Calumniamque fictis elusit iocis.
Agora resumidamente ensinarei por que foi inventado o gênero das fábulas: Como a escravidão submissa não ousava dizer o que queria, disfarçava em fábulas os seus próprios sentimentos, esquivando-se da punição com imaginosos divertimentos.
Entretanto, ao que parece, cabe às fábulas esópicas o mérito da primazia em atribuir alegoricamente virtudes e defeitos humanos a determinados animais, como, por exemplo: ao leão, a majestade; à raposa, a velhacaria; ao lobo, a brutalidade; ao camelo, a complacência; à formiga, a previdência.
Fonte: Anotado do Professor da UFRJ, Manuel Aveleza de Souza "As Fábulas de Esopo", Thex Ed., Rio de Janeiro, 1999, p. XXIX.
As Fábulas de Esopo Modernizadas adaptadas para a 1ª. Guerra mundialTuck`s Post Card
Trata-se de uma série de 6 cartões postais sobre as fábulas de Esopo adaptadas para a primeira guerra mundial. No verso dos cartões há sempre uma explicação resumida da fábula e da histórica aliança dos países em guerra. Com desenhos de F.Sancha, 1915 (circa) segundo o catalogo Neudin "Illustrateurs" , 1991, pag. 380.
1 - O Lobo e a Cegonha (Turquia e Alemanha)Veja também:
Esopo e-book O Estopim da 1ª. Guerra Mundial
Em 29 de junho de 1914, o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro anunciava em suas páginas, um atentado anarquista ocorrido na cidade de Sarajevo:
"O Arquiduque Francisco Fernando e sua esposa acabam de ser vitimas de um atentado. Quando o cortejo em que seguiam os herdeiros do trono imperial marchava em direção à Municipalidade, um tipógrafo, por nome de Cabrinovic , natural de Trebinje (Herzegoniva), arremessou contra a carruagem do Arquiduque uma bomba cheia de pregos e cujo invólucro era constituído por uma garrafa. A bomba, batendo no assento traseiro do carro, caiu no chão e explodiu justamente quando sobre ele passava a segunda carruagem, onde seguiam vários membros da comitiva, entre os quais o coronel Merrido, ajudante de campo do Arquiduque, que foi atingido no pescoço por um estilhaço, e o Conde de Booszu-Waldeck, que também ficou ferido. Além destas também ficaram feridas mais nove pessoas".
"No momento, porém, em que o cortejo dobrava a esquina das ruas Rodolpho e Francisco José, um mancebo, que se destacou bruscamente do público apontou uma pistola browning e desfechou-a quatro vezes contra a carruagem de suas altezas. O Arquiduque, que a principio tinha sido atingido no rosto, ficou mortalmente ferido no lado direito do ventre, ao mesmo tempo em que a Arquiduquesa, com a carótida cortada por outra bala, lhe caía sobre os joelhos."Este episódio ficou conhecido como o estopim da 1ª. Grande guerra.
Obs: Veja detalhes e histórias no Dossiê O Mundo em Armas, publicado na revista de História da Biblioteca Nacional, número 37, outubro 2008, pags. 14-34.
O Brasil na 1ª Guerra Mundial
Repetidos afundamentos de navios mercantes brasileiros, entre outros o Paraná (abril de 1917), o Tijuca ( maio de 1917), o Lapa (também em maio), o Macau (outubro de 1917), levaram o país, em outubro de 1917, a declarar guerra ao império alemão e a seus aliados - o império Austro-Húngaro, o Império Otomano e a Bulgária. O Brasil veio a se juntar aos Aliados, entre eles a França, Reino Unido, Rússia, Grécia, Bélgica, Portugal, Itália, Sérvia, EUA, Japão e Romênia.A frota brasileira, conhecida como DNOG - Divisão Naval em Operações de Guerra - foi formada com 2 cruzadores, 4 contratorpedeiros, 1 rebocador e 1 navio-tênder, para apoio e abastecimento. A missão teve inicio em maio de 1918 saindo a esquadra do porto do Rio de Janeiro e deixando o território brasileiro em 1 de agosto, de Fernando de Noronha em direção a Freetown, em Serra Leoa, na África. Em 25 de agosto, quando rumava para Dakar, na África, escaparam por pouco de um ataque de submarino. Com a missão de patrulhar submarinos germânicos, a esquadra brasileira foi devastada por outro inimigo, quando em 6 de setembro, em Dakar, a gripe espanhola irrompeu com toda a sua virulência, derrubando a tripulação. Deixando Dakar no fim de outubro em direção a Gibraltar com apenas um cruzador e 3 contratorpedeiros, a frota brasileira já estava semi destruída e com vários mortos sem levar um único tiro. Em 10 de novembro de 1918, o restante da esquadra chegou a Gibraltar, mas como dizem que "Deus é brasileiro", no dia seguinte, em 11 de novembro de 1918, foi assinado o armistício que pôs fim a guerra.
Obs: Veja detalhes e outras histórias deste pesadelo no artigo "Pior do que a Guerra", do historiador Francisco Eduardo Alves de Almeida em Revista Histórica da Biblioteca Nacional, número 37, outubro 2008, pags. 30-31.
As Fábulas de Esopo Modernizadas
A Turquia e a Alemanha
O Lobo e a Cegonha
O lobo engasgado pede a cegonha que lhe tire o osso atravessado na garganta; a cegonha o extrai com seu bico e pede recompensa pelo seu trabalho. Mais recompensa!, exclama o lobo, porventura não fostes bastante recompensada quando deixei de devorar a tua cabeça ?Esta imagem aqui se reporta a aliança entre a Alemanha e a Turquia, lembrando que esta terá de se contentar com bem pouco reconhecimento pelos serviços prestados.
Fonte: Tuck`s Post card texto no verso do postal desenhado por F Sancha , 1915 circa.
O Lôbo e a CegonhaBarão de Paranapiacaba (trad.)
Vorazes comem lobos;
Nada lhes vence a gana;
Eis o que fez um deles:
Em farta comezaina,
Tão sôfrego engolira,
Sua avidez foi tanta,
Que de través lhe fica
Um osso na garganta.
Sentindo-se engasgado
E sem poder gritar,
Julgou-se na agonia
E prestes a expirar.
Uma cegonha (ó dita !)
Passa dali vizinha;
Chamada por acenos,
Vem acudi-lo asinha.
Com grande habilidade
Procede à operação;
Retira o osso - e a paga
Requer do comilão.
" A paga ! (exclama o lobo) Comadre!
Estás brincando!
Pois não te deixo livre,
A vida desfrutando ?
Não me saiu dos dentes
Tua cabeça intata ?
Vai-te e das minhas garras
Cuida em fugir ingrata !"
A Turquia No Século XVI
(Como o tempo passa e modifica o mundo)
O mais forte Estado que pareça haver ao presente no mundo (século XVI), é o dos turcos: povos igualmente formados na estima das armas e no desprezo das letras. Roma, acho-a mais valorosa antes de tornar-se sábia. As mais belicosas nações dos nossos dias são as mais grosseiras e ignorantes. Servem de prova os citas, os partas e Tamerlão. Quando os Gôdos devastaram a Grécia, o que salvou do fogo todas as bibliotecas foi esta opinião, propalada por um deles: que era mister deixar aos inimigos todos aqueles trastes, próprios para desviá-los do exercício militar e entretê-los em ocupações sedentárias e ociosas. E quando, sem tirar a espada da bainha, o nosso rei Carlos VIII (1470-1498), se viu dono do Reino de Nápoles e de boa parte da Toscana, a atribuíram, os senhores do seu séquito, essa inesperada facilidade de conquista a andarem os príncipes e os nobres da Itália mais ocupados em fazer-se engenhosos e sábios do que vigorosos e guerreiros. (Michel de Montaigne 1533-1592)
Fonte: Montaigne, M. "Seleta dos Ensaios de Montaigne", liv. José Olympio, coleção Rubaiyát, Rio, 1961, vol. 1/3, 303 págs.
A Galinha e os Ovos de Ouro

O camponez avarento que tenta enriquecer-se à pressa, e mata a galinha que deita is ovos de ouro, só para se ver privado da sua fonte de riqueza:O comercio marítimo alemão, manancial de tanta riqueza, queda por completo arruinado pela insana cobiça que impeliu a Alemanha a forçar esta guerra sobre a Europa.
A Galinha que punha Ovos de Ouro
Tudo a avareza perde
Se tudo quer ganhar;
Basta-me, em prova disto,
Um fato aqui narrar.
Deitava uma galinha
Por dia um ovo d'ouro;
Julgou-a o dono um cofre
De perenal tesouro.
Tirou-lhe a vida, abriu-a
E achou o seu ovário
Igual ao das que botam
Qualquer ovo ordinário.
Assim, cedendo à força
Do baixo instinto ávaro,
De motu próprio extingue
Seu cabedal mais raro.
Barão de Paranapiacaba (trad.)(1827-1915)
A Tartaruga e o Lebre

O camponez avarento que tenta enriquecer-se à pressa, e mata a galinha que deita is ovos de ouro, só para se ver privado da sua fonte de riqueza:O comercio marítimo alemão, manancial de tanta riqueza, queda por completo arruinado pela insana cobiça que impeliu a Alemanha a forçar esta guerra sobre a Europa.
Fonte: Tuck`s Post card texto no verso do postal desenhado por F Sancha , 1915 circa,anotado ipsis litteris do original.
A Lebre e a Tartaruga
"Apostemos, disse à lebre
A tartaruga matreira,
Que eu chego primeiro ao alvo
Do que tu, que és tão ligeira!"
Dado o sinal de partida,
Estando as duas a par,
A tartaruga começa
Lentamente a caminhar.
Lebre, tendo vergonha
De correr diante dela,
Tratando um tal vitória
De peta ou de bagatela,
Deita-se, e dorme o seu pouco;
Ergue-se, e põe-se a observar
De que parte corre o vento,
E depois entra a pastar;
Eis deita uma vista d'olhos
Sobre a caminhante sorna
Inda a vê longe da meta,
E a pastar de novo torna.
Olha; e depois que a vê perto,
Começa a sua carreira;
Mas então apressa os passos
A tartaruga matreira.
À meta chega primeiro,
Apanha o prêmio apressada,
Pregando à lebre vencida
Uma grande surriada.
Não basta só haver posses
Para obter o que intentamos;
É preciso pôr-lhe os meios,
Quando não, atrás ficamos.
O contendor não desprezes
Por fraco, se te investir;
Porque um anão acordado
Mata um gigante a dormir.
Curvo Semedo (Trad.)(1766-1838)
A Rapôsa e as Uvas verdes
A raposa esfaimada, não podendo atingir os cachos de uvas maduras , proclama nas uvas verdes, e que não as quer.Os alemães, frustrados na suas tentativas de tomar Paris, Calais, Petrogrado e Verdun, pretendem que seus objetivos não eram taes.
Fonte: Tuck`s Post card texto no verso do postal desenhado por F Sancha , 1915 circa,anotado ipsis litteris do original.
A Rapôsa e as Uvas
Contam que certa raposa,
andando muito esfaimada,
viu roxos maduros cachos
pendentes de alta latada.
De bom grado os trincaria,
mas sem lhes poder chegar,
disse: "estão verdes, não prestam,
só cães os podem tragar !"
Eis cai uma parra, quando
prosseguia seu caminho,
e crendo que era algum bago,
volta depressa o focinho.
Moral: Quem desdenha quer comprar
Bocage (trad.)(1765-1805)
O Cão e sua Sombra

O cão que leva o bocado de carne, vê o seu reflexo nas águas, e arrojando se a sombra, perde o bom bocado:Perdeu a Alemanha a prosperidade tão laboriosamente adquirida, sacrificando-a ao seu devaneio de conquistar o mundo.
Fonte: Tuck`s Post card texto no verso do postal desenhado por F Sancha , 1915 circa, anotado ipsis litteris do original.
O Cão que pela sombra larga a Prêsa
Um cão passando ia um rio a nado,
E levava de carne um bom bocado;
Via n'água a sua sombra, e, presumindo
Que era outro cão, que dele ia fugindo,
E que presa maior inda levava,
Com fim de lha tirar se arreganhava,
Naquele abrir de boca lhe caía
A carne, e nem mais sombras dela via.
Couto Guerreiro (Trad.)(1720-1793)
A Tartaruga e a Águia

A tartaruga que pede a águia para ensiná-la a voar, é levada pela águia aos ares, cae a terra e espedaça-se:A Bulgária, induzida a guerra pela Alemanha , sofrerá a penalidade imposta pela sua tresloucada ambição.
Fonte: Tuck`s Post card texto no verso do postal desenhado por F Sancha , 1915 circa,anotado ipsis litteris do original.
A Tartaruga e a Águia
Imaginem, uma Tartaruga que mal sabe andar, foi pedir a uma águia que lhe ensinasse a voar. A águia olhou para aquele bicho e viu que a tartaruga não pode voar de jeito nenhum.
Acontece que ela não é somente um animal casca dura, mas também cabeça dura; e insistiu no pedido. A águia foi perdendo a paciência e como não adiantava falar mais nada, agarrou-a com as suas garras, elevou-se no ar e largou-a de lá de cima. A tartaruga, sem azas e sem juízo, arrebentou-se no chão. Quando soube que uma tartaruga voou, outra maluca foi contatar os patos.