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Súplica Cearense

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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Tempo e História



Os tempos da História
Prof. Dr. Eduardo Marques da Silva

Aqui se tem a sensação que vivemos um eterno festival de síndromes. Surpreendentemente diríamos que presenciamos sempre o acometimento da verdadeira Síndrome de Chalaça ou mesmo que tudo decorresse da conhecida Síndrome de Peter Pan ou ainda que fosse um significativo sinal permanente das síndromes de que estamos sacudidos. Basta observarmos com mais atenção o nosso panorama político parlamentar que podemos constatar que a nossa luta é de vivermos "expurgando formatações". Tais síndromes são repetitivas e se renovam na nossa burguesia e nos comportamentos de nossa classe média!
Pobre Brasil, que de tanto querer se fazer passar por Brazil, com seu desenvolvimento para fora, como afirmaram Pedro Paes e O. Sunkel, não se deu conta ainda de seu tempo de duração escravista nos ombros. Parece que tudo aconteceu, como ainda acontece, em sono profundo, letárgico, como num nirvana. Pois também parece que se esqueceu de observar que quatrocentos anos de chicote & pelourinho não foram suficientes para que se aprendesse que tratando os oriundos de nossa escravidão, agora mergulhados na pós-escravidão, tenham se convertido na atualidade em corpos calados (Malaguti, 2004). Busca desastrosa e desesperadamente uma sobrevida que o retire do quadro complexo que lhe atribuiu o seu multiculturalismo.
Sabemos da possibilidade de mapear o perfil comportamental de um determinado segmento social, mesmo se não for considerado segmento social oficialmente e apenas seja considerado grupo ou corpos sociais e socioculturais, calados e contestatoriamente autônomos, pela urbanidade da modernidade. Sofremos de uma síndrome de início de cegueira catastrófica no tempo presente ou de seus elementos mais perniciosos.
Podemos mapeá-los pelos poderes derivados de seus comportamentos sociais através de signos registrados na linguagem, através das suas palavras, com a contribuição recente na academia dada por Jean-François Lyotard (1988).
Arthur Charles Clarke, escritor de ficção científica, disse em entrevista que "Pode ser que nosso destino neste planeta não seja adorar a Deus, mas sim criá-lo". E isso nos faz pensar, pois concepções de Deus >variam tanto de uma pessoa para outra que não há claro consenso sobre a natureza de divindade existir. “Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!”, afirma Clarke. Nós seriamos os algozes dos algozes da divindade.
Não teremos de nos tornar a nós próprios deuses para parecermos dignos do todo-poderoso, como afirmaClarke. Nunca existiu ato mais grandioso na face da Terra, e quem quer que nasça depois de nós certamente passará a fazer parte, entregue a este, de uma história superior a toda história até hoje(Friedrich Nietzsche.
O primeiro registro histórico de divindade data do período Paleolítico, estendendo-se ao Neolítico ou civilizacional. É quando se acredita que tenha surgido um sentimento humano de vínculo com algo maior do que o próprio Ser, a Terra e a Natureza, os Ciclos e a Fertilidade. A adoração da Deusa mãe, a Mãe Terra ou Mãe Cósmica se estabeleceu como a primeira religação divina, religião humana. Em torno desse sentimento se formariam ‘sociedades matriarcais’, todas centradas na ‘imagem feminina’, talvez pelo ‘poder de concepção’. Os hebreus da Mesopotâmia foram os primeiros a chamar esta Deusa Mãe de Pai e, ainda que masculinizassem a ideia básica de família e continuidade da vida, sua sociedade não era efetivamente patriarcal. Segundo Joseph Campbell, o patriarcalismo surgido com os hebreus se deveu à atividade belicosa de pastoreio de gado bovino e caprino e às constantes perseguições religiosas, que desencadeavam o nomadismo e a perda de identidade territorial. Podemos ver, segundo Braudel, as transformações, conforme suas ferramentas metodológicas de classificar períodos e fatos na história
História e ciências sociais: a longa duração
Para Braudel, há uma crise geral das ciências do homem, todas esmagadas sob seus próprios progressos, devido à acumulação dos novos conhecimentos e da necessidade de um trabalho coletivo. Direta ou indiretamente, todas são atingidas, mas permanecem às voltas com um humanismo retrógrado, insidioso. Preocupam-se com seu lugar no conjunto monstruoso das pesquisas antigas e novas, cuja convergência hoje se adivinha. As ciências do homem sairão dessas dificuldades? Talvez tenham a ilusão disso, pois no risco de voltar a falsos problemas ei-las preocupadas em definir metas, métodos e suas superioridades, como isoladamente Lévi-Strauss, na Antropologia Estrutural, rumo aos procedimentos da Linguística – horizontes da história “inconsciente” e o imperialismo juvenil das matemáticas qualitativas. Uma ciência que ligaria a ciência da Comunicação, a Antropologia, a Economia Política, a Linguística, mas a própria Geografia se divorciaria da História! A História, a menos estruturada das ciências do homem, aceita todas as lições de sua múltipla vizinhança. As outras ciências sociais, mal informadas da crise dos anos 1940 a 1960, preferem desconhecer.
“Nos trabalhos dos historiadores, um aspecto da realidade social do qual a história é boa criada, hábil vendedora: essa duração múltipla e contraditória da vida do homem não é apenas a substância do passado, mas o estofo da vida social atual”, uma razão a mais para assinalar a utilidade da História ou da dialética da duração, tal como ela se desprende da observação repetida do historiador, pois nada é mais importante, no centro da realidade social, do que essa oposição viva, repetida indefinidamente entre o instante e o tempo. A história se ilumina com uma nova luz: de experiências e tentativas recentes desprende-se uma noção precisa da multiplicidade do tempo e do valor excepcional do tempo longo: a história das cem faces deveria interessar às ciências sociais, vizinhas.
A História de curta duração, como se dizia no século XVI, enche a consciência dos contemporâneos, mas não dura. O homem se incorpora e depois redescobre a vontade ou o tempo curto da vida cotidiana, das ilusões, das rápidas tomadas de consciência – o tempo, por excelência, do cronista, do jornalista.
O passado é essa massa de fatos miúdos, brilhantes, obscuros ou repetidos. Fatos que constituem o despojo cotidiano da Microssociologia ou Sociometria. A política não é forçosamente ocorrencial nem é condenada a sê-lo. Os historiadores dos séculos XVIII e XIX haviam estado mais atentos às perspectivas da longa duração que a seguir somente grandes espíritos, comoMichelet, Ranke, Jacob Burckhardt, Fustel de Colange souberam redescobrir. Todo trabalho histórico decompõe o tempo decorrido. A história tradicional, atenta ao tempo breve, ao indivíduo, ao evento, habituou-nos à sua narrativa precipitada, dramática, de fôlego curto.
A História de média duração é o tempo conjuntural. Uma estrutura é a arquitetura de uma realidade que o tempo utiliza mal e veicula muito longamente. Algumas realidades, por viverem muito tempo, tornam-se elementos estáveis de uma infinidade de gerações: atravancam a história. A nova história econômica e social põe no primeiro plano de sua pesquisa a oscilação cíclica e assenta sobre sua duração. Hoje, ao lado do relato, há um recitativo da conjuntura que põe em questão o passado por largas fatias: dez, vinte ou cinquenta anos.
As mentalidades são posições de longa duração, os quadros mentais também. A dificuldade é discernir a longa duração no domínio em que a pesquisa histórica acaba de obter seus inegáveis sucessos. Dos séculos XIV a XVIII, até por volta de 1750, a circulação viu o triunfo da água e do navio, os surtos de progresso europeu. Situa-se uma história de amplitude secular. A longa duração se apresenta como um personagem complicado, amiúde inédito. Para o historiador, ocultá-lo é prestar-se a uma mudança de atitude, a uma alteração de pensamento, a uma nova concepção do social. É em relação a essas extensões de história lenta que a totalidade da história deve ser repensada, a partir de uma infraestrutura.
Todos os milhares de estouros do tempo da história se compreendem a partir dessa semi-imobilidade. A história é a soma de todas as histórias possíveis, uma coleção de misteres e de pontos de vista, de ontem, hoje e amanhã. O único erro seria escolher uma dessas histórias com a exclusão das outras. Trata-se de definir uma hierarquia de forças, de correntes, de movimentos longos e impulsos breves tomados de suas fontes imediatas, de um tempo longínquo. Cada atualidade reúne movimentos de origem, ritmos diferentes: o tempo de hoje data o de ontem, de anteontem etc.
O caminho até a globalização
Segundo Hobsbawm, o começo da globalização pode ser encontrado na chamada Era da Catástrofe, de 1500, quandotudo mudou, desencadeando o fenômeno conhecido como globalização.
Otomanos desembarcaram em Otrento, às portas de Roma, reativando as messiânicas crenças milenaristas e expulsando Veneza do comércio mediterrânico oriental. O império otomano domina o mediterrâneo oriental. Otomanos ameaçam o coração da Europa. Afirmava-se como a primeira potência naval do mediterrâneo oriental. Florença aproveita-se da guerra dos otomanos contra Veneza para obter privilégios comerciais. Otomanos exercem atração sobre os excluídos da cristandade ocidental.
Os lusos estabeleceram a comunicação entre Europa e a África e depois com a Ásia, cuja relação foi obra dos ibéricos. Graças a eles e aos predecessores judeus e árabes, a globalização também se estabeleceu com formas de comunicação distintas pelos algarismos e o cálculo astronômico. A conjuntura mundial em toda parte favorecia a expansão ibérica. A chegada de Cabral à costa do Brasil marca a data na história da astronomia ocidental. As expedições ibéricas inauguraram de outra forma o processo de globalização: aceleraram e intensificaram os contatos com as populações distantes.
Na América, chegou ao auge o império mexicano (Astecas) no reinado de Ahuitzoth. Houve então a sucessão no império mexicano. Morreu Ahuitzoth e seu sobrinho Montezuma o sucedeu, levando o império ao seu apogeu. Seria também a testemunha e a vítima da invasão espanhola em território mexicano. Espanhóis chegaram à América e reconquistaram Granada, na terra Ibérica. Nativos da América tomaram conhecimento da presença de europeus (desconhecidos) no Caribe. Espanhóis concluem a reconquista de Granada em terra Ibérica, mas de jeito nenhum a luta contra o Islã.
Com as conquistas portuguesas (Orã), espanholas (Trípoli), percebe-se que os ibéricos, no início do século XVI, concretizam o estrangulamento do Islã. Com a conquista da Malásia, os portugueses se estabelecem no sudoeste da Ásia. A primeira expedição espanhola só tocou a costa do México em 1517. No México como nos Andes, as previsões de uma destruição garantiam que as sociedades antigas tinham de fato previsto a conquista, embora não pudessem impedi-la, e que a derrota seria inevitável.
Referências
HOBSBAWM, E. J. Bandidos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976.LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1988.
MALAGUTI, Vera. Rio de Janeiro: a cidade do medo. Rio de Janeiro: Revan, 2004.
SUNKEL, O. Desenvolvimento, subdesenvolvimento, dependência, marginalização e desigualdades espaciais: por um enfoque totalizante. In: BIELSCHOWSKY, R. (org.). Cinquenta anos de pensamento na CEPAL. Rio de Janeiro: Record, 2000.
SUNKEL, O. Um ensaio de interpretação sobre o desenvolvimento latino-americano. Rio de Janeiro: Difel/Fórum, 1975.
Publicado em 20 de abril de 2010

domingo, 4 de abril de 2010

Mito da Caverna

O vídeo acima é a edição, de uma história em quadrinho, elaborada por Maurício de Souza sobre o Mito da Caverna, estrelando Piteco, sua finalidade é facilitar e quem sabe complementar o entendimento do nosso estudo sobre o mesmo mito em sala de aula.
O objetivo de analisarmos tal mito é de termos contato com a forma de pensar dos antigos e mais especificamente dos antigos gregos e a importância do mito para a compreensão de uma visão acerca de um mundo diferente do nosso.
“Platão acreditava que este mundo em que vivemos não passa de uma cópia imperfeita de um outro mundo perfeito que ele chamava de mundo das idéias. Aqui no mundo das aparências permanecemos presos às ilusões, às imagens, às opiniões, às falsas promessas, portanto, a tudo que aprisiona o indivíduo no erro. Através do mito da caverna ele ressalta o papel da filosofia de libertar o ser humano desses grilhões que o aprisionam, trazendo-o para a luz da verdade. Para Platão, o conhecimento da verdade proporcionado pela filosofia nos transporta do mundo das aparências para o mundo das idéias; da caverna para a liberdade; da alienação para a consciência; da morte para a vida”.
Fonte: http://noboteco.wordpress.com/2008/06/24/a-ilha-matrix-e-o-mito-da-caverna/

O Mito da Caverna

Rafael Santana Soares
Platão foi um grande filósofo, e o Mito da Caverna é muito interessante porque reúne as condições psicológicas do ser humano. Podemos observar que a história fala que havia homens aprisionados em uma caverna, e esses homens nunca tinham visto o mundo em sua forma natural, eles apenas viam sombras (a cor cinza da vida).
Conta Platão que um desses homens conseguiu escapar das correntes com que era aprisionado. Esse homem que escapou foi o único que conseguiu ver a realidade, por isso também queria leva-la para os outros que estavam aprisionados dentro da caverna, mas, como eles acreditavam que a verdadeira realidade era aquela das sombras, não confiaram no que aquele homem que dizia conhecer a verdadeira realidade estava dizendo, por isso pegaram-no e o mataram.
Platão elaborou essa fábula para que as pessoas pudessem perceber que há muitas coisas que nós acreditamos em função do nosso modo de pensar. Na historinha em quadrinhos do Piteco, elaborada por Mauricio de Sousa, baseada no Mito da Caverna, o autor faz uma espécie de comparação entre aqueles tempos remotos e hoje, mostrando alguns homens assistindo à televisão. No meu ponto de vista, Platão queria nos mostrar que aqueles homens primitivos se encantavam assistindo às sombras e achavam que a vida deles fosse apenas isso e nada mais, e Mauricio de Sousa retrata que os tempos de hoje estão se tornando semelhantes ao Mito da Caverna, porque do mesmo modo que aqueles homens primitivos ficavam obcecados por aquelas sombras, os homens de hoje em dia estão obcecados pela televisão e por outros meios de comunicação.
A mídia está trazendo danos à saúde da população atual. Por causa da televisão, o índice de obesidade aumentou muito, já que as crianças, os jovens e até mesmo os adultos passam mais tempo diante dela do que cumprindo com suas obrigações. As crianças estão se tornando mais agressivas por causa dos filmes, desenhos e seriados. As novelas levam o sexo para as pessoas de qualquer idade e, por isso, o índice de natalidade aumentou tanto, com as pessoas fazendo filhos cada vez mais cedo. Muitas crianças nunca tiveram um contato maior com a natureza nem com alguns animais porque a televisão mostra essa natureza e esses animais de forma comum, isso traz uma realidade inexistente a essas crianças, tirando assim a curiosidade delas.

O Mito da Caverna

Alexandre Ferreira Prodi
O Mito da Caverna nos leva a pensar em alguns pontos da nossa vida (da minha especificamente). O próprio mito nos revela como nos distraímos com algumas coisas tão banais e fúteis da vida ou, como no mito, com as sombras em 2D. Assim, não analisamos o contexto e a beleza das coisas mais profundamente — ou o dono da sombra. Os personagens prisioneiros ficavam admirando as sombras das pessoas, dos animais, objetos que passavam, mas não viam como eram esses objetos realmente, não podiam ver como as pessoas e os animais eram, sua cor, sua forma, sua aparência, só viam a sombra, e não os donos das sombras. Mas, quando um deles resolveu conhecer o mundo fora da caverna e tentou acordar os outros para a realidade, foi morto, porque achavam que somente aquilo, as sombras, era a realidade, somente aquilo mostrava “o fascinante show da vida”.
No nosso hoje, não é diferente. Como na cômica história de Mauricio de Sousa — As sombras da vida com Piteco —, o homem, o ser humano, tem se voltado para a mídia, para as “fofocas”, “novelas”, “filmes”, entre outras coisas, achando que aquilo que ele está vendo, assistindo, é a mais pura verdade, quando muitas vezes não é. Nada contra as noveleiras ou fofoqueiras de plantão, mas o homem coloca um cabresto em si mesmo, dizendo que somente o que a mídia faz ou mostra é o certo, quando muitas vezes tudo é programado — como, por exemplo, o “famoso” Big Brother, no qual todas as pessoas são contratadas e possuem um roteiro, orientando como fulano ou beltrano devem atuar — ou a informação está errada — as famosas fofocas de Leão Lobo — ou filmes que contam uma realidade totalmente diferente fazem com que a pessoa acredite, por exemplo, em magia, duendes, fantasmas, entre outras coisas.
A pessoa fica tão vidrada na TV ou no rádio ou em outro meio de comunicação qualquer, que não para para observar a realidade à sua volta, não abre os olhos para contemplar a vida. Uma pessoa assim só se movimenta, só vive se for através da mídia e não sai para analisar se aquilo que estão apresentando para ela é verdade, se aconteceu realmente, como foi, se existe mesmo aquilo que foi falado... Não se interessa em descobrir a vida através de outros meios — como em um esporte, um bom livro, uma viagem, um trabalho — ou até mesmo indo ao parque próximo da sua casa, se é que ele sabe que existe um parque perto de sua casa.
Nossa vida não é um mar de rosas, tudo fácil-fácil. Mas, se quisermos que seja, devemos batalhar por isso. Devemos aproveitar cada segundo como se fosse o último, e não ficar somente na figura em 2D, mas nos aprofundar nas formas e nos formatos das coisas em 3D, ou seja, não ficar só nas coisas planas, mas nos aprofundar mais nas coisas da vida, saber os “porquês” e aproveitar os momentos da vida como se fossem os últimos, abrir os olhos para a realidade e ver a vida como ela realmente é.
E, para terminar, uma frase célebre: “Conhece-te a ti mesmo...” ou és um simples vidrado na mídia?
O texto de Alexandre Ferreira Prodi e o de Rafael Santana Soares circulam na internet. Se você sabe quem é o autor, escreva-nos, pois queremos dar os devidos créditos.
Fonte: http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=1455

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Língua dos Faraós

Abaixo disponibilizamos parte de um artigo sobre: A Língua dos Faraós, extraído do site da Revista Leituras da História: http://portalcienciaevida.uol.com.br/ESLH/edicoes/24/artigo157057-1.asp?o=r. Para uma leitura completa do artigo é só acessar o site.
Escrevendo em Hieróglifos
Interpretar os símbolos sagrados dos faraós requer algumas regras básicas que até os não acadêmicos podem ser seguidas com certa facilidade. Confira no artigo a seguir algumas dicas e prepare-se para arriscar algumas palavras nessa fascinante linguagem
Por Moacir Elias Santos
Há muitos anos, quando ainda na infância, lembro-me de ter assistindo a um filme produzido em 1980, originalmente chamado The Awakening (O Despertar), mas traduzido aqui no Brasil como Reencarnação. Neste, havia uma cena curiosa, que mostrava o instante em que o egiptólogo Matthew Corbeck (interpretado por Charlton Heston) e sua assistente Jane Turner (Susannah York) encontravam uma grande inscrição hieroglífica, que mencionava uma rainha cujo nome havia sido apagado por seus atos malévolos. A leitura dos hieróglifos feita por ela parecia perfeita aos olhos de um leigo, mas grande foi minha surpresa, ao assistir o filme novamente duas décadas depois. As inscrições estavam corretas, mas ela estava lendo o texto de trás para frente! Acredito que os consultores do filme acabaram por esquecer este pequeno detalhe, que seria a primeira regra da interpretação dos hieróglifos: a direção da escrita.
A língua egípcia é formada por um grande número de sinais que no estágio conhecido como Médio Egípcio inclui aproximadamente setecentos hieróglifos. As imagens podem ser agrupadas dentro de diversas categorias, que apresentam figuras humanas, diversas classes de animais, plantas, edificações, objetos inanimados, entre muitas outras. Mas como seria possível, dentre tantos sinais, saber onde começa uma frase? A resposta é algo bem fácil: basta olhar para onde qualquer uma das figuras animadas está direcionada, seja ela uma mulher sentada ou um pato em pé. Assim, se as figuras estão todas voltadas para o lado esquerdo do espectador, lê-se da esquerda para a direita, se apontarem para a direita, lê-se da direita para a esquerda. A mesma situação ocorre para as figuras que se encontram em colunas: basta observar a direção das mesmas. Esta regra possibilitou aos egípcios escreverem em quatro sentidos diferentes na horizontal e na vertical.
O leitor já deve ter observado que, por vezes, os sinais hieroglíficos estão perfeitamente organizados dentro dos espaços das linhas, colunas ou mesmo ao lado das figuras que compõe uma cena. O senso estético dos antigos egípcios era muito apurado e podemos perceber, pelos detalhes das inscrições, que achavam muito estranho a colocação de um símbolo estreito e alto ao lado de um longo e baixo. Para eles a simetria deveria ser quase que perfeita e esta foi conseguida a partir da inserção dos símbolos dentro de retângulos imaginários. Esta harmonia resultou no agrupamento, sobreposição dos sinais e, até mesmo, inversão da ordem dos hieróglifos que compunham uma determinada palavra. Neste último caso é como se pudéssemos, na língua portuguesa, inverter a ordem das letras do substantivo "cabelo", somente para que as consoantes "b" e "l" ficassem juntas, resultando nesta forma: "cableo".
A forma dos sinais hieroglíficos, em geral, pode ser reconhecida sem muitas dificuldades, o que possibilita o seu rápido entendimento se a compararmos com outros sistemas de escrita, cujos símbolos são mais abstratos. Antes da decifração dos hieróglifos por Jean-François Champollion, em 1822, acreditava-se que a escrita egípcia era composta exclusivamente por um único tipo de sinal, o pictográfico. Na realidade, o sábio francês concluiu que os hieróglifos poderiam ser classificados também como ideográficos, fonéticos e determinativos, cada um com um valor gramatical diferente. Vejamos o que significa cada um destes sinais.

Em busca do sentido. Esta imagem de uma arquitrave do templo de Medinet Hhabu apresenta o disco solar alado com uma inscrição, contendo os dois nomes do faraó Rramsés III. A leitura se faz do centro para as extremidades, conforme indicado pelas setas.
A organização dos sinais hieroglíficos é feita dentro de retângulos imaginários. Note como os sinais são agrupados e sobrepostos. A inscrição é de uma parede do templo do deus-crocodilo Sobek, em Kom Ombo

Os pictográficos podem representar um objeto, um ser ou mesmo uma idéia. Podemos afirmar que um desenho pictográfico é um signo-objeto.Vamos observar como isto ocorre na prática, com dois exemplos referentes aos sinais de "casa" e "braço". Para escrever a palavra "casa", os escribas egípcios desenhavam a imagem da planta baixa de uma residência com um só cômodo e colocavam ao lado desta, ou abaixo, um pequeno traço vertical, que denominamos "traço determinativo", para confirmar que o sinal representa realmente uma casa. Já a palavra "braço" se escreve com o sinal de um antebraço e, tal como no caso anterior, é necessária a colocação do traço determinativo para confirmar o sentido do sinal, mostrando que se trata realmente de um braço.
Pronúncia
Antes de prosseguirmos com os tipos de sinais são necessárias algumas explicações sobre a pronúncia das palavras e a transliteração. Como o egípcio antigo que era falado em tempos faraônicos é uma língua morta, e pelo fato de que as vogais não eram utilizadas na escrita, tal como ocorre na língua árabe, os estudos sobre a fonética egípcia são um campo difícil. Quem assistiu aos filmes hollywoodianos Stargate, A Múmia e O Retorno da Múmia deve ter ouvido algumas palavras que soariam como se escutássemos vindas dos antigos egípcios. Mas na realidade, o único eco que ainda podemos ouvir está presente na língua Copta, que se conservou graças à liturgia da Igreja Copta no Egito, sobre a qual veremos mais neste texto.
Mas como pronunciar o egípcio se não existem vogais, apenas consoantes e semivogais?
A resposta, novamente, é fácil. Os pioneiros da filologia egípcia criaram um sistema para permitir a vocalização das palavras, adicionando um "e" quando temos duas consoantes juntas. Assim, para a palavra "casa", que possui valor sonoro "pr", lê-se "per". No Brasil, todos os pesquisadores que aprenderam a língua egípcia com o Prof. Dr. Ciro Flamarion Cardoso, seguem a pronúncia dos egiptólogos franceses para as palavras. Por exemplo, quando aparece um "w" em alguma palavra, pronuncia-se "u". O "a" e o "i", que são semivogais, são lidos como tais. Esta pronúncia é um pouco diferente para os falantes de língua inglesa e alemã. Tais convenções são totalmente artificiais, portanto, para quebrar a monotonia. No caso de algumas palavras ou nomes de reis, optou-se por trocar o "i" pelo "a", além de inserir, às vezes, a vogal "o". Por exemplo, se sempre seguíssemos a convenção egiptológica pronunciaríamos o nome de um rei assim: "Imenhetep", mas na literatura pode aparecer Amenhotep ou mesmo Amonhotep. Isto, sem dúvida, cria certas confusões para os leigos, mas os pesquisadores já se acostumaram com a variedade destas pronuncias em particular, inclusive também pela existência de variantes provenientes da língua grega, como "Amenófis" para Amenhotep.
Outra convenção feita pelos egiptólogos está relacionada à transliteração das palavras egípcias. Esta é uma forma de transformar sinais hieroglíficos em letras para que possamos entender a pronuncia dos mesmos. O sinal hieroglífico para a palavra "casa", que mencionamos acima, é transliterado "pr". Neste processo apenas os sinais que possuem valor sonoro ou fonético aparecem. Outros, que veremos adiante, como os complementos fonéticos e determinativos, não são marcados na transliteração.
Ideograma
O segundo tipo de sinal é o ideograma, cujo significado está relacionado à apresentação de uma idéia. Contudo, diferentemente do pictograma, o ideograma não trata do próprio objeto, mas do conceito apresentado por ele. Vejamos um exemplo: a imagem de um homem com a mão na boca pode expressar diversas situações relacionadas ao gesto, tal como o ato de "falar" - mdw, de "ter sede" - ib, e mesmo, de "comer" - wnm. Embora façamos uma distinção entre sinais pictográficos e ideográficos, diversas gramáticas de Médio Egípcio não o fazem. Tratam os pictogramas e os ideogramas como se representassem o mesmo conceito, relacionado a uma idéia. Na língua egípcia quase todos os sinais são fonéticos, isto é, são figuras que representam um som específico e que podem ser divididas em três grupos: uniconsonantais ou uniliterais, biconsonantais ou biliterais, e triconsonantais ou triliterais. A diferença entre os grupos é justamente o número de sons.
O grupo de uniconsonantais são os que representam uma única consoante. Na língua egípcia existem vinte e quatro sinais deste tipo, alguns com diferentes formas, que corresponderiam ao pseudo-alfabeto. Nas tabelas abaixo temos o sinal hieroglífico, sua transliteração e o respectivo valor sonoro:
O segundo grupo de sinais fonéticos é o dos biconsonantais, isto é, daqueles que representam duas consoantes. o número de sinais nesta categoria atinge aproximadamente uma centena. A tabela ao lado apresenta alguns dos mais comuns:

As palavras que são formadas por sinais biconsonantais ou triconsonantais podem ser seguidas por outros sinais fonéticos. estes são chamados "complementos fonéticos". embora estes hieróglifos tenham um valor sonoro, pois a maioria pertence ao pseudo- alfabeto, no contexto em que aparecem, não devem ser lidos. Sua função nas palavras era de facilitar o aprendizado da escrita e da leitura, além de enfatizar ou preencher espaços se houvesse necessidade. o último tipo de sinal é chamado de determinativo. diferentemente dos demais, ele não possui nenhum valor fonético, quando aparece ao final de uma palavra. Seu uso está restrito a identificar um sentido, ou o seu real significado. os determinativos também servem para localizar o final de uma palavra, já que na língua egípcia não há espaços para a separação entre elas. Na língua egípcia também encontramos algumas particularidades no que se refere à escrita. Algumas palavras relacionadas a nomes de divindades e pessoas importantes, como o rei, são colocadas à frente das demais em sinal de respeito. Esta alteração chama-se inversão respeitosa ou Transposição Honorífica.
Encontramos, igualmente, determinadas palavras que podem sofrer abreviação por falta e espaço no local onde se encontram, seja e uma estela ou em uma parede
Uma Gramática Inicial Para a leitura de um pequeno texto são necessárias explicações sobre mais algumas regras gramaticais. embora elas representem o primeiro passo para o aprendizado da escrita hieroglífica, há muitas outras que omitiremos aqui por razões ligadas à complexidade e ao espaço
Gênero e Número H á no egípcio dois gêneros: masculino e feminino. Substantivos masculinos não possuem nenhuma desinência, já os femininos contêm um t no final das palavras. Por exemplo:

Note que no exemplo abaixo, quando a palavra está no feminino, o determinativo também muda - a figura do homem sentado foi substituída pela da mulher sentada. os números são três: singular, dual e plural. o singular não possui nenhum sinal. As terminações no dual são wy para o masculino e y para o feminino O plural é designado com w para o masculino e wt para o feminino. Os três traços também designam o plural. O plural arcaico era feito com a triplicação do símbolo.
Genitivo direto
O genitivo é formado pela união de dois substantivos, podendo ser expresso de duas maneiras, direta e indireta, isto é, com ou sem uma partícula de ligação. é comum em títulos e frases onde os substantivos estão estreitamente conectados. Podem ser traduzidos por: de, do, da, dos e das. No genitivo direto não há partícula de ligação. Exemplos:

Genitivo direto

Já o genitivo indireto possui uma partícula de ligação (adjetivo genitivo) da seguinte forma:

Na escrita egípcia os adjetivos seguem a forma do gênero e do número do substantivo que descrevem e aparecem depois do substantivo. Por exemplo:

Pronomes sufixos
Estes pronomes indicam a quem uma coisa pertence. Podem ser usados como sujeito depois de um verbo, como pronome possessivo depois de um substantivo, como pronome pessoal depois de uma preposição e como objeto depois de um infinitivo. Necessariamente eles devem ser acompanhados de um ponto na transliteração. Assim temos:

Preposições
Há muitas preposições na língua egípcia. Vejamos algumas: