexual) pode ser intenso, cruel e, mesmo, levar a uma aniquilação do próprio eu de indivíduos mais fragilizados por sua aparência física, opção de gênero, timidez ou qualquer outro atributo pessoal correlacionado com uma vaga e cruel categoria de “losers”, os perdedores na “corrida” social pelo sucesso.
Nem sempre os professores e os profissionais de apoio e orientação – como pedagogos e psicólogos – tem a chance de acompanhar alunos – ou seus parentes – de forma adequada para prever ataques de “mass murder” como os ocorridos. Da mesma forma, não é possível “cliniquizar” todas a sociedade e manter um psicólogo de plantão dentro de cada sala de aula. Assim, tais ataques – malgrado suas particularidades e do seu desenho – não são, e dificilmente poderiam ser, previstos e, logo, prevenidos. Mas, por outro lado, a determinação da polícia de Newtown, Connecticut, em explicar a razão do ataque seja inútil. Poderão explicar, em detalhes, como seu “deu” o ataque. Mas, sua “explicação” escapa a Sandy Hook, em Newtown, Connectcut – há uma razão maior, mas ampla, insidiosa, que paira sobre todo o sistema educacional norte-americano.
Da mesma forma, nem só escolas são alvos de ataques. Cinemas e shoppings foram alvo de atos de assassinos de massa, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países. No entanto, mesmo nestes casos há um claro elo de ligação: escola, cinema e shopping são locais de reunião de jovens ou, ao menos, há sempre uma maioria de jovens. De certa forma, são continuidades dos grupos de companheirismo que se formam nas escolas. Os ataques representam, mais uma vez reconhecidas as especificidades, um notável acúmulo de frustrações, mágoas e perda que se expressam, então, em violência cega e bruta – em pleno local socialização e entretenimento dos jovens, que o perpetrador pode sentir como recusado a ele mesmo.
Da mesma forma os ataques na Noruega, em 2011, organizado em detalhes por um supremacista branco ou o ataque contra as crianças judias em Toulouse, em 2012, foram atos de terrorismo ideologicamente motivados. Cruéis e brutos tinham uma direção e mostram a face da intolerância de tipo racista e religioso. Os ataques como de Sandy Hook são cruéis e cegos, não visam uma pessoa ou um conjunto de pessoas realmente existentes, concretas. Visam “uma situação” que exaspera, por motivações diversas, o perpetrador.
O grande massacre dos inocentes
Também devemos reconhecer que os Estados Unidos não possuem o monopólio do “mass murder” (cabe diferenciar de “serial killer”, que, em regra, agem durante longo tempo escolhendo vítimas a partir de critérios diversos, conforme cada caso). Nos últimos anos assistimos, como já destacamos, a assassinatos em massa na pacata Noruega e na organizada e politicamente correta França. Mesmo no Brasil tivemos tristes episódios de ataques em cinema (São Paulo) e em uma escola (Rio de Janeiro), com um perfil muito próximo dos casos norte-americanos. Nos últimos anos a autoritária China Popular, com seus critérios draconianos de justiça, tem assistido, para perplexidade de suas autoridades, a vários ataques em escolas, com uso de armas brancas ou utensílios de trabalho transformados em armas.
No entanto, no caso dos Estados Unidos as estatísticas compilados pela Secretaria de Estado de Justiça, reunindo dados completos e pormenorizados dos ataques é, simplesmente, estupeficante. A mais antiga referência a um ataque em escolas norte-americanas data de 1764, antes mesmo da independência do país em 1776. Daí em diante as ocorrências são quase epidêmicas, com o século XIX marcado por ataques sucessivos em 1867, 1868, 1871, 1889, 1891 e 1898, perfazendo neste período pelo menos 19 vítimas infantis. A precisão das armas ainda precária e sua natureza obrigando o recarregamento davam, então, chances aos administradores de deter o atacante.
Com a chegada das armas automáticas e aquelas de fácil, e rápido, recarregamento, os ataques, e número de vítimas, cresceram. No século XX tais ataques tornaram-se, então, verdadeiramente epidêmicos, ocorrendo massacres nas “Elementary School” nos anos de 1902, 1906, 1907, 1909, 1912, 1919 e culminado no terrível massacre de 1927, quando Andrew Kehoe, após matar a esposa, ataca, com bombas caseiras, a Bath Elementary School, causando 45 mortes, no maior massacre escolar da história dos Estados Unidos. Andrew Keohoe era funcionário da escola de longa data.
Os anos seguintes assistiram a continuidade dos ataques: 1933, 1940, 1944, 1959, 1960 e 1961, com pelo menos 16 crianças mortas – lembremo-nos que em média a “Elementary school” americana abriga crianças entre 4 e 11 anos de idade. Mas, se juntarmos às estatísticas de ataques às “Elementary school” os ataques havidos contra as “High school”, que recebem adolescentes na faixa de 12-18 anos, em média, os ataques crescem de forma exponencial: são 24 ataques entre 1903 e 1968, com a morte de 27 adolescentes. Ainda uma vez a qualidade das armas e a prontidão de inspetores e funcionários faz com que a maioria dos ataques tenha em média 1-2 mortos, evitando o caráter cataclísmico do “bombardeamento” de Bath School em 1927.
A massificação do “Scholl Mass Murder”
A partir dos anos de 1970, contudo, os ataques se multiplicam e as “high school” substituem, apenas parcialmente as “elementary scholl”, como cenário principal dos ataques. Nestes anos temos 7 ataques, com 7 mortes; nos anos de 1980 são 13 ataques, com 15 mortes; nos anos de 1990 já são 60 ataques, com exatos 93 mortes de adolescentes. Entre os ataques da década de 1990 inscreve-se o tristemente célebre ataque de 1999 contra a Columbine High School, no Colorado, matando 15 alunos e professores. Os atiradores, que ensaiaram o massacre repetidas vezes, estavam envoltos – além das condições de frustração e mágoas acumuladas – numa espécie de cultura “dark”, valorizando a morte falsamente “heroica” muito comum nos vídeos games que eles assistiam e verdadeiramente cultuavam, tais como “Dom” e “Wolfstein 3D”. Eric Harris tinha 18 anos e Dylan Klebold 17 anos e relataram, em seus documentos deixados como “memorial” do massacre, casos de “bullying” e exclusão.
Nos anos 2000 até 2012 foram 68 ataques contra High School, com 74 mortes de estudantes. Nesta lista dolorosa encontramos o massacre de 2005 contra a Red Lake High School, em Minissota, atacada pelo jovem Jeffrey Weise, de 17 anos, que após matar os avós, ataca os colegas na escola. Também está nesta relação o ataque do estudante aos colegas da Virgínia Tech, universidade no estado da Virgínia, e formalmente uma faculdade e não uma “escola”, daí o expurgo dos seus 33 mortos das estatísticas do Departamento de Justiça dos Estados Unidos no âmbito de “school´s mass murder”.
Infelizmente os ataques centrados nas “High School” não afastaram o risco das “Elementary school” e no ano de 2010 deram-se 10 ataques, com 31 mortes; em 2011, foram 5 ataques e 16 mortes e em 2012, antes do ataque contra a escola de Sandy Hook (em 14/12/2012), já haviam ocorrido dois ataques, felizmente frustrados.
Embora este quadro seja verdadeiramente assustador, a mídia americana e influentes políticos – e mesmo especialistas universitários – insistiram, no dia de ontem (quando se deu o ataque, 14/12/2012) que não se deveriam “fazer política com o sofrimento das famílias”. Ora, há alguma coisa muito errada aqui.
Mass Murder e Política
Um dos mais importantes, e progressistas, sociólogos dos Estados Unidos –especializado na análise das contradições, projetos e frustrações do homem comum na sociedade de massas americana – Charles Wright Mills (1916-1962), num pequeno manual de sociologia, tornado um clássico introdutório da disciplina – “A Imaginação Sociológica” -, advertia os colegas sobre a diferença entre um “problema social” e uma “questão social”.
Wright Mills, num linguagem precisa, insistia que processos que se repetem no conjunto da sociedade e causam enorme dano e dor, mesmo mal-estar social, não podem, de forma alguma, ser atribuídos a motivos ou causas pessoais do tipo preguiça, baixo esforço ou baixa estima, ausência de talento ou incapacidade social ou distúrbios mentais. Bem ao contrário, o quanto de tais “distúrbios” tem origem em processos sociais cruéis e excludentes? Ao seu tempo, Wright Mills combatia o brutal individualismo liberal e o darwinismo social que explicava sucessos e insucessos das pessoas, num a sociedade altamente competitiva, exclusivamente através da “garra” e vontade de vencer de cada um. Colocando-se na contramão dos mitos americanos do “self made men” e da ideia de que todos vencem, se trabalham o suficiente para isso, na América, Mills vislumbrava uma sociedade já atingida por frustrações e pelo mal-estar que podia rapidamente expressar-se em repentinas explosões de ira.
A divisão popular da sociedade entre “pessoas de sucesso” e “losers”, os perdedores, já se expressa, assim, nos primeiros anos de vida e nas primeiras escolhas de jovens adolescentes, em especial num clima de competição – muitas vezes, vezes demais, desleal e cruel – no interior da própria escola. Eleições e concursos frequentes, mobilizações em torno de competições e torneios, o incentivo a mostrar um perfil de vencedor e de celebridade “popular” criam, no conjunto da sociedade, mas em especial na escola, um clima de verdadeira guerra social. O romance, de terror note-se bem, de Stephen King, chamado “Carrie, a estranha”, ambientado numa “high school”, de 1974, consagrou, de forma alegórica, o clima exacerbado e cruel de exclusão das diferenças no sistema educacional norte-americano, a cegueira de mestres e funcionários e o clima de linchamento moral. Quando tais pessoas tem acesso fácil e livre – como Adam Lanza – a um arsenal de armas automáticas são dadas as condições básicas para o desastre.
Mills, com sua delicadeza incisava – bem ao contrário de Stephen King - afirmava: aquilo que se repete e atinge amplas camadas sociais não é um problema “pessoal” e, sim, uma questão social.
A teimosia dos políticos, e dos especialistas americanos, em não discutir a livre venda de armas, a segurança nas escolas e programas de educação que valorizem o trabalho social, os objetivos de equipe e que diminuam as “guerras” entre grupos de “losers” e de “populars” nas escolas é, claramente, parte causal dos massacres.
O recuo, durante a campanha eleitoral de 2012, do Presidente Obama em colocar com clareza a questão da livre venda e porte de armas automáticas – algumas com capacidade de luta em campos de guerra total -mostra uma tremenda e indesculpável rendição perante os mitos da direita conservadora e reacionária norte-americana. Além, é claro, do lucrativo negócio de armas.
Lobbies e Mitos da Direita
Para a direita mais reacionária norte-americana, como se expressa, por exemplo, no grupo denominado “Tea Party” – núcleo duro do reacionarismo republicano – as armas, sua livre venda e posse, são uma garantia de liberdade. Voltam-se, todo o tempo, e de forma totalmente inadequada, para uma apropriação ideológica das guerras de Independência dos Estados Unidos, quando milícias de fazendeiros pegavam suas armas, atacavam repentinamente os britânicos – os “Minutmen” – e então retornavam às suas atividades rotineiras de bons fazendeiros. Assim, manter suas armas, treinar pré-adolescentes em tiro – incluindo a caça – seria manter, pura e simplesmente, a tradição dos “Pais Fundadores” da Nação.
Nem a história foi assim – já que George Washington montou exército profissional regular e os colonos americanos receberam forte auxílio do exército real francês – como, é claro, os Estados Unidos de 2012 não são as Treze Colônias de 1776. Talvez resida aqui a melhor definição de fundamentalismo: apegar-se, de forma peremptória, a um traço, narrativa ou fato do passado como uma verdade imutável. Além disso, numa cultura fortemente dividida entre noções de o que é bom e justo e aquilo que é o mal, a frustração e fragilidade identitária apegam-se em armas como muletas psicológicas. Para muitos jovens a arma é um prolongamento, capacitante e potente, de suas próprias fraquezas, substituindo sentimentos de impotência pelo poder absoluto de vida e morte.
Cabe agora às autoridades norte-americanas olhar em perspectiva: examinar esta imensa lista de mortes – em especial de crianças e adolescentes – e se perguntar se estamos, verdadeiramente, em face de atiradores “com problemas pessoais” ou em face de uma “questão social”.
Discutir a política de venda e posse de armas, melhorar a segurança das escolas – como os mesmos conservadores não duvidam em “securitizar” os bancos onde guardam seus bens – e, acima de tudo, rever os parâmetros pedagógicos que criaram uma escola competitivamente extremada, individualista e voltada para a geração contínua de “celebridades” é uma ação que se impõe com urgência.
E que as tragédias alheias, que já nos tocaram, sirvam também de lição para nós brasileiros.
* Este texto foi publicado originalmente na “Carta Maior” e sua republicação no Café História foi autorizada (e encorajada) pelo autor.
 Fonte: http://cafehistoria.ning.com/mass-murder-nas-escolas. Acesso:18/12/2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

"A vida e a arte" Gabriel G. Márquez e o Alzheimer


Em busca da memória de Gabriel García Márquez

Atualizado em  7 de julho, 2012 - 11:05 (Brasília) 14:05 GMT
Gabriel García Márquez e sua esposa, Mercedes. | Foto: AFP
A família do escritor confirmou que ele sofre de demência senil
O fato de que Gabriel García Márquez está perdendo a memória era, até a última sexta-feira, uma espécie de segredo na Colômbia, onde o assunto dificilmente se discutia em voz alta por respeito à privacidade do escritor de 85 anos de idade.
No entanto, seu irmão Jaime admitiu publicamente neste sábado que o autor de "Cem anos de solidão" e "Amor nos tempos do cólera" sofre há muitos anos de demência senil. A notícia rapidamente deu a volta no mundo.
A demência é uma doença degenerativa que se traduz em uma perda progressiva da memória e da capacidade de pensar com clareza, além de também poder provocar mudanças de humor e personalidade.
Estes problemas cognitivos podem afetar qualquer uma das funções cerebrais - além da memória -, incluindo a linguagem e a capacidade de atenção.
Segundo Jaime García Márquez, a doença é bastante comum na família do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1982.
A revelação aconteceu durante um encontro com estudantes da Espanha e da América Latina, que quiseram aproveitar sua passagem por Cartagena para ouvir as histórias do irmão mais novo de "Gabo".
E ele terminou contando que quase todos os dias fala por telefone com o escritor, que vive no México, para ajudá-lo a enfrentar a luta contra o esquecimento.
"Fiquei encarregado desta missão, que é um privilégio e, ao mesmo tempo, é muito dolorosa. Às vezes choro, porque sinto que me escapa das mãos", confessou Jaime García Márquez.
"Mas ainda temos ele, podemos falar com ele com muita alegria e com muito entusiasmo, como sempre foi."

Lembranças

O que já não será possível ter, segundo o irmão de García Márquez, são novas obras do escritor.
A doença, que o está mantendo afastado do público e da Colômbia, também dificultou a comunicação entre ele e alguns de seus amigos, especialmente os que estão mais afastados geograficamente.
"Em certo momento, eu me comunicava muito com ele por telefone, falávamos quase todas as semanas. Mas, a partir de determinada época, deixou de ligar e eu não quis incomodá-lo", disse à BBC o também escritor Plinio Apuleyo Mendoza.
Gabriel García Márquez. | Foto: AP
Um dos personagens de Cem Anos de Solidão, obra-prima do escritor, sofre da mesma doença
"Seu filho, meu afilhado, me disse que ele não reconhece bem as pessoas por telefone, só pessoalmente. E Mercedes (sua esposa) diz: 'Ele está tomando banho' ou 'está dormindo', qualquer desculpa. Não insisto em falar com ele, porque percebi que o coloco em uma situação ruim."
No entanto, a amizade de anos dos escritores transformou Mendoza em um grande depósito das lembranças de Gabo.
Das conversas dos dois nasceram os livros "Cheiro de goiaba" e "Aqueles tempos com Gabo", ambos de Plinio Mendoza.

Preservadas nos livros

De qualquer forma, as memórias de Gabriel García Márquez também são abundantes em sua própria obra literária.
Segundo Mendoza, um exemplo disso é o livro "Ninguém escreve ao coronel".
"Era a época do Gabo pobre. Como o ditador Rojas Pinilla proibiu El Espectador, o jornal para o qual ele era correspondente em Paris, ele teve que viver situações muito duras", disse o escritor, que nessa época era vizinho de Gabo em Paris.
"Ele sempre estava esperando algum dinheiro, algum pagamento, algum cheque. E ele passou isso para seu coronel, que sempre está esperando algo. Há muitos elementos baseados em suas próprias vivências que ele colocou em seus personagens."
A senilidade também é um tema muito presente na obra considerada por muitos como a mais importante do escritor colombiano, "Cem anos de solidão".
Não é exatamente uma lembrança, mas talvez ao saber que a demência senil acontecia na família, Gabo decidiu se adiantar à sua própria memória.

sábado, 14 de abril de 2012

Será que existe alguma ligação?



A escola: onde falhou?

Certo dia me entristeci e me senti impotente perante as tais coisas da vida quando vi duas ex -alunas minhas nas ruas em pleno sol quente do dia entregando panfleto nas ruas e o mais triste é que eram jovens entre 20 e 18 anos onde uma delas já tinha terminado ensino médio e a outra iria terminar esse ano. Que escolas estão dando para as classes trabalhadoras? Escola para os jovens terminarem nas ruas distribuindo panfletos? Nada contra, mas nas minhas aulas sempre falei de sonhos, de desejo de crescimento, da alegria, de valores, de dignidade e de muitas outras coisas que a vida injusta e o sistema apaga. Temos que entender urgentemente qual seria o papel da escola que não é formar trabalhadores para ocuparem o tal exército de reserva tão apregoado por Marx em seus escritos. A verdade é que nossas escolas falham e o depoimento das jovens me impressionou pelo fato de que a má preparação, a falta de um currículo convincente empurram estes jovens para caminhos que não é o que uma sociedade justa conduz.
As jovens me relatavam que têm vontade, sim, de um bom emprego que possa garantir uma vida digna , mas entregam currículos e não obtêm nenhuma resposta, pois muitas vezes há discursos como falta de experiência ou sequer estes currículos são lidos ou realmente analisados. Soube que um educador de renome da cidade que mantém uma Faculdade bastante frequentada recebe currículos e os coloca na cesta do lixo e olha que é com professores realmente mestres e/ou doutores. Imaginem só o que fazem com filhos de pobres como muitos de nós que não temos prestígios. Claro que aos filhos dos ricos nunca é exigida a tal experiência , pois o que vale em nossa sociedade é o critério da aproximação dos poderosos com poderosos e os pobres, geralmente para ter um emprego, têm de se submeter ao jogo de toma lá dá cá dos grandes políticos da atualidade.
Vendo a cena me coloquei no papel das jovens e fiquei imaginando o que elas pensam da escola que tiveram, onde frequentaram durante toda uma vida para entregar panfletos e ainda bem que estas, pelo menos não perderam sua dignidade nas drogas e na prostituição em função de escolas públicas sem qualidade, sem respeito e nem formação que conduza a uma vida melhor. As políticas para a escola pública estão, sim, errôneas e poucos se mobilizam para a mudança, pois parece que a mudança faz mal e nossa sociedade tem que continuar do jeito que é. Os políticos deveriam se envergonhar e conhecer estas jovens para saber o que elas realmente dirão da escola, pois pobres são como podres e a escola só existe para manter o status quo de uma sociedade carcomida pelo egoísmo e pelo individualismo.

Fonte:http://www.oestadoce.com.br/?acao=noticias&subacao=ler_noticia&cadernoID=13¬iciaID=66318 In:http://caosnaeducacao.blogspot.com.br/

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O que mais eles vão inventar? Novidades da Seeduc -RJ





Holocausto nazista será obrigatório na rede estadual
Rio - Os alunos da rede estadual de ensino terão a partir de agora, mais uma matéria na grade de História,o holocausto nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
A lei aprovada pela Assembléia Legislativa e publicada na edição desta segunda- feira do Diário Oficial determina que seja explicado aos estudantes a morte de milhares de judeus, homossexuais e ciganos naquele período.
De autoria do deputado Gerson Bergher (PSDB),a medida determina que o Conselho Estadual de Educação faça uma abordagem especial no tema.
Segundo o parlamentar a inclusão facilitará o combate à intolerância. “Relembrar, através dos estudo, sobre este episódio, é garantir que não se repita. A perseguição realizada pelo 3º Reich no século passado não é apenas uma questão dos judeus, ciganos e outras minorias perseguidas pelos nazistas, mas uma advertência para as perseguições hoje travadas contra as várias minorias”, argumenta.

http://odia.ig.com.br/portal/educacao/html/2011/10/holocausto_nazista_sera_obrigatorio_na_rede_estadual_198308.html

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Produção capitalista

O evangelho segundo o McDonald’s
A necessidade da ideologia para a rede fast-food
"A fundamentação da ideologia para o mundo do trabalho está pautada no modelo de produção atual, denominado de toyotismo, com dimensões bem mais abrangentes que o modelo de produção fordista, sem, no entanto, fugir da forma produtora de mercadorias do sistema capitalista. O impacto do toyotismo, porém, é mais ágil e lucrativo na produção de mercadorias, causando diferentes e novas conseqüências diretas para o trabalhador, com a busca não mais da forma individual de produzir, mas da integração dos trabalhadores em equipe.Neste modelo insere-se, de acordo com o que pesquisamos, a rede de fast-food McDonald’s, na qual o trabalho em equipe possui um importante papel dentro da organização da empresa. As metas são traçadas e destinadas às equipes de trabalho que, movidas pelos “prêmios”, instalam a competitividade e todos trabalham em ritmo acelerado. Este espírito de equipe criado pela empresa permite que o trabalhador permaneça trabalhando mesmo após as oito horas diárias permitidas.O trabalho em equipe favorece à empresa por existir uma maior cobrança sobre o trabalhador, permitindo que se cobre deste trabalhador o cumprimento de determinados conhecimentos que extrapolam as exigências da função para a qual foi contratado. Para tanto, a rede promove competições com a finalidade de provocar no trabalhador o conhecimento de procedimentos que envolvem todo o processo produtivo. O conteúdo das competições implica saber exatamente, por exemplo, o tempo exato de fritura para preparo do hambúrguer, da batata e dos demais alimentos que comercializam. A equipe ainda deve saber como funcionam os equipamentos, qual o peso exato dos produtos e o tempo de preparo de cada um; enfim, além de dominarem o trabalho de todas as estações de produção, inclusive a de caixa, devem ter conhecimento de toda a informação referente ao funcionamento dos maquinários que operam. Para tanto , não poupam esforços. Como afirmam em seus depoimentos:quando se aprende uma estação de trabalho, por exemplo, a chapa, onde frita o hambúrguer para colocar no lanche, cada estação tem um papel que chama nível de verificação. São listas de procedimentos de trabalho (...) mas a gente tem que saber dados do produto da estação, o equipamento, aí a gente leva o manualzinho, que é um livrinho, para casa, para estudar. Eu comecei a levar pra casa, e a maioria dos colegas também, desde que comecei a trabalhar e ficava estudando, estudando para ir bem, eu e minha equipe, nas competições (Funcionário da rede, em entrevista para esta pesquisa).Além do trabalho em equipe, ocorrem também competições entre elas, abordando o funcionamento do maquinário que operam, possibilitando, desta forma, o conserto, caso ocorra algum problema técnico ou numa eventual emergência, descartando a necessidade de um técnico para reparar pequenos problemas e, conseqüentemente, não demandando interrupção da produção.Existem competições dentro da empresa que faz com que o funcionário não se dedique à empresa só na hora do trabalho (...) só os funcionários extremamente capacitados, treinados e muito interessados sabem qual o peso, especificações de equipamento que só o técnico sabe. Então, o que agente faz: acaba levando os livrinhos para casa, porque a gente não tem tempo de estudar na hora do trabalho, a gente não pára, em casa a gente fica decorando, para ser o melhor da estação, para vencer a competição da loja e fazer a loja vencer a competição do setor e, depois, representar o setor junto dos outros setores (Funcionário da rede, em entrevista para esta pesquisa).Podemos crer, desta forma, que o espírito de competição disfarça uma maior exploração do trabalhador, que constantemente busca superar-se, ultrapassando, muitas vezes, seu período de trabalho sem remuneração. Para safar-se das horas extras, a empresa, através de seus gerentes, influencia cautelosamente os trabalhadores a registrarem seus cartões de ponto e voltarem ao trabalho.Na ausência de bons salários as redes tentam inculcar o espírito de equipe nos jovens. Àqueles que não trabalham com afinco, que chegam tarde ou que relutam em ficar além do horário é transmitida a noção de que estão dificultando a vida de todos os demais, deixando os amigos e colegas na mão. (SCHLOSSER, 2002, p. 102)Verifica-se que as práticas trabalhistas do McDonald’s são semelhantes à do sistema de linha de montagem, como o fordismo, em que existe a divisão do trabalho, mesclada hoje com o toyotismo:No balcão da frente, caixas registradoras computadorizadas soltam seus pedidos. Assim que um pedido é feito, botões se acendem, sugerindo outros itens do cardápio a serem acrescentados. Os funcionários que trabalham no balcão são instruídos a aumentar o tamanho de um pedido com recomendações de promoções especiais, empurrando sobremesas, apontando para a lógica financeira por traz da compra de um refrigerante maior. Ao mesmo tempo em que fazem isso, são instruídos a se comportarem de maneira agradável e amigável. (SCHLOSSER, 2002, p. 96)Para o sucesso desta forma de organização nos restaurantes, a rede investe pesado no treinamento de sua gerência, que coordena diretamente o trabalho dos atendentes. De acordo com um dos gerentes que entrevistamos, seu perfil deve ser de alguém simpático, orgulhoso da empresa em que trabalha, um exemplo a ser seguido, já que iniciou sua carreira como atendente ; no entanto, nem todos conseguem manter esta simpatia constante. Em muitas entrevistas, os atendentes reclamaram da forma de tratamento dos gerentes, que muitas vezes agem com estupidez e gritam, fazendo exigências impossíveis de serem cumpridas. Como disse um funcionário, “na hora de maior movimento a gente tem de fazer as coisas ainda mais rápido, e se é um dia que a gente não tá muito ligado, o gerente grita mesmo” (Funcionário do McDonald’s, em entrevista para esta pesquisa).A estratégia construída pela rede torna a recompensa verbal um substituto do pagamento de horas-extras e de melhores salários, ocultando, desta forma, a verdadeira intenção da empresa, que é de maior exploração da força de trabalho e, conseqüentemente, maior lucratividade.O lucro, desta forma, é a sustentação do sistema capitalista, que inverte propositalmente sua lógica, separando o trabalhador do que produz, ou seja, o criador é separado de sua criação, o que acarreta a construção metafísica do processo produtivo social.O misterioso da forma mercadoria consiste, portanto, simplesmente no fato de que ela reflete aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como características objetivas dos próprios produtos de trabalho, como propriedades naturais sociais dessas coisas e, por isso, também reflete a relação social existente fora deles, entre objetos. Por meio desse qüiproquó os produtos do trabalho se tornam mercadorias, coisas físicas metafísicas ou sociais. (MARX, 1983, p. 71)A nossa pesquisa sobre a rede McDonald’s evidenciou que o trabalho continua a ser, na sociedade contemporânea, uma centralidade fundamentalmente humana, havendo, sim, uma amplitude do entendimento do que vem a ser o ser social da classe trabalhadora.Uma noção ampliada de classe trabalhadora inclui, então, todos aqueles e aquelas que vendem sua força de trabalho em troca de salário, incorporando, além do proletário industrial, dos assalariados do setor de serviços, também os proletários rurais, que vendem sua força de trabalho para o capital. Essa noção incorpora o proletário precarizado, o subproletário moderno part time, o novo proletário dos Mcdonald’s, os trabalhadores terceirizados e precarizados, os trabalhadores da economia informal, além dos trabalhadores desempregados (ANTUNES, 2000, p. 103).O que já foi demonstrado nos escritos de Marx, que aponta para a ruptura do trabalho com a lógica do capital, permanece, uma vez que a forma de produzir continua sendo ditada pelo capitalismo. O trabalhador não perde, dessa maneira, seu potencial criador de valor, havendo, sim, uma mudança no interior desta categoria trabalho , com aumento da tecnologia. Nem por isso deixa de ser um modelo capitalista de produção, havendo somente uma mudança na produção de mercadorias, própria do sistema capitalista. Diretamente relacionada com este assunto, entendemos ser a ideologia o momento ideal da ação humana. Como declara Lukács: “nasce direta e necessariamente do hic et nunc sociedade” (LUKÁCS, 1981, p. 446)27.Esse poder que a ideologia exerce desempenha função específica e determinada por uma dada situação social favorável à sua tendência e ao seu desenvolvimento histórico, como Lukács coloca. Apenas com o intuito de delimitarmos o que compreendemos por ideologia, afastamo-nos da utilização que a reduz a simples falseamento da consciência, uma vez que a:Ideologia não é a consciência, mas uma forma específica desta; especificidade cujo traço marcante é o de estar voltado à prática, o de estar presente em toda a prática humano-social. Tendo em vista essa sua característica essencial, a ideologia não pode ser o mesmo que consciência da realidade, pois as generalizações produzidas pela ideologia estão sempre orientadas pela práxis, pelo objetivo de transformar ou manter uma realidade dada. (LUKÁCS apud VAISMAN, 1986, p. 53)Sendo assim, a ideologia funciona como um momento ideal que antecede e orienta a ação, na medida em que a espécie humana é um ser fundamentalmente prático. Neste sentido, o enfoque que nossa pesquisa aborda passa necessariamente pelo poder da ideologia, uma vez que as condições capitalistas exigem do trabalhador práticas que são contrárias aos seus interesses:O poder da ideologia dominante é indubitavelmente imenso, mas isso não ocorre simplesmente em função da força material esmagadora e do correspondente arsenal político-cultural à disposição das classes dominantes. Tal poder ideológico só pode prevalecer graças à vantagem da mistificação, por meio da qual as pessoas que sofrem as conseqüências da ordem estabelecida podem ser induzidas a endossar, consensualmente, valores e políticas práticas que são de fato absolutamente contrários aos seus interesses vitais. (MÉSZÁROS, 1996, p. 26)No tocante especificamente ao que estamos tratando, para a realização de uma maior exploração, o trabalhador precisa estar em “harmonia” com as práticas determinadas.Obrigar as pessoas a se submeter aos ditames do trabalho realizado como um “hábito” mecânico – ditames que emanam do impulso inexorável do capital para o lucro – foi transformado em uma virtude inquestionável. (MÉSZÁROS, 1996, p. 89)O discurso sobre as novas formas de trabalho é, fundamentalmente , uma racionalização ideológica que, se não aplicada na prática, poderá gerar conflitos de classes. Assim, para aprovar a contínua viabilidade da ordem econômica estabelecida, a ideologia desempenha um papel importante no processo de readaptações estruturais.”---É isso!


Fonte:CARMEN LUCIA RODRIGUES ALVES: “O EVANGELHO SEGUNDO O McDONALD’S UM ESTUDO SOBRE O PROCESSO DE PRODUÇÃO DA FAST-FOOD”. (Dissertação apresentada aoPrograma de Estudos PósGraduados em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em História (Área de Concentração: História Social), sob orientação do Prof. Dr. Antonio Rago Filho). Pontifícia Universidade Católica. São Paulo, 2006 .

Nota: A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Greve

Bombeiros e professores

Bom, antes mesmo de iniciar este texto, sei que vão me acusar de estar contra os bombeiros. Mas não é nada disso. Ainda me lembro quando pequeno, ganhei um kit com capacete, cinto vermelho e um machadinho. Adorava aquele capacete preto com um arco dourado no alto.

Meu primo Marcos, então, era fanático pelos caminhões vermelhos que cruzavam as ruas em alta velocidade, tocando aquela sirene altíssima, a caminho de alguém em pânico em algum lugar da cidade. Num prédio em chamas, no fosso de um elevador ou mesmo no topo de uma árvore onde um bichano indeciso tinha nos bombeiros a última esperança para salvar a derradeira de suas sete vidas.

Só o que me espanta nesse movimento grevista que tomou conta do Rio é a adesão da população. Nada contra, a causa é justa. Soldados do fogo que arriscam suas vidas têm que ter uma remuneração digna, claro.

Assim como os policiais civis e militares, que deveriam ganhar, no mínimo, R$ 5 mil por mês.

Mas eu fico me perguntando quantas greves de professores aconteceram sem que a população lhes desse a menor pelota.

E nem bombeiro, nem policial, nem médico _ apesar da nobreza e da importância de seus ofícios _ têm tanta responsabilidade social quanto o professor.

No entanto, nunca vi a cidade sair as ruas de fita vermelha na mão para protestar contra o salário de fome dos nossos mestres docentes. O que espera um país, um estado, uma cidade que paga menos de R$ 1 mil por mês àqueles que vão formar os cidadãos de amanhã?

Evidentemente, tudo que se pode esperar é um amanhã igual ou pior que o triste hoje em que vivemos. Com os jovens saindo das faculdades sem nem saber escrever uma simples redação sobre suas últimas férias.

Mas os bombeiros, com sua aura de heróis, ganharam a adesão dos cariocas. A mídia ajudou bastante, depois de subestimar o movimento até não poder mais e de atribuí-lo a uma jogada política do ex-governador do Rio Garotinho. A desastrada invasão do quartel com mulheres e crianças, porém, por incrível que pareça, revelou-se um catalizador da opinião pública. E a greve ficou tão forte que o governador teve que ceder.

Tomara que os bombeiros consigam salários dignos. Eles merecem.

Mas e os professores, que mal ganham para comer que dirá para se aperfeiçoarem e educarem melhor nossas crianças? E esses educadores que arriscam suas vidas em escolas em áreas conflagradas e sofrem ameaças de alunos delinquentes e de pais piores ainda?

Quando vamos sair às ruas para que este país tenha uma educação decente?

http://www.jblog.com.br/rioacima.php?itemid=27120

domingo, 24 de outubro de 2010

Você é reacionário?

Você é reacionário?
“Pobre é assim porque merece?
Não existe racismo no Brasil?
Índio é preguiçoso?
Cotas é racismo contra branco?
Trabalhador grevista é baderneiro?
Programas sociais é “populismo”?
Todo camponês sem-terra é vagabundo?
Acha que a corrupção no Brasil começou em 2003?
Tem alguns amigos negros, mas não quer sua irmã, ou filha, namorando nenhum deles?
Acha que nordestino afunda o Brasil?
Os direitos humanos existem pra defender bandido?
Bandido bom é bandido morto?
Gosta de humilhar pessoas humildes?
Baseia seus chutes dizendo: “li na Veja”?
Já foi ou sonha ir pra Disneylândia?
Não dá a mínima para a pobreza no Brasil?
Você se acha mais inteligente que o “povão”?
O Brasil não te merece?
Se você disse “SIM” “para alguma das perguntas”, saiba que é um reacionário-conservador. E assim como todos da sua laia, saiba que você também é racista (mesmo que cordial), arrogante, pedante, elitista... (cortei ofensas) Parabéns (cortei ofensas)! O Brasil sempre foi feito pra você. Divirta-se!”
Postado por Gilvan In: Comunidade dos professores do estado do Rio de Janeiro no Orkut (com modificações)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Ídolo das origens.

Leia e de sua opinião. Pois a minha já foi dada.
"Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las".
Sobre o ensino de história das antigas civilizações – parte 1
MÍDIA & EDUCAÇÃO O ídolo das origens na pesquisa do ensino
Por José Alexandre Silva em 27/7/2010
O historiador francês Marc Bloch, antes de ser fuzilado pelos nazistas nas proximidades de Lyon, fez um mea culpa na sua obra póstuma Apologia da História. A razão das escusas é pelo fato de, como homem de história que era, possivelmente ter cedido ao culto do ídolo das origens. Em outras palavras, ainda as suas, a tentação de explicar o mais próximo pelo mais distante. A observação de Bloch vem sendo ratificada há várias gerações de professores de História e historiadores e ainda assim continuamos prestando nossa reverência ao ídolo das origens.
Num texto de opinião, "A hora e a vez da História", na revista História Viva e reproduzido em várias publicações, o historiador Jaime Pinsky se revolta contra um movimento de escolas que abandonam o ensino de história das civilizações pondo em seu lugar uma espécie de história da atualidade, posterior ao século 19. Sua argumentação se encaminha na direção de que devido a um pragmatismo neoliberal foi diminuído o número de aulas de história e que alguns professores, em nome de um ensino supostamente crítico, estão tirando a possibilidade de os alunos terem uma visão mais abrangente da história. Um belo tributo ao ídolo das origens.
Em entrevista ao jornalista Carlos Haag, da revista Pesquisa Fapesp, três historiadores, Pedro Paulo A. Funari, Renata Senna Garraffoni e Glaydson José da Silva, falaram sobre a relevância do estudo de História Antiga. As perguntas benevolentes do entrevistador se referiam à relevância e à viabilidade da pesquisa em História Antiga no Brasil. A resposta dos historiadores em linhas gerais enfatiza a importância de se conhecer as sociedades que deram origem ao nosso direito, à nossa língua e outras instituições importantes. Vale lembrar que os pesquisadores acima dedicam suas carreiras à pesquisa de História Antiga tendo sido financiados por órgãos de fomento nacionais e internacionais. São como que sacerdotes do ídolo das origens.
O ídolo tem cadeira cativa
30 de julho é o prazo final dado pelo MEC para os professores de Ensino Fundamental de todo país escolherem os livros, dentre os quais os de História, do Programa Nacional de Livros Didáticos para o triênio 2011-2013. 15 coleções de livros foram postas à escolha dos professores e todas reverenciam o ídolo das origens. 94% das coleções são denominadas história integrada e 6% de história temática. A organização dos conteúdos no grupo maior é linear e mesmo que não se mencione utilizam o que é chamado de quadripartição histórica: História Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Intercaladas a essas divisões temporais se incluem conteúdos de História do Brasil, da América e africana e afro-brasileira. Em todas as coleções livros inteiros são dedicados à história das origens do mundo ocidental.
Certamente é inviável mensurar a quantidade de pesquisas que possam estar sendo financiadas por órgãos de fomento à pesquisa sobre Antiguidade ou Idade Média. Questionar se seria mais proveitoso destinar tais verbas para pesquisas referentes à nossa realidade nacional não é sucumbir a uma pedagogia nacionalista, mas direcionar o talento dos pesquisadores para questões referentes à nossa realidade e ou à realidade latino-americana. Não se trata de nacionalismo exacerbado ou de negar a importância da história de outros países. Afinal é com os pressupostos teóricos e metodológicos de historiadores franceses, ingleses, alemães ou italianos que os brasileiros foram treinados. A questão é se debruçar mais sobre a nossa história.
Seja no ensino, na pesquisa, na mídia ou no mercado editorial de livros didáticos e não didáticos de História, o ídolo das origens tem cadeira cativa. Tem também uma rede vasta de acólitos e sacerdotes sempre a postos para a manutenção de seu culto. São professores, historiadores, jornalistas e editores dispostos não só a lhe prestar reverência como também a angariar novos seguidores. O ídolo não se contenta com origens nacionais, mas com as origens da civilização, que remonta a milênios. Questionar a fé no ídolo das origens é questionar a viabilidade da pesquisa e do ensino e da difusão de histórias tão longínquas ao que é propriamente nosso.
A segunda e terceira parte se encontra no link abaixo.
Fonte:http://professorfabio.wordpress.com/

terça-feira, 27 de julho de 2010

Etimologia da palavra: Aluno

ALUNO
Quem conhece os doze trabalhos de Hércules deve lembrar o quanto penou nosso herói para matar a Hidra de Lerna, uma monstruosa serpente de sete cabeças, todas elas dotadas de presas venenosíssimas. Parecia uma tarefa impossível, pois para cada cabeça cortada brotavam outras duas, novinhas em folha — e estariam se multiplicando até hoje, infinitamente, se Hércules não tivesse a idéia de cauterizar os pescoços decepados com a chama de uma tocha (para mais detalhes, sugiro uma volta aos Os Doze Trabalhos de Hércules, na versão genial de Monteiro Lobato). É a esta mesmíssima Hidra, aliás, que estamos nos referindo quando chamamos uma tarefa difícil de “bicho-de-sete-cabeças”.
Sempre me lembro dela e de suas cabeças renováveis quando vejo renascerem velhos mitos lingüísticos que há muito foram sepultados. Confesso que alguns deles são realmente duros de matar! Apesar de transpassados pela espada da razão e pela lança da ciência, não é que volta e meia eles reaparecem para assombrar os cristãos? Pois um leitor de Santa Maria acaba de enviar um apelo para que eu o ajude a enterrar — se possível, de forma definitiva — aquela já tão desacreditada versão de que a palavra aluno carregaria consigo um sentido pejorativo. Mas de novo? Depois de tudo o que se escreveu sobre isso, alguém ainda insiste em defender uma tão rematada tolice? Acho que posso imaginar o desânimo de Hércules, ao ver as hediondas cabeças renascerem…
A palavra aluno vem do Latim alumnus (até aí morreu Neves), da família do verbo alere (”criar, alimentar”). Designa a criança que ainda precisa ser nutrida e cuidada — inicialmente no sentido do alimento físico, passando mais tarde ao sentido do alimento do espírito. Circula por aí — principalmente nos meios pedagógicos, o que é, no mínimo, curioso — a interpretação macarrônica de que a palavra viria, na verdade, da junção do prefixo privativo a- (”que não tem”) com o substantivo lumen (”luz”; corresponde ao nosso lume). Isso a tornaria uma palavra politicamente incorreta, ao sugerir que o estudante seria alguém que vive na treva, à espera da iluminação do professor — o que, dizem algumas vozes modernosas, descreve uma relação desigual, de cima para baixo, quando, na verdade, o professor e o estudante deveriam idealmente manter uma relação de colaboração, funcionando à semelhança dos dois pauzinhos que, atritados um contra o outro, acabam produzindo fogo. Como na Idade da Pedra.
Parece que voltamos aos tempos de Isidoro de Sevilha, dicionarista da Idade Média, que era mestre em torcer o bracinho da etimologia até que ela confessasse o que ele desejava ouvir. Como teólogo (depois santificado), via na “origem” das palavras a evidência das Escrituras; por exemplo, para ele, a morte (em Latim, mors) vem de morsus (”mordida”), pois o homem só passou a ser mortal depois da primeira mordida que o pai Adão deu na maçã… No caso de aluno, nota-se o mesmo desrespeito à realidade lingüística para fins ideológicos. Não vou discutir aqui a concepção pedagógica que está por trás dessa interpretação forçada, com a qual não concordo, mas vou me ater exclusivamente à etimologia do termo. Já falamos nisso aqui nesta coluna: o prefixo privativo a- é do Grego (acéfalo, analfabeto, etc.), enquanto lumen é do Latim. É verdade que palavras modernas — amoral, televisão — podem ser formadas pela união de elementos de línguas diferentes, mas este não é o caso; em alumnus, vocábulo latino muito antigo, não existe prefixo algum, muito menos grego.
Para tentar pôr um fim a essa lengalenga, recomendo a leitura urgente de um valiosíssimo livrinho que todo pedagogo deveria incluir entre suas obras de referência: trata-se de um “dicionário etimológico para ensinar e aprender”, intitulado Oculto nas Palavras, de Luis Castello e Claudia Mársico, professores de Letras Clássicas da Universidade de Buenos Aires (traduzido aqui pela Editora Autêntica, de Belo Horizonte, em 2007). Ali encontrarão, bem explicada e fundamentada, a etimologia de uma centena e meia de palavras pertinentes ao ensino e à educação (como educar, orientar, adolescente, discípulo, tutor, mestre, etc.). Tenho certeza de que os verbetes, que são muito completos e muito bem escritos, serão de grande utilidade para os estudiosos e pesquisadores da área, principalmente por colocarem uma pedra sobre o tão pernicioso “achismo” de nosso mundo acadêmico. A respeito de aluno, por exemplo, os autores começam dizendo, com serenidade e firmeza: “O termo foi, curiosamente, objeto de uma explicação etimológica disparatada(…) Aluno seria ‘o que não possui luz’, ‘o que está no escuro’, e que, portanto, busca ‘iluminar-se’ mediante o estudo. Essa explicação, decerto, não resiste à menor análise histórica ou lingüística“. E por aí eles vão.
(segue)
Sua Língua por Cláudio Moreno – Parte Final
Depois do Acordo:
lingüístico > linguístico
idéia > ideia
Fonte: Sua Língua por Cláudio Moreno