Vida de professor da rede pública

Súplica Cearense

segunda-feira, 29 de março de 2010

História e memória


A história local dos afro-descendentes
Bloco de Conteúdo
História
ConteúdoRelações Sociais - Cultura - Trabalho

Objetivos
Estabelecer relações entre passado e presente, discutindo mudanças e permanências nas relações sociais. Estabelecer uma ponte entre o conteúdo estudado e sua vida cotidiana por meio de estudos da história local. Compreender e valorizar elementos das culturas africanas e de afrodescendência.
Ampliar o conceito de cidadania, discutindo questões como respeito à diversidade, religiosidade e sincretismo, preconceito, direitos, inclusão.
Anos 7º., 8º. e 9º. anos
Tempo estimado 3 aulas e atividades extra-classe em prazo a ser definido pelo professor. Material necessário:
Câmeras fotográficas, gravadores ou mp3 player, computador com acesso à internet.

Introdução
importância de se estudar a história de africanos e de afro-descendentes está relacionada às profundas relações que guardamos com a África. No geral, somos frutos dos encontros e confrontos entre diferentes grupos étnicos como indígenas, europeus, africanos e outros.

Entendemos que história do Brasil e história da África estão intimamente relacionadas, cabendo ao professor ampliar a discussão sobre, por exemplo, a escravidão, introduzindo elementos da história dos africanos, de sua cultura e não tratá-los como simples mercadoria que enriquecia europeus e tiveram seu trabalho explorado à exaustão no Brasil antes e após a independência política.

Nessa perspectiva, não podemos tratar a questão africana apenas do ponto de vista da escravidão, como se fosse uma questão isolada e superada pela assinatura da Lei Áurea em 1888. Um ponto de partida para ampliar nossa visão e tentar superar as visões estereotipadas sobre o tema é procurar recuperar os elementos da resistência negra, suas formas de luta e de organização, sua cultura, não apenas no passado, mas também no tempo presente. Desenvolvimento

1ª. Etapa Comece o trabalho explorando com os alunos os elementos da história africana e/ou da presença africana na História do Brasil que eles já tenham estudado. Procure levantar os conhecimentos dos alunos acerca das relações sociais estabelecidas, das visões que foram construídas sobre africanos e afro-descendentes no Brasil, sobre a cultura africana e/ou a mescla de culturas que se convencionou chamar "cultura brasileira" com forte influência de elementos africanos. É possível que surjam respostas que remetam a determinados assuntos como alimentação, música, dança, lutas e religiosidade. Se não surgirem, instigue-os a refletir sobre a presença ou ausência desses elementos no modo de vida deles.
Após essa conversa inicial, convide os alunos para explorar o site http://www.acordacultura.org.br/, que mostra informações sobre a cultura negra africana em forma de jogos, livros animados, vídeos, músicas e textos. Dica: veja textos sobre a importância da cultura negra na coluna da esquerda da página inicial - "valores civilizatórios".
A exploração do site é apenas um ponto de partida para a discussão que poderá ser fundamentada em conhecimentos anteriores dos alunos, de acordo com os conteúdos previstos no currículo de História, como: - História da África, incluindo elementos da cultura e religiosidade etc. (o período variando de acordo com o ano/série dos alunos). - Escravidão no Período Colonial e/ou no Período do Império. As lutas e as formas de resistência, e elementos da cultura trazida pelos africanos.
Proponha aos alunos um trabalho de investigação da presença da cultura negra na localidade e das relações sociais estabelecidas entre os diferentes grupos étnicos, por meio de entrevistas. O objetivo é fazer com que os alunos percebam as relações entre o passado (os conteúdos estudados em História) e o tempo presente, observando as mudanças e permanências nas relações estabelecidas entre os diferentes grupos étnicos e da situação dos afro-descendentes na sociedade brasileira. Essas pesquisas podem ser incluídas em um blog produzido pela classe. Será um espaço de debate virtual em que os alunos da escola e os moradores da comunidade local poderão trocar idéias sobre o assunto.
2ª Etapa Agora é o momento de planejar as entrevistas. Divida a turma em grupos de quatro ou cinco alunos e faça a mediação dos seguintes pontos:
- O levantamento de afro-descendentes que sejam moradores antigos da localidade para serem entrevistados.
- Combinar com os alunos se as entrevistas serão realizadas na escola ou na casa dos entrevistados.
- Elaborar as questões que serão feitas aos entrevistados. Exemplos de coleta de bons depoimentos podem ser encontrados no portal do Museu da Pessoa (http://www.museudapessoa.net/). O questionário deverá ter:
Nome
Idade
Há quanto tempo mora na localidade,
Profissão, atividades que exerceu
Religião
O lazer no passado e no presente
Os tipos de música e de dança preferidos do passado e do presente
Se sofre ou já sofreu discriminação por ser afro-descendente
Participa de organizações como clubes, associações de moradores, ONGs que lutem pela defesa dos direitos dos afro-descendentes
Outras questões sugeridas pelos alunos a partir dos estudos realizados
- A definição das formas de registro da entrevista
- Reforçar com os alunos a importância do respeito aos entrevistados.
- O estabelecimento de uma data para que os materiais coletados sejam levados para a classe.

3ª. Etapa Os grupos de alunos deverão realizar as seguintes atividades:
- Contatar os moradores escolhidos, explicando o objetivo da entrevista.
- Gravar as entrevistas com equipamentos de áudio (gravadores, mp3 player etc.) - Pedir permissão para fotografar os entrevistados
- Perguntar se eles possuem fotos antigas ou outros objetos e se permitem que eles sejam fotografados para compor o trabalho final.
No retorno do trabalho, em sala de aula, você deverá mediar a socialização das experiências de cada grupo por meio da discussão:
- como se deu a interação com os entrevistados - quais foram as informações obtidas
- as semelhanças e diferenças entre as respostas dos entrevistados
4ª. Etapa
A partir das entrevistas e dos materiais coletados, é possível recuperar um pouco da história das relações sociais na localidade, da presença (ou não) de discriminação de afro-descendentes e de elementos da cultura de origem africana.
Produto final
O material coletado pode ser organizado: - em um painel com fotos e informações escritas - elaboração coletiva de um blog que poderá conter as gravações das entrevistas, depoimentos de alunos sobre o tema, mudanças e permanências nas relações sociais na localidade, espaço para postagem de sugestões sobre a formas de combate ao preconceito e à discriminação racial.
Avaliação
Os pontos que deverão ser avaliados são:
- envolvimento e participação dos alunos nas discussões em grupos
- pertinência das informações e dos materiais coletados
- organização e clareza das informações no painel e nos textos e áudios postados no blog.
Quer saber mais?
Bibliografia
BARBOSA, R. M. Ambientes virtuais de aprendizagem. Porto Alegre: Artmed.
BITTENCOURT, Circe Maria F. Ensino de história: fundamentos e métodos. São Paulo, Cortez. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembranças de velhos. Companhia das Letras.
LUCENA, Célia Toledo. Artes de lembrar e de inventar: (re) lembranças de migrantes. São Paulo, Arte & Ciência.

Na internet
www.ritosdeangola.com.br/news.php
http://www.capoeiradobrasil.com.br/


Materiais para aprofundar a discussão sobre racismo:
http://www.dialogoscontraoracismo.org.br/

quarta-feira, 24 de março de 2010

CNEC: Aula - 24/03/2010 (8ª Série)

A nossa aula de hoje teve início com uma rápida esquematização dos conceitos analisados e estudados na aula anterior, que foram:
Positivismo;
►Darwinismo Social;
►Republica da Espada;
►Encilhamento;
►Revolta da Armada;
►Revolução Federalista.
Ao elaborarmos essa breve esquematização organizamos os assuntos que tendo como base o nosso livro didático, trabalharíamos em sala. Os assuntos principais seriam as características políticas e econômicas da chamada República Oligárquica (1894-1930).Para isso discutimos o conceito de oligarquia: Governo de poucas pessoas. Ocorre quando um pequeno grupo de pessoas de uma família, de um grupo econômico ou de um partido governa um país, estado ou município. Uma das características desta forma de governo é que os interesses políticos e econômicos do grupo que está no poder prevalecem sobre os da maioria.A partir dessa análise, buscamos perceber como essas oligarquias influenciaram a vida política, econômica e social do Brasil nas primeiras décadas do século XIX e também como essas oligarquias se relacionaram entre si e entre o Estado para se manterem no poder. Para isso foi elaborado um resumo esquemático:
►Âmbito Federal:
Política do café-com-leite.
►Âmbito Estadual:
Política dos Governadores.
Como foi dito em sala de aula, a política dos governadores consistia basicamente num acordo entre o presidente da República e os governadores dos Estados, visando fortalecer ambas as partes. Seriam admitidos no poder Legislativo federal apenas os deputados que representassem a situação em seus respectivos Estados. Após as eleições, a Comissão Verificadora de Poderes, controlada pelo Executivo federal, "diplomava" ou "degolava" os candidatos eleitos, conforme fossem ou não partidários do governo de seu Estado. Em troca, a Câmara dos Deputados eleita e "diplomada" daria todo o apoio às iniciativas do governo federal. Através desse sistema, as oligarquias estaduais mantiveram-se no poder durante décadas e, ao mesmo tempo, ficou assegurado o predomínio político de São Paulo e Minas Gerais, os dois Estados economicamente mais fortes e com maior representação no Congresso.
►Âmbito Municipal:
Coronelismo:
Curral eleitoral. Lugar para onde se transportam e onde permanecem, são alimentados e festejados os eleitores, em dia da eleição, a fim de exercer sobre eles estrito controle os chefes políticos e cabos eleitorais, evitando sua contaminação pelos adversários. Os eleitores assim confinados só deixam o "curral" na hora de depositar o voto nas urnas, sob estritas instruções e vigilância de chefes e cabos eleitorais e seus prepostos.
Voto de Cabresto. Diz-se do voto dado pelo eleitor aos candidatos que lhe são inculcados por um chefe político ou cabo eleitoral, sem que o votante – denominado “eleitor de cabresto” – saiba exatamente em quem vota, ou por que vota. Tais eleitores são transportados para “currais eleitorais”, onde são alimentados e festejados, e de onde somente saem na hora de depositar o voto na seção eleitoral.
Para se divertir










Para pensar!



Voto de cabresto em nova roupagem
Em um passado nem tão remoto em épocas eleitorais de nosso Brasil via-se a figura lamentável dos coronéis, fazendeiros de grande poder econômico que utilizavam sua força e poder para coagir o eleitorado a votar em determinado candidato. Capangas usavam e abusavam da violência e tratavam de garantir que ninguém fraudaria a vontade dos poderosos. Esta prática recebia a alcunha de voto de cabresto. No entanto, é inegável que a evolução das idéias humanas quebrou inúmeros absurdos do passado, mas como todo processo evolutivo é lento e responde à moralização dos cidadãos, o voto de cabresto ainda existe, embora em outra roupagem, mais light, sem violência física e sem capangas por perto. O voto de cabresto hoje se faz de maneira psicológica, atuando junto às necessidades do eleitor. Uma bolsa isso, um auxílio aquilo, uma cesta básica, uma promessa... Olha, não vote em tal candidato, o benefício poderá ser cortado. Pense bem antes de votar, o candidato do partido A é da oposição, deixe-o de lado, senão... Sim, não há mais o coronel, mas há o engravatado que semeia o medo, a desesperança e limita o raciocínio do cidadão. Desapareceu o capanga, mas surgiu o cabo eleitoral participando ativamente da campanha, abraçando os necessitados, visitando lares menos abastados, acariciando crianças, mostrando-se a imagem e figura da simpatia; uma simpatia de fachada que conquista as carentes mães da periferia. O cabresto hoje é feito de promessas vazias e evasivas, sem compromisso com a sinceridade e sem qualquer envolvimento com o bem coletivo. Um cabresto que não desfere pontapés, mas alimenta a ignorância. Um cabresto que uiva silencioso e pisoteia nas agruras humanas. Quando será que desaparecerá o cabresto? Difícil saber, porquanto o cidadão comum também atua no seio da sociedade alimentando essa nefasta tendência de manipulação do poder. É o empresário que pensa somente em seus lucros esquecendo-se dos funcionários. São os funcionários que lesam a empresa "enrolando" no serviço passando minutos ou horas a fio envolvidos com as maravilhas da internet. São as pessoas que agem como se o mundo fosse dos espertos desrespeitando os mais elementares direitos do semelhante. Em realidade o cabresto começa aqui embaixo, em nós mesmos. Os governantes apenas manifestam as tendências de nossa sociedade. Se formos desonestos, eles também serão. Por isso o cabresto começa no fura fila, no troco a mais não devolvido, no produto comercializado acima do preço justo. "Veja que pechincha!!! Está barato!!!! Aproveite! E há vendedores orgulhosos com seu desempenho, gabando-se: "Fiz ótimo negócio, empurrei por alto preço esta mercadoria encalhada há anos". Sim, é o cabresto manifestando-se por intermédio do verbo, enganando, ferindo direitos, prejudicando o outro... Um cabresto bem vestido, um cabresto de terno e gravata, sorridente e simpático. Ah, os coronéis não se foram, o cabresto não se foi, é uma ilusão considerar grandes guinadas na sociedade sem a evolução moral do cidadão. Ou melhoramos como pessoas coibindo más inclinações ou o voto de cabresto permanecerá por muitas e muitas eleições. Pensemos nisso.
Wellington Balbo
Publicação: http://www.paralerepensar.com.br/ 24/09/2008
Economia cafeeira.
Ao analisarmos a economia brasileira nos primeiros anos da República nos deparamos com a importância o café que já assumia lugar de destaque desde: “os meados do século XVIII esse produto era considerado uma especiaria entre os consumidores europeus. Ao longo desse período, o seu consumo ganhou proporções cada vez mais consideráveis. De acordo com alguns estudiosos, essa planta chegou ao Brasil pela Guiana Francesa nas mãos do tenente-coronel Francisco de Melo Palheta. Na segunda metade do século XVIII, por volta de 1760, foram registrados os primeiros relatos noticiando a formação de plantações na cidade do Rio de Janeiro. Na região da Baixada Fluminense as melhores condições de plantio foram encontradas ao longo de uma série de pântanos e brejos ali encontrados. No final desse mesmo século, as regiões cariocas da Tijuca, do Corcovado e do morro da Gávea estavam completamente tomadas pelas plantações de café.”
Mas o período que interessa ao nosso estudo é a economia do café na República Oligárquica e para isso analisamos um gráfico que cobria os anos de 1895 e 1925 no que se refere à participação do café no total das exportações do Brasil:

O Convênio de Taubaté (1906)
Estipulou:
►Um preço mínimo para o café;
►O pedido de empréstimos externos;
►A compra de excedentes;
►Lei contra novas plantações;
►Criação de um fundo para a estabilização do câmbio (caixa de conversão) com o objetivo de impedir que a moeda nacional fosse valorizada.
Analisamos ainda a chamada Belle Époque.
No Brasil, por exemplo, este período tem início em 1889, com a Proclamação da República, e vai até 1922, quando explode o Movimento Modernista, com a realização da Semana da Arte Moderna na cidade de São Paulo. A Belle Époque brasileira é, no entanto, instaurada lentamente no país, por meio de uma breve introdução que começa em meados de 1880, e depois ainda sobrevive até 1925, sendo aos poucos minada por novos movimentos culturais. Esta era é até hoje relembrada como uma época de florescimento total do belo, de transformações, avanços e paz entre o território francês, onde este movimento se centralizou, e os países europeus mais próximos. Surgem novas descobertas e tecnologias, e o cenário cultural fervilha com o aparecimento dos cabarés, do cancan, do cinema. A face artística é subvertida com o nascimento do Impressionismo e da Art Nouveau. Em outras terras a arte e a arquitetura nascentes neste momento são conhecidas como obras de estilo ‘Belle Époque’. No Brasil a ligação com a França é profunda nesta fase da História. Entre os membros da elite brasileira, era inconcebível não ir a Paris ao menos uma vez por ano, para estar sempre a par das mais recentes inovações. Em meados do século XIX, cinco importantes mostras internacionais organizadas na cidade-luz indicaram as novas inclinações estéticas aos artistas de todo o mundo.
Fonte: http://www.infoescola.com/artes/belle-epoque/
E terminamos o assunto do dia com a análise das doutrinas sociais que surgiram na Europa do século XIX, e suas influências no Brasil, para "combater" o capitalismo. São elas:
►Anarquismo, que exerceu, na Primeira República, uma influência determinante sobre o movimento operário, negava toda forma de autoridade e de organização político-partidária. A luta dos anarquistas tinha caráter econômico e era baseada no enfrentamento direto com os patrões.
► Anarco-sindicalismo; adaptação no Brasil do anarquismo, já que os sindicatos passaram a ter grande importância. O anarco-sindicalismo e seus seguidores usavam a chamada ação direta. Boicotavam a produção, sabotavam as máquinas e faziam greves. Aliás, a greve foi a arma decisiva do anarquismo no Brasil. A imprensa também foi muito utilizada pelos anarco-sindicalistas. A partir de 1922, a força dos anarco-sindicalistas começou a diminuir. Entrava em cena o Partido Comunista.
► Comunistas, seu partido foi criado no ano de 1922 no rastro da vitória da Revolução Russa de 1917 (Bolchevique). Ao contrário dos anarquistas, os comunistas transferiram a luta dos trabalhadores da esfera econômica para a política, com a defesa da hegemonia do partido. Os comunistas, diferentemente dos anarquistas, defendiam a ocupação dos órgãos estatais pelos membros do partido.
Terminamos o nosso encontro de hoje comentando sobre a importância da qualificação para a inserção dos jovens no mercado de trabalho e as diferenças entre o mercado de trabalho e do trabalhador nas décadas passadas e nos dias de hoje.

Correção atividade casa.
Exercícios 2 e 3 da página 28.
2) Um exemplo é o trecho a seguir, com a respectiva explicação.
“Eis aqui os novos Bancos
Que vão dar um dinheirão!
Libras, dollars, marcos, francos
Vamos ter em profusão!” Nesse caso, os bancos
liberaram dinheiro, na expectativa de reavê-lo posteriormente, tendo grande lucro sob as transações financeiras.
3) Atualmente, a economia brasileira vive uma situação quase única no mundo: existe uma grande demanda por nossas exportações em função do crescimento mundial e, por outro lado, enfrentamos um nível de juros elevadíssimo, o que impede um crescimento econômico mais elevado e, portanto, a demanda por importações. Com o resultado, acumulamos saldos comerciais recordes e uma forte entrada de capital de fora, levando à valorização da taxa de câmbio. Além disso, há a competição com a China, que vem elevando continuamente sua produtividade industrial, sem que os salários cresçam na mesma proporção. Internamente, os empresários ainda enfrentam uma contínua elevação da carga tributária, com o medíocre crescimento da economia no ano passado e com a piora nas condições de infra-estrutura. Considerando os altos impostos um grande problema na economia do Brasil, uma das alternativas seria uma reforma tributária, a fim de diminuir as taxas de juros.

Exercícios 16 e 19 da página 45 e 46
16) O darwinismo social apregoava que havia uma seleção natural dos seres. Os fortes comandariam os fracos. Assim, pode-se concluir que a miséria e a pobreza existentes no Brasil, no início do século XX, eram fatores naturais, pois os fracos não conseguiriam superar as dificuldades mantendo-se na sua insignificância moral, social e econômica.
19) D

× Para casa ficou a leitura dos movimentos sociais na Primeira República e os exercícios 4 e 6 (pag. 32) e 7 e 8 (pag. 34)
DESAFIO
Tendo como base o que foi estudado sobre a República Oligárquica no Brasil, identifique na imagem abaixo um erro - dentro do contexto estudado.

domingo, 21 de março de 2010

As Grandes Navegações

A verdadeira história sobre a descoberta das Américas
Alberto Cury Nassour
À quem se deve realmente a descoberta das Américas, à Cristóvão Colombo, à Américo Vespúcio ou aos próprios índios nativos da região? Essa pergunta intrigante tem provocado muita controvérsia nas últimas décadas. Alguns historiadores creditam aos nativos que chegaram do estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, à 40.000 anos o verdadeiro descobrimento das Américas. Outros pesquisadores atribuem aos escandinavos por volta do ano 1.000 quando chegaram ao Canadá e retornaram sem desembarcarem devido aos imensos blocos de gelo, enquanto que outros estudiosos acreditam que fragmentos de cerâmicas encontrados no Equador em 1956, apresentam semelhanças marcantes com cerâmicas produzidas no Japão há mais de 5.000 anos. Alguns admitem que uma viagem do monge budista até o lado do “grande mar”, ou oceano pacífico, teria chegado até o México no século V, conforme comprovam o uso de dragões alados como motivo de cerimônias mágicas encontrados em cerâmicas mexicanas, uma vez que este símbolo especificamente representava a dinastia do monge chinês. Daí a mera semelhança dos latinos, incluindo os índios brasileiros, com traços dos povos orientais.
Enfim, muitas são as teorias que tentam explicar os verdadeiros descobridores das Américas. Até pouco tempo, Cristóvão Colombo era tido como um homem de larga visão e caráter obstinado, o sábio defensor da certeza de que a Terra era redonda, o homem que fez um ovo parar em pé e abriu as portas do Oceano Atlântico, e de repente não é mais nada disso. O escritor e historiador americano Kirkpatrick Sale, em seu livro “The Conquest of Paradise” relata um homem vulgar, apreciador da ganância do ouro, obcecado pelos títulos de nobreza e extremamente confuso em suas observações de navegação. Apesar de realizar quatro viagens às Américas, nunca soube descrever fielmente onde realmente esteve. Além de demonstrar uma ferocidade bestial com os nativos, trazendo consigo e sua tripulação formada na maioria por ladrões e desocupados, doenças como a febre, tuberculose e a varíola, que dissiparam milhares de nativos logo nos primeiros contatos em terra. Sobre Colombo, dos seus primeiros vinte anos pouco se sabe. Há razões para acreditar que nasceu em Gênova no ano de 1451, mas muitos historiadores não estão de acordo. Há quem atribua o seu nascimento nas regiões da Córsega, Maiorca, Aragão, Galícia e até em Portugal. Sabe-se pelo menos que seu idioma favorito era o Castelhano, pois se servia dele para suas correspondências. Em 1472, tem-se notícia que esteve no mar como corsário, que serviu de trampolim para ingressar na frota do grande corsário francês Coullon, o Velho. Numa investida frustrante, viu-se náufrago na costa portuguesa, por onde viveu escondido por oito anos, dos 25 aos 33.
Era o tempo da Escola de Sagres, das grandes navegações pela Costa da África. Em 1488, o explorador português Bartolomeu Dias, (1455-1500), ultrapassou o cabo da Boa Esperança. Cogitava-se o verdadeiro caminho para as Índias. Colombo então, desenvolvia um plano inovador para chegar as Índias navegando para oeste, cruzando o Oceâno Atlântico. Baseando-se em dados do grande cosmógrafo e navegador árabe Alfraganus, (daí a origem dos termos latinos fragata e naufragar) demarcou as bases para suas viagens utilizando os cálculos em milhas árabes, que correspondem a 1.975,5 metros, diferente da milha italiana, 1.477,5 metros. Sem dúvida um erro marcante. Colombo, concluiu então que saindo das Ilhas Canárias e navegando 2.760 milhas (árabes) para o oeste, chegaria às ilhas japonesas. Um duplo erro, pois se revelasse a distância verdadeira, cerca de quatro vezes maior, nunca teria encontrado alguém que lhe financiasse a tentativa. Estava certo de que poderia alcançar o Oriente pelo Ocidente. Embora a teoria da Terra redonda já circulasse nos meios mais cultos, havia um certo ar confuso nos seus cálculos. Colombo não conseguiu fazer interessar o Rei de Portugal, Dom João II, nos seus projetos. Da sua estada em Portugal, sabe-se de seu casamento com Fillipa Moniz Perestrello, de família nobre, com quem teve um filho chamado Diego, futuro companheiro de viagens. Depois do falecimento de sua esposa, Colombo muda-se para a região de Andaluzia, na Espanha, onde cultivou amizades com os Medina-Celli e os Medina-Sidonia. Graças ao Duque de Medina-Celli, foi apresentado formalmente à rainha Isabel de Castella, e pouco depois apresentou seus planos à uma comissão de cientistas e navegadores espanhóis liderada pelo escriba de Talavera, braço direito da rainha.
Em face da conclusão inteiramente negativa, a comissão recusou o projeto, considerando-o impossível frente aos cálculos apresentados. Colombo não desistiu. Tentou penetrar nas cortes da França e da Inglaterra em distintas situações frustantes. Volta então à Espanha e certas intervenções históricas acabaram ajudando-o. Em 1492, os espanhóis conseguiram readquirir suas terras após domínio dos mouros árabes por mais de setecentos anos, na rendição de Granada. Vem dessa época a grande influência árabe na cultura portuguesa e espanhola, desde o vocabulário, passando pela culinária, música e costumes. Ultrapassado a fase de reintegração de posse, os espanhóis começaram a se interessar por novos horizontes além-mar. A rainha Isabel de Castella nunca penhorou as jóias para financiar as expedições de Colombo, ao contrário do que se pregava nas escolas antigamente. Das três embarcações, Pinta e Nina eram caravelas e foram providenciadas pela cidade de Palos, a terceira, Santa Maria, era uma nau e foi financiada por um banqueiro independente que não entendia nada de navegação, mas era bastante ganancioso. Todas as embarcações levavam não mais que noventa homens, geralmente ladrões e devedores da corte espanhola e muita gente doente. No dia 06 de setembro de 1492 as embarcações saíram de Palos em direção às Ilhas Canárias e de lá em direção ao tão sonhado Oriente. Em 25 de setembro o comandante da nau capitânia Santa Maria, Martin Alonso Pizón, confundia uma porção quilométrica de algas boiando com um monte de terra e declarou “terra à vista”, o que provocou certo ar de descontentamento entre a tripulação, gerando até indícios de motim à bordo entre os mais revoltosos. Foi só então na manhã de 12 de outubro que a primeira ilha das Bahamas apareceu aos olhos do marinheiro-mor da caravela Pinta. Segundo o Calendário Juliano em vigor no século XV, era realmente 12 de outubro, porém pelo calendário Gregoriano, seria 21 de outubro. O calendário Gregoriano entrou em vigor alguns anos mais tarde corrigindo o período anual correto em função do Equinócio, marco muito utilizado por navegadores que representa o período em que o dia tem a mesma duração que a noite. O local exato onde Colombo aportou é outro ponto de controvérsias. Nada menos do que doze locais são declarados como sendo o primeiro, devido às suas anotações errôneas e ao fato de querer guardar segredo para não ser seguido caso encontrasse ouro ou especiarias. Teve seu mérito ao descobrir as Ilhas do Haiti e República Dominicana, aí fundou Isabella, em homenagem a rainha da Espanha e na expectativa de futuros financiamentos. Como os comandantes a serviço de Colombo acreditavam terem chegado às Índias, denominaram os nativos de “índios”, cujo continente estava à milhares de quilômetros de distância.
De volta à Espanha, Colombo foi recebido como herói, recebeu inúmeras honrarias e dezenas de banquetes, jamais compreendidos pelos grandes cientistas e navegadores da época que acreditavam impossível ter chegado às Índias com cálculos tão absurdos. Colombo retornou por três vezes às ilhas recém descobertas que ainda não se chamavam América, pois à luz da verdade, ele mesmo sabia que seus cálculos estavam equivocados. Isso gerou-lhe uma tremenda confusão interior. De lá saiu para a conquista de Guadalupe, Porto Rico, Jamaica e Cuba, cuja ilha imaginou ser o final do continente asiático. Só na terceira viagem, em 1498, Colombo realmente chegou ao continente americano atracando pelo norte da Venezuela. Na quarta e última viagem, em 1502, já atormentado pela crises de temperamento e alucinações constantes, não consegue descobrir mais nehuma ilha nova e então escreveu entre delírios, as obras “O livro dos privilégios” e “O livro das profecias”, nos quais se auto intitula “Dom Cristovão Colombo, Vice-Rei e Governador de todas as ilhas e terras firmes do Ocidente”. O que mais o prejudicou não foram suas teorias desatinadas, mas a prática do seu dia-a-dia como Governador das terras descobertas. Neste ponto, relata Sale em seu livro, “…Colombo foi simplesmente desastroso. Faltavam aos moradores das novas terras, comida, bebida, roupa e moradias decentes….” Os reis de Espanha perderam a paciência e mandaram o interventor Francisco de Bobadilla prender Colombo e enviá-lo de volta à Europa. Faleceu em 1506, ainda dono de uma fortuna considerável, porém, totalmente atormentado. Quem deixou bem anotadas todas as crueldades e façanhas de Colombo, foi o frade dominicano Bartolomeu de Las Casas, cuja obra publicada integralmente no século XIX, serve até hoje como fonte para os historiadores e revisionistas. Quem realmente descobriu as Índias, o continente no Oriente em 1497, foi o navegador português Vasco da Gama, (1460-1524), seguindo o caminho escolhido por Bartolomeu Dias, e conseguiu contornar o Cabo da Boa Esperança, navegando às margens do continente Africano e o Oceano Índico até chegar à Malabar.
O grande escritor francês Victor Hugo, (1802-1885), deixou registrado que “…Há homens sem sorte, e que Colombo não conseguira associar seu nome à descoberta da América…” e que “…a história do ovo em pé de Colombo não passa de uma lenda italiana, na qual Colombo querendo impressionar seus comandados, fez parar em pé um ovo cozido e levemente amassado na base, que logo em seguida ele mesmo amassa para não descobrirem sua façanha…”. É muito intrigante realmente, a América não se chamar Columbia. Américo Vespúcio, (1451-1512), nascido em Florença e navegador familiarizado com o mar, desenvolveu sistemas de cálculos de longitude imbatíveis para a época, “emprestou” seu nome para as novas terras, parecia ser melhor cotado nos meios pertinentes, pois ao contrário de Colombo descrevia e muito bem sobre suas viagens às novas terras. Afirmava ter chegado ao continente sul, próximo do Rio da Prata em 1497, antes de Pedro Alvares Cabral (1467-1520) ter descoberto o Brasil em 1500. Amigo fiel dos Medici, o “Magnífico”, Américo Vespúcio conseguia se infiltrar facilmente entre patronos e banqueiros da época. A Vila de Saint-Dié, na França, era o berço de reliogiosos cartográficos e o ilustrador Monsenhor Martin Waldseemüller ao preparar o mapa do Novo Mundo, seguindo cálculos de Vespúcio sugeriu o nome das novas terras de “Amerige”. Nasce assim o continente América. O autor Sale, da obra “The Conquest of Paradise” traça um quadro interessante da civilização no século XV, tanto na Espanha sob os olhares de novas descobertas e sob o terror da Inquisição, quanto no resto da Europa dilacerada pelas guerras constantes, assolada pela fome e pela peste. Porém, ressalta simultaneamente com brilhantismo uma época recheada de ilustres figuras como, Leonardo Da Vinci, (1452-1519), Maquiavel,(1469-1527), Michelângelo, (1475-1564), Nicolau Copérnico, (1473-1543), Lutero, (1483-1546) e Rafael, (1483-1520). As grandes navegações foram consequência natural de uma efervescência cultural da época do Renascimento, que estremeceram o conteúdo do conceito humano.
© Revista Eletrônica de Ciências - Número 19 - Maio / Junho de 2003
Fonte: http://contextopolitico.blogspot.com/2008/12/histria-moderna-as-grandes-navegaes.html

quarta-feira, 17 de março de 2010

Atividade - 9º Ano (CNEC)



Para alguns alunos, na aula passada, ficou combinado, que seria feita uma atividade via Internet e ai está ela!
A atividade consiste em observar os dois vídeos abaixo elaborados pela “Fundação Joaquim Nabuco" e Pelo "Ministério da Cultura", com o apoio da "TV Cultura". É um dos episódios da Série "Brasil - 500 Anos" (disponível no site: www.dominiopublico.gov.br), e a partir de suas observações compará-lo com o seu livro didático no que se refere as causas, desenvolvimento e consequências da Guerra de Canudos.
Seria interessante também ouvir o clipe da música Súplica Cearense e relacioná-lo com os vídeos e o texto.
Um bom trabalho e não deixem de participar.
Um grande abraço.
Professor Alexandre.
A atividade deverá ser enviada por e-mail até o dia 31 de março.
wsshist@gmail.com

Parte 1
video
Parte 2
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CNEC: Aula - 17/03/2010 (8ª Série)

Caros alunos do 9º Ano.
Iniciamos a aula de hoje com uma revisão do primeiro capítulo, mas fizemos essa revisão de forma diferente, através de um jogo. E através desse jogo trabalhamos os principais conceitos e objetivos tratados durante as nossas aulas anteriores.
No segundo momento analisamos de forma sucinta os principais pontos da aula anterior e a partir daí começamos um novo capítulo do nosso livro: Os primeiros anos da República no Brasil. Nesse capítulo será analisado, uma série de acontecimentos relacionados, não só ao processo de formação da República Brasileira e as mudanças e permanências em relação ao período imperial, como também os diversos movimentos de contestação a esse novo modelo político.
Para darmos inicio ao assunto analisamos algumas ideias desenvolvidas na Europa e que influenciaram aqueles que nos legaram uma nova forma de governo, a República, mesmo que essa não fosse “... a República dos nossos sonhos”
Nesse tópico as ideias analisadas foram:
► O Positivismo do francês Augusto Comte;
► O Darwinismo Social do inglês Herbert Spencer.
Ao analisarmos essas duas ideias voltamos ao pensamento darwinista de evolução e seleção natural e com isso vimos as suas influências na organização da sociedade pós-industrial e as suas relações com a proclamação da República Brasileira.
Trabalhamos também os primeiros anos da República Brasileira, mais especificamente a: República da Espada, que recebeu esse nome devido aos nossos dois primeiro presidentes pertencerem as Forças Armadas.
São eles:
☼ Deodoro da Fonseca;
☼ Floriano Peixoto.
No governo do Marechal Deodoro, destacamos dois aspectos importantes, um no plano econômico e outro no plano político. No primeiro analisamos o encilhamento, suas causas e consequências e no segundo aspecto analisamos a primeira Constituição Republicana do Brasil.
No governo do Floriano Peixoto, analisamos a Revolta da Armada e a Revolta ou Revolução Federalista.
Para terminarmos foram passados quatro (4) exercícios para a aula 10, 11, 12 e 17. A correção das atividades de aula encontram-se abaixo.
10. (a)
11. (c)
12. (d)
17. O projeto delineado por Rui Barbosa, o então ministro da economia, recebeu o nome de
Encilhamento. Nesse período, houve uma grande emissão de papel moeda, a fim de incentivar a industrialização no Brasil. No entanto, muitas empresas-fantasma e boicotes desencadearam uma crise sem precedentes na economia. A inflação e a dívida externa cresceram, levando ao fim o Encilhamento
.
►Para casa as atividades foram:
Exercícios 2 e 3 da página 28;
Obs. No exercício 3 foi pedido que se privilegiasse os seguintes tópicos:
Exportação;
Juros elevados;
Carga tributária elevada.
Exercícios 16 e 19 das páginas 45 e 46.

segunda-feira, 15 de março de 2010

CNEC: Aula - 15/03/2010 (5ª Série)

Caros alunos,
ao darmos início ao nosso encontro semanal, fiquei chateado com a informação que a maioria de vocês não levou o material combinado para as atividades do dia. Mas tudo bem, vamos ver na próxima.
Em substituição as atividades combinada, demos por iniciado o segundo capítulo do livro. Processos de utilização, de exploração e relação do homem com a terra, com duas atividades sobre o processo de aculturação - Nome que se dá ao grupo de fenômenos decorrentes do contato direto de integrantes de várias culturas, ou seja, o processo de aquisição através do contato dos elementos culturais de um grupo com uma cultura com elementos de um grupo de outra cultura. Pode ser também entendido como os processos pelos quais as pessoas aprendem os padrões de comportamento do seu grupo social - dos índios no Brasil e as hipóteses sobre o processo de ocupação do continente americano.
Correção.
Trabalhando com imagem e texto
1) Na gravura, as roupas e os armamentos comprovam que os indígenas já sofreram a influência branca, e até mesmo o cenário para as práticas culturais demonstram essa aculturação. No poema, os índios ressaltam suas raízes e tradições adquiridas com os seus ancestrais.
2) Certamente a imagem retrata a realidade de aculturação vivenciada pelos indígenas.


E ao analisarmos o mapa em sala percebemos que existem três hipóteses sobre a ocupação do continente americano pelo homem.
☼ Origem asiática, passando pelo Estreito de Bering;
☼ Origem malaio-polinésia;
☼ Origem australiana;
Outra hipótese é a da:
☼ corrente esquimó ou uraliana – de origem do norte do montes Urais (entre a Europa e a Ásia), que penetrou na América pelo Ártico.
Com isso, vimos pesquisas que comprovam a semelhança genética indígenas com as de certas populações asiáticas e que antes dos índios, outros grupos populacionais, com características diferentes, ocuparam terras brasileiras antes. Como a Luzia, na foto abaixo.
Importante também é que identificamos características paleolíticas nas populaçãoes que habitavam o Brasil antes de Cabral

Para finalizar foi combinado a elaboração de três atividades para casa: os exercícios 4, 5, e 6.

Para saber mais: http://pt.wikipedia.org/wiki/Luzia_(f%C3%B3ssil)
http://www.itaucultural.org.br/arqueologia/pt/tempo/capivara/primeirosbrasileiros00.htm
http://contextopolitico.blogspot.com/2008/09/histria-histria-de-luzia.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_pr%C3%A9-colonial_do_Brasil
http://www.arqueologia.arq.br/page4-8.htm
Para saber mais ainda: http://max.org.br/biblioteca/Livros/PreHistSergipana/Cap-1.pdf

sábado, 13 de março de 2010

CNEC: Aula - 10/03/2010 (8ª Série)

Fazenda Ibicaba no século XIX



No início do nosso encontro (aula do dia 10 de março) elaboramos no quadro uma síntese dos assuntos trabalhados na aula anterior.
► A construção da identidade nacional e a vitória de uma determinada visão de nação em que o índio foi idealizado como herói nacional;
► O surgimento de novos grupos sociais;
► Realismo;
► Poesia engajada;
► Revolução industrial ► problemas:
× Urbanização descontrolada;
× Problemas de saneamento;
× As condições de vida do proletariado;
× Baixos salários.
Após essa síntese passamos a trabalhar com o assunto principal da nossa aula com o objetivo de analisar os fatores externos para a vinda dos imigrantes (os fatores internos foram analisados nas aulas anteriores) e as transformações ocorridas com o estabelecimento desses novos grupos no território brasileiro.
Ao analisarmos o processo de imigração, relembramos os fatores internos e algumas soluções encontradas pelos fazendeiros, principalmente os do Oeste Paulista, antes mesmo da promulgação da Lei Eusébio de Queiros.
Vejamos algumas dessas soluções:
* 1947 – Senador Vergueiro contrata imigrantes europeus através do Sistema de Parcerias;

O tratamento aos colonos na fazenda do Senador Vergueiro
O diplomata suíço J.J. Von Tschuidi indignara-se na década de 1860 com a forma pela qual eram tratados os colonos nas fazendas de Vergueiro:
“Fez assim da fazenda um Estado dentro do próprio Estado, recorrendo, entretanto, ao poder público, quando se sentia incapaz de resistir eficazmente às ameaças, como aconteceu na ocasião da revolta do ano de 1857. Vergueiro chegou ao cúmulo de mandar imprimir moeda papel em forma de notas de banco, para com tal moeda pagar colonos. Tenho em mãos a nota nº 836, no valor de 1 mil-réis. Mas Vergueiro fez também imprimir notas de 2 e de 5 mil-réis. Fazia por este meio circular dinheiro que de fato não possuía, resgatando-o quando lhe entrava algum numerário. Mas os colonos eram obrigados a pagar-lhe juros sobre este dinheiro fictício!”
Abaixo temos um trecho de um livro escrito por um imigrante suíço que veio trabalhar na Fazenda Ibicaba, do senador Vergueiro, e se tornou o líder da revolta de 1856 contra os maus tratos sofridos pelos colonos.
“Eu próprio fui vítima, em dado momento, da febre de emigrar. Por longo tempo cogitei, mas sem resultado, em dirigir-me aos Estados Unidos. Por fim certas circunstâncias vieram facilitar uma colocação na colônia da província brasileira de São Paulo. Em companhia de numerosos outros emigrantes embarquei na primavera de 1855 para essa terra, mas não tardei em chegar a convicções de que tantos outros arrancaram aqueles lamentos ‘Desta vez estou perdido!’ O mais triste é quando se chega a descobrir isso, quando percebemos que uma nova escravidão nos submergiu e que essa escravidão é mais difícil de escapar-se do que à tradicional, que de há longa data jungiu os negros africanos. À medida que essa conclusão se formava em meu espírito, crescia também em mim o desejo de me socorrer e aos meus pobres companheiros”.
A seguir reproduzo o comentário da Princesa Isabel em visita, no dia 17 de novembro, a Fazenda Ibicaba em 1884:
"a terra aqui, é tão boa para o café, chamada de terra roxa. É excelente para plantações, mas terrível para os entes humanos. O colarinho, que se põe de manhã limpo, à noite está amarelo, se não chove. Se chove, tudo escorrega e gruda nos pés e nas rodas dos carros. A Fazenda Ibicaba tem muita nomeada e merecida. Dona Maria Umbelina Vergueiro foi quem nos recebeu, É muito agradável e dizem ter sido linda. O marido, infelizmente, não pode se achar aí nestes dias ...."
Fonte: http://www.aprovincia.com/padrao.aspx?texto.aspx?idContent=4529&idContentSection=709
* 1950 – Lei Eusébio de Queiros;
* 1950 – Lei de terras;
► Tráfico Interno (Escravos que vinham dos decadentes engenhos nordestinos)
*1871 – Migração subvencionada;
► Colonato.
► Lei do Ventre Livre;
* 1885 – Lei do Sexagenário;
* 1888 – Lei Áurea.
Ao término da análise dos objetivos da aula, iniciamos a preparação de uma atividade em que após a leitura do capítulo do livro, os alunos elaboraram uma série de questões do tipo falso / verdadeiro para que na próxima aula possamos fazer uma revisão final do capítulo através de uma atividade lúdica.
Obs.: apenas os alunos que entregaram as atividades poderão participar do jogo, jogo esse que valerá como parte da avaliação do trimestre.

Para saber mais.
Site oficial da Fazenda Ibicaba: http://www.fazendaibicaba.com.br/principal.html
Desafio:
Estabeleça a relação entre a Lei Eusébio de Queirós e a Lei de Terras estabelecidas no processo da extinção do tráfico negreiro e no início da imigração européia.
Respostas nos comentários.
Não deixem de participar.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Luiz Felipe de Alencastro e o sistema de cotas


Luiz Felipe de Alencastro
Cientista Político e Historiador
Professor titular da cátedra de História do Brasil da Universidade de Paris IV Sorbonne

No presente ano de 2010, os brasileiros afro-descendentes, os cidadãos que se auto-definem como pretos e pardos no recenseamento nacional, passam a formar a maioria da população do país. A partir de agora -, na conceituação consolidada em décadas de pesquisas e de análises metodológicas do IBGE -, mais da metade dos brasileiros são negros.
Esta mudança vai muito além da demografia. Ela traz ensinamentos sobre o nosso passado, sobre quem somos e de onde viemos, e traz também desafios para o nosso futuro.
Minha fala tentará juntar os dois aspectos do problema, partindo de um resumo histórico para chegar à atualidade e ao julgamento que nos ocupa. Os ensinamentos sobre nosso passado, referem-se à densa presença da população negra na formação do povo brasileiro. Todos nós sabemos que esta presença originou-se e desenvolveu-se na violência. Contudo, a extensão e o impacto do escravismo não tem sido suficientemente sublinhada. A petição inicial de ADPF apresentada pelo DEM a esta Corte fala genéricamente sobre “o racismo e a opção pela escravidão negra » (pp. 37-40), sem considerar a especificidade do escravismo em nosso país.
Na realidade, nenhum país americano praticou a escravidão em tão larga escala como o Brasil. Do total de cerca de 11 milhões de africanos deportados e chegados vivos nas Américas, 44% (perto de 5 milhões) vieram para o território brasileiro num período de três séculos (1550-1856). O outro grande país escravista do continente, os Estados Unidos, praticou o tráfico negreiro por pouco mais de um século (entre 1675 e 1808) e recebeu uma proporção muito menor -, perto de 560.000 africanos -, ou seja, 5,5% do total do tráfico transatlantico.[1] No final das contas, o Brasil se apresenta como o agregado político americano que captou o maior número de africanos e que manteve durante mais tempo a escravidão.
Durante estes três séculos, vieram para este lado do Atlântico milhões de africanos que, em meio à miséria e ao sofrimento, tiveram coragem e esperança para constituir as famílias e as culturas formadoras de uma parte essencial do povo brasileiro. Arrancados para sempre de suas famílias, de sua aldeia, de seu continente, eles foram deportados por negreiros luso-brasileiros e, em seguida, por traficantes genuinamente brasileiros que os trouxeram acorrentados em navios arvorando o auriverde pendão de nossa terra, como narram estrofes menos lembradas do poema de Castro Alves.
No século XIX, o Império do Brasil aparece ainda como a única nação independente que praticava o tráfico negreiro em larga escala. Alvo da pressão diplomática e naval britânica, o comércio oceânico de africanos passou a ser proscrito por uma rede de tratados internacionais que a Inglaterra teceu no Atlântico. [2]
O tratado anglo-português de 1818 vetava o tráfico no norte do equador. Na sequência do tratado anglo-brasileiro de 1826, a lei de 7 de novembro de 1831, proibiu a totalidade do comércio atlântico de africanos no Brasil.
Entretanto, 50.000 africanos oriundos do norte do Equador são ilegalmente desembarcados entre 1818 e 1831, e 710.000 indivíduos, vindos de todas as partes da África, são trazidos entre 1831 e 1856, num circuito de tráfico clandestino. Ora, da mesma forma que o tratado de 1818, a lei de 1831 assegurava plena liberdade aos africanos introduzidos no país após a proibição. Em conseqüência, os alegados proprietários desses indivíduos livres eram considerados sequestradores, incorrendo nas sanções do artigo 179 do «Código Criminal», de 1830, que punia o ato de “reduzir à escravidão a pessoa livre que se achar em posse de sua liberdade ». A lei de 7 de novembro 1831 impunha aos infratores uma pena pecuniária e o reembôlso das despesas com o reenvio do africano sequestrado para qualquer porto da África. Tais penalidades são reiteradas no artigo 4° da Lei de 4 de setembro de 1850, a lei Eusébio de Queirós que acabou definitivamente com o tráfico negreiro.
Porém, na década de 1850, o governo imperial anistiou, na prática, os senhores culpados do crime de seqüestro, mas deixou livre curso ao crime correlato, a escravização de pessoas livres.[3] De golpe, os 760.000 africanos desembarcados até 1856 -, e a totalidade de seus descendentes -, continuaram sendo mantidos ilegalmente na escravidão até 1888[4]. Para que não estourassem rebeliões de escravos e de gente ilegalmente escravizada, para que a ilegalidade da posse de cada senhor, de cada seqüestrador, não se transformasse em insegurança coletiva dos proprietários, de seus sócios e credores -, abalando todo o país -, era preciso que vigorasse um conluio geral, um pacto implícito em favor da violação da lei. Um pacto fundado nos “interesses coletivos da sociedade”, como sentenciou, em 1854, o ministro da Justiça, Nabuco de Araújo, pai de Joaquim Nabuco.
O tema subjaz aos debates da época. O próprio Joaquim Nabuco -, que está sendo homenageado neste ano do centenário de sua morte -, escrevia com todas as letras em “O Abolicionismo” (1883): “Durante cinqüenta anos a grande maioria da propriedade escrava foi possuída ilegalmente. Nada seria mais difícil aos senhores, tomados coletivamente, do que justificar perante um tribunal escrupuloso a legalidade daquela propriedade, tomada também em massa”[5].
Tal “tribunal escrupuloso” jamais instaurou-se nas cortes judiciárias, nem tampouco na historiografia do país. Tirante as ações impetradas por um certo número de advogados e magistrados abolicionistas, o assunto permaneceu encoberto na época e foi praticamente ignorado pelas gerações seguintes.
Resta que este crime coletivo guarda um significado dramático: ao arrepio da lei, a maioria dos africanos cativados no Brasil a partir de 1818 -, e todos os seus descendentes -, foram mantidos na escravidão até 1888. Ou seja, boa parte das duas últimas gerações de indivíduos escravizados no Brasil não era escrava. Moralmente ilegítima, a escravidão do Império era ainda -, primeiro e sobretudo -, ilegal. Como escreví, tenho para mim que este pacto dos sequestadores constitui o pecado original da sociedade e da ordem jurídica brasileira.[6]
Firmava-se duradouramente o princípio da impunidade e do casuísmo da lei que marca nossa história e permanece como um desafio constante aos tribunais e a esta Suprema Corte. Consequentemente, não são só os negros brasileiros que pagam o preço da herança escravista.
Outra deformidade gerada pelos “males que a escravidão criou”, para retomar uma expressão de Joaquim Nabuco, refere-se à violência policial.
Para expor o assunto, volto ao século XIX, abordando um ponto da história do direito penal que os ministros desta Corte conhecem bem e que peço a permissão para relembrar.
Depois da Independência, no Brasil, como no sul dos Estados Unidos, o escravismo passou a ser consubstancial ao State building, à organização das instituições nacionais. Houve, assim, uma modernização do escravismo para adequá-lo ao direito positivo e às novas normas ocidentais que regulavam a propriedade privada e as liberdades públicas. Entre as múltiplas contradições engendradas por esta situação, uma relevava do Código Penal: como punir o escravo delinqüente sem encarcerá-lo, sem privar o senhor do usufruto do trabalho do cativo que cumpria pena prisão?
Para solucionar o problema, o quadro legal foi definido em dois tempos. Primeiro, a Constituição de 1824 garantiu, em seu artigo 179, a extinção das punições físicas constantes nas aplicações penais portuguesas. “Desde já ficam abolidos os açoites, a tortura, a marca de ferro quente, e todas as mais penas cruéis”; a Constituição também prescrevia: “as cadeias serão seguras, limpas e bem arejadas, havendo diversas casas para separação dos réus, conforme suas circunstâncias e natureza de seus crimes”.
Conforme os princípios do Iluminismo, ficavam assim preservadas as liberdades e a dignidade dos homens livres.
Num segundo tempo, o Código Criminal de 1830 tratou especificamente da prisão dos escravos, os quais representavam uma forte proporção de habitantes do Império. No seu artigo 60, o Código reatualiza a pena de tortura. “Se o réu for escravo e incorrer em pena que não seja a capital ou de galés, será condenado na de açoites, e depois de os sofrer, será entregue a seu senhor, que se obrigará a trazê-lo com um ferro pelo tempo e maneira que o juiz designar, o número de açoites será fixado na sentença e o escravo não poderá levar por dia mais de 50”. Com o açoite, com a tortura, podia-se punir sem encarcerar: estava resolvido o dilema.
Longe de restringir-se ao campo, a escravidão também se arraigava nas cidades. Em 1850, o Rio de Janeiro contava 110.000 escravos entre seus 266.000 habitantes, reunindo a maior concentração urbana de escravos da época moderna. Neste quadro social, a questão da segurança pública e da criminalidade assumia um viés específico.[7] De maneira mais eficaz que a prisão, o terror, a ameça do açoite em público, servia para intimidar os escravos.
Oficializada até o final do Império, esta prática punitiva estendeu-se às camadas desfavorecidas, aos negros em particular e aos pobres em geral. Junto com a privatização da justiça efetuada no campo pelos fazendeiros, tais procedimentos travaram o advento de uma política de segurança pública fundada nos princípios da liberdade individual e dos direitos humanos.
Enfim, uma terceira deformidade gerada pelo escravismo afeta diretamente o estatuto da cidadania.
É sabido que nas eleições censitárias de dois graus ocorrendo no Império, até a Lei Saraiva, de 1881, os analfabetos, incluindo negros e mulatos alforriados, podiam ser votantes, isto é, eleitores de primeiro grau, que elegiam eleitores de 2° grau (cerca de 20.000 homens em 1870), os quais podiam eleger e ser eleitos parlamentares. Depois de 1881, foram suprimidos os dois graus de eleitores e em 1882, o voto dos analfabetos foi vetado. Decidida no contexto pré-abolicionista, a proibição buscava criar um ferrolho que barrasse o acesso do corpo eleitoral à maioria dos libertos. Gerou-se um estatuto de infracidadania que perdurou até 1985, quando foi autorizado o voto do analfabeto. O conjunto dos analfabetos brasileiros, brancos e negros, foi atingido.[8] Mas a exclusão política foi mais impactante na população negra, onde o analfabetismo registrava, e continua registrando, taxas proporcionalmente bem mais altas do que entre os brancos.[9]
Pelos motivos apontados acima, os ensinamentos do passado ajudam a situar o atual julgamento sobre cotas universitárias na perspectiva da construção da nação e do sistema politico de nosso país. Nascidas no século XIX, a partir da impunidade garantida aos proprietários de indivíduos ilegalmente escravizados, da violência e das torturas infligidas aos escravos e da infracidadania reservada ao libertos, as arbitrariedades engendradas pelo escravismo submergiram o país inteiro.
Por isso, agindo em sentido inverso, a redução das discriminações que ainda pesam sobre os afrobrasileiros -, hoje majoritários no seio da população -, consolidará nossa democracia.
Portanto, não se trata aqui de uma simples lógica indenizatória, destinada a quitar dívidas da história e a garantir direitos usurpados de uma comunidade específica, como foi o caso, em boa medida, nos memoráveis julgamentos desta Corte sobre a demarcação das terras indígenas. No presente julgamento, trata-se, sobretudo, de inscrever a discussão sobre a política afirmativa no aperfeiçoamento da democracia, no vir a ser da nação. Tais são os desafios que as cotas raciais universitárias colocam ao nosso presente e ao nosso futuro.
Atacando as cotas universitárias, a ADPF do DEM, traz no seu ponto 3 o seguinte título « o perigo da importação de modelos : os exemplos de Ruanda e dos Estados Estados Unidos da América » (pps. 41-43). Trata-se de uma comparação absurda no primeiro caso e inepta no segundo.
Qual o paralelo entre o Brasil e Ruanda, que alcançou a independência apenas em 1962 e viu-se envolvido, desde 1990, numa conflagração generalizada que os especialistas denominam a « primeira guerra mundial africana », implicando também o Burundi, Uganda, Angola, o Congo Kinsasha e o Zimbabuê, e que culminou, em 1994, com o genocídio de quase 1 milhão de tutsis e milhares de hutus ruandenses ?
Na comparação com os Estados Unidos, a alegação é inepta por duas razões. Primeiro, os Estados Unidos são a mais antiga democracia do mundo e servem de exemplo a instituições que consolidaram o sistema político no Brasil. Nosso federalismo, nosso STF -, vosso STF – são calcados no modelo americano. Não há nada de “perigoso” na importação de práticas americanas que possam reforçar nossa democracia. A segunda razão da inépcia reside no fato de que o movimento negro e a defesa dos direitos dos ex-escravos e afrodescendentes tem, como ficou dito acima, raízes profundas na história nacional. Desde o século XIX, magistrados e advogados brancos e negros tem tido um papel fundamental nesta reinvidicações.
Assim, ao contrário do que se tem dito e escrito, a discussão relançada nos anos 1970-1980 sobre as desigualdades raciais é muito mais o resultado da atualização das estatísticas sociais brasileiras, num contexto de lutas democráticas contra a ditadura, do que uma propalada « americanização » do debate sobre a discriminação racial em nosso país. Aliás, foram estas mesmas circunstâncias que suscitaram, na mesma época, os questionamentos sobre a distribuição da renda no quadro do alegado « milagre econômico ». Havia, até a realização da primeira PNAD incluindo o critério cor, em 1976, um grande desconhecimento sobre a evolução demográfica e social dos afrodescendentes.
De fato, no Censo de 1950, as estatísticas sobre cor eram limitadas, no Censo de 1960, elas ficaram inutilizadas e no Censo de 1970 elas eram inexistentes. Este longo período de eclipse estatística facilitou a difusão da ideologia da “democracia racial brasileira”, que apregoava de inexistência de discriminação racial no país. Todavia, as PNADs de 1976, 1984, 1987, 1995, 1999 e os Censos de 1980, 1991 e 2000, incluíram o critério cor. Constatou-se, então, que no decurso de três décadas, a desigualdade racial permanecia no quadro de uma sociedade mais urbanizada, mais educada e com muito maior renda do que em 1940 e 1950. Ou seja, ficava provado que a desigualdade racial tinha um carácter estrutural que não se reduzia com progresso econômico e social do país. Daí o adensamento das reinvidicações da comunidade negra, apoiadas por vários partidos políticos e por boa parte dos movimentos sociais.
Nesta perspectiva, cabe lembrar que a democracia, a prática democrática, consiste num processo dinâmico, reformado e completado ao longo das décadas pelos legisladores brasileiros, em resposta às aspirações da sociedade e às iniciativas de países pioneiros. Foi somente em 1932 -, ainda assim com as conhecidas restrições suprimidas em 1946 -, que o voto feminino instaurou-se no Brasil. Na época, os setores tradicionalistas alegaram que a capacitação política das mulheres iria dividir as famílias e perturbar a tranquilidade de nação. Pouco a pouco, normas consensuais que impediam a plena cidadania e a realização profissional das mulheres foram sendo reduzidas, segundo o preceito -, aplicável também na questão racial -, de que se deve tratar de maneira desigual o problema gerado por uma situação desigual.
Para além do caso da política de cotas da UNB, o que está em pauta neste julgamento são, a meu ver, duas questões essenciais.
A primeira é a seguinte : malgrado a inexistência de um quadro legal discriminatório a população afrobrasileira é discriminada nos dias de hoje?
A resposta está retratada nas creches, nas ruas, nas escolas, nas universidades, nas cadeias, nos laudos dos IML de todo o Brasil. Não me cabe aqui entrar na análise de estatísticas raciais, sociais e econômicas que serão abordadas por diversos especialistas no âmbito desta Audiência Pública. Observo, entretanto, que a ADPF apresentada pelo DEM, na parte intitulada « A manipulação dos indicadores sociais envolvendo a raça » (pp. 54-59), alinha algumas cifras e cita como única fonte analítica, o livro do jornalista Ali Kamel, o qual, como é sabido, não é versado no estudo das estatísticas do IBGE, do IPEA, da ONU e das incontáveis pesquisas e teses brasileiras e estrangeiras que demonstram, maciçamente, a existência de discriminação racial no Brasil.
Dai decorre a segunda pergunta que pode ser formulada em dois tempos. O sistema de promoção social posto em prática desde o final da escravidão poderá eliminar as desigualdades que cercam os afrobrasileiros? A expansão do sistema de bolsas e de cotas pelo critério social provocará uma redução destas desigualdades ?
Os dados das PNAD organizados pelo IPEA mostram, ao contrário, que as disparidades se mantém ao longo da última década. Mais ainda, a entrada no ensino superior exacerba a desigualdade racial no Brasil.
Dessa forma, no ensino fundamental (de 7 a 14 anos), a diferença entre brancos e negros começou a diminuir a partir de 1999 e em 2008 a taxa de frequência entre os dois grupos é praticamente a mesma, em torno de 95% e 94% respectivamente. No ensino médio (de 15 a 17 anos) há uma diferença quase constante desde entre 1992 e 2008. Neste último ano, foram registrados 61,0% de alunos brancos e 42,0% de alunos negros desta mesma faixa etária. Porém, no ensino superior a diferença entre os dois grupos se escancara. Em 2008, nas faixas etárias de brancos maiores de 18 anos de idade, havia 20,5% de estudantes universitários e nas faixas etárias de negros maiores de 18 anos, só 7,7% de estudantes universitários.[10] Patenteia-se que o acesso ao ensino superior constitui um gargalo incontornável para a ascensão social dos negros brasileiros.
Por todas estas razões, reafirmo minha adesão ao sistema de cotas raciais aplicado pela Universidade de Brasília.
Penso que seria uma simplificação apresentar a discussão sobre as cotas raciais como um corte entre a esquerda e a direita, o governo e a oposição ou o PT e o PSDB. Como no caso do plebiscito de 1993, sobre o presidencialismo e o parlamentarismo, a clivagem atravessa as linhas partidárias e ideológicas. Aliàs, as primeiras medidas de política afirmativa relativas à população negra foram tomadas, como é conhecido, pelo governo Fernando Henrique Cardoso.
Como deixei claro, utilizei vários estudos do IPEA para embasar meus argumentos. Ora, tanto o presidente do IPEA no segundo governo Fernando Henrique Cardoso, o professor Roberto Borges Martins, como o presidente do IPEA no segundo governo Lula, o professor Márcio Porchman -, colegas por quem tenho respeito e admiração -, coordenaram vários estudos sobre a discriminação racial no Brasil nos dias de hoje e são ambos favoráveis às políticas afirmativas e às políticas de cotas raciais.
A existência de alianças transversais deve nos conduzir -, mesmo num ano de eleições -, a um debate menos ideologizado, onde os argumentos de uns e de outros possam ser analisados a fim de contribuir para a superação da desigualdade racial que pesa sobre os negros e a democracia brasileira.
[1].Ver o Database da Universidade de Harvard acessível no sítio http://www.slavevoyages.org/tast/index.faces
[2]. Demonstrando um grande desconhecimento da história pátria e supercialidade em sua argumentação, a petição do DEM afirma na página 35: “Por que não direcionamos a Portugal e à Inglaterra a indenização a ser devida aos afrodescendentes, já que foram os portugueses e os ingleses quem organizaram o tráfico de escravos e a escravidão no Brasil?”. Como é amplamente conhecido, os ingleses não tiveram participação no escravismo brasileiro, visto que o tráfico negreiro constituía-se como um monopólio português, com ativa participação brasileira no século XIX. Bem ao contrário, por razões que não cabe desenvolver neste texto, a Inglaterra teve um papel decisivo na extinção do tráfico negreiro para o Brasil
[3]. A. Perdigão Malheiro, A Escravidão no Brasil – Ensaio Histórico, Jurídico, Social (1867), Vozes, Petrópolis, R.J., 1976, 2 vols. , v. 1, pp. 201-222. Numa mensagem confidencial ao presidente da província de São Paulo, em 1854, Nabuco de Araújo, ministro da Justiça, invoca “os interesses coletivos da sociedade”, para não aplicar a lei de 1831, prevendo a liberdade dos africanos introduzidos após esta data, Joaquim Nabuco, Um Estadista do Império (1897-1899), Topbooks, Rio de Janeiro, 1997, 2 vols., v. 1, p. 229, n. 6
[4] . Beatriz G. Mamigonian, comunicação no seminário do Centre d’Études du Brésil et de l’Atlantique Sud, Université de Paris IV Sorbonne, 21/11/2006; D.Eltis, Economic Growth and the Ending of the Transatlantic Slave Trade, Oxford University Press, Oxford, U.K. 1989, appendix A, pp. 234-244.
[5] . Joaquim Nabuco, O Abolicionismo (1883), ed. Vozes, Petrópolis, R.J., 1977, pp 115-120, 189. Quinze anos depois, confirmando a importância primordial do tráfico de africanos -, e da na reprodução desterritorializada da produção escravista -, Nabuco afirma que foi mais fácil abolir a escravidão em 1888, do que fazer cumprir a lei de 1831, id., Um Estadista do Império (1897-1899), Rio de Janeiro, Topbooks,1997, 2 vols., v. 1, p. 228.
[6] . L.F. de Alencastro, “A desmemória e o recalque do crime na política brasileira”, in Adauto Novaes, O Esquecimento da Política, Agir Editora, Rio de Janeiro, 2007, pp. 321-334.
[7] . Luiz Felipe de Alencastro, “Proletários e Escravos: imigrantes portugueses e cativos africanos no Rio de Janeiro 1850-1870”, in Novos Estudos Cebrap, n. 21, 1988, pp. 30-56;
[8] . Elza Berquó e L.F. de Alencastro, “A Emergência do Voto Negro”, Novos Estudos Cebrap, São Paulo, nº33, 1992, pp.77-88.
[9] . O censo de 1980 mostrava que o índice de indivíduos maiores de cinco anos "sem instrução ou com menos de 1 ano de instrução" era de 47,3% entre os pretos, 47,6% entre os pardos e 25,1% entre os brancos. A desproporção reduziu-se em seguida, mas não tem se modificado nos últimos 20 anos. Segundo as PNADs, em 1992, verificava-se que na população maior de 15 anos, os brancos analfabetos representavam 4,0 % e os negros 6,1 %, em 2008 as taxas eram, respectivamente de 6,5% e 8,3%. O aumento das taxas de analfabetos provém, em boa parte, do fato que a partir de 2004, as PNADs passa a incorporar a população rural de Rondônia, Acre, Amazonas,Roraima, Pará e Amapá. Dados extraídos das tabelas do IPEA.
[10] . Dados fornecidos pelo pesquisador do IPEA, Mario Lisboa Theodoro, que também participa desta Audiência Pública.

segunda-feira, 8 de março de 2010

PRÉ-HISTÓRIA - Paleolítico e Neolítico

Modos de vida no Paleolítico e no Neolítico
As imagens abaixo podem ajudar a perceber a diferença nos dois primeiros períodos da "Pré-História"

CNEC: Aula - 08/03/2010 (5ª Série)

A lenta evolução humana



Como vão queridos alunos?
No nosso primeiro encontro dessa semana voltamos ao assunto que estudamos na aula anterior, as explicações sobre a origem do ser humano, vimos que cada povo, tem uma explicação para a origem do homem. Vimos à explicação religiosa que prevaleceu até a segunda metade do século XIX, conhecida como Criacionismo – para maiores esclarecimentos conferir a seção Para saber mais das postagens anteriores (22/02/2010 e 1/03/2010) e a teoria – explicação abrangente e bem consolidada de algum aspecto do mundo natural, que pode incorporar fatos, leis, inferências e hipóteses passíveis de teste - Evolucionista elaborada por Charles Darwin e como ele explicou a evolução do homem.

Após essa breve síntese sobre a aula anterior, iniciamos uma conversa sobre a "Pré-História", a importância do dedo opositor para o desenvolvimento do ser-humano e os seus dois primeiros períodos - O Paleolítico (Antiga Idade da Pedra) ou Pedra Lascada e Neolítico (Nova Idade da Pedra) ou Pedra Polida, depois dessa conversa inicial elaborei no quadro um esquema-resumo sobre os dois períodos.
Abaixo encontra-se o esquema utilizado em sala e elaborado com mais detalhes.
Assunto: As sociedades coletoras (Paleolítico) e as primeiras sociedades produtoras (neolítico)
× Paleolítico
§ As primeiras conquistas do Homem.
I. O processo de hominização
Primatas (100000000 a.C) Hominídeos Australopithecus (6000000 a.C)
Homo erectus (1 800 000 a.C) Homo sapiens (150 000 a.C) Homo sapiens sapiens (80000 a.C)


II. Fabricação de Instrumentos
► Homo habilis
- Seixos partidos na extremidades.
► Homo erectus
- Raspadores, lanças.
► Homo sapiens
- Instrumentos mais perfeitos tendo como base lascas de pedras.
► Homo sapiens sapiens
- Raspadores, buris, lâminas, pontas de lança, arpões, furadores, propulsores.
III. Descoberta e utilização do fogo.
Os homens do período paleolítico conheciam o fogo e as suas utilidades mas não sabiam produzi-lo.
A utilização do fogo permitia:
♦ Produzir luz;
♦ Manter os animais afastados;
♦ Cozinhar alimentos;
♦ Endurecer as pontas das setas;
♦ Obter calor.
§ Os grandes caçadores
I. Atividades coletoras e a caça.
As mulheres colhiam: Frutos silvestres, tubérculos e vegetais.
Os homens caçavam: Bisões, mamutes, veados etc.

II. Alargamento da áreas habitadas.
Técnicas mais vançadas →mais caça → melhor alimentação → aumento da população → povoamento de outras regiões.
► Eram nômades;
► Utilizavam a linguagem oral;
► Divisão sexual do trabalho.
× Neolítico
Agricultores e pastores
10000 a.C → Mudanças climáticas → Subida da temperatura
→ Derretimento de geleiras em certas regiões
→ Determinadas regiões tornaram-se férteis (vale dos grandes rios)
I. Economia de produção e progresso técnicos
Regiões com bom clima e férteis (ex: Crescente Fértil) → Fixação dos homens (aldeamentos)
desenvolvimento da agricultura
desenvolvimento do pastoreio
Tecnicas Acumulação de excedentes
Economia de produção

→ A agricultura surgiu à cerca de 10.000 a.C
→ Domesticação de animais (mesmo período)
Desenvolvimento das técnicas
Polimento
Cestaria
Tecelagem
Cerâmica
II. Formação de aldeamentos

Agricultura e criação de gado → sedentarização (► aldeamentos) → melhoria da alimentação → aumento da produção
III. Cultos agrários
» Culto da deusa-mãe → da natureza
» Culto aos mortos
IV. Revolução Neolítica
╠ Agricultura;
╠ Sedentarização;
╠ Culto aos mortos;
╠ Aldeamentos;
╠ Diferença social;
╠ Divisão do trabalho
╠ Economia de produção;
╠ Aparecimento das técnicas
╠ Criação de excedentes
Após a elaboração do esquema-resumo no quadro demos início a uma tarefa bem lúdica, que foi encontrar (7) sete erros em um desenho em que o artista ao representar a vida cotidiana da sociedade paleolítica inseriu, provavelmente por não ter estudado, elementos do período Neolítico no seu desenho. Faça um comentário da atividade, dizendo se você gostou ou não.

Para a aqueles que terminaram a tarefa em sala e que encontraram todos os erros meus parabéns. ☺:) (Na próxima postagem publicarei o nome de vocês.)

☺ Para casa. Ficou combinado como atividades de casa a leitura das páginas 10,11,12,13,14 e 15 e a elaboração das atividades 9,10,12 e 26. → Na próxima aula faremos a correção dos exercícios e analisaremos a formação do Estado.

Dica: O Professor Michel em seu blog História Digital indica um excelente jogo sobre a Idade do Ferro, cujos objetivos são: "...fazer o jogador descobrir as habilidades necessárias para fazer fogo, assar pão, confeccionar roupas e sobreviver na Idade do Ferro." Para jogar é só acessar a página: http://www.historiadigital.org/2009/11/game-vida-na-idade-do-ferro.html

quarta-feira, 3 de março de 2010

CNEC: Aula - 03/03/2010 (8ª Série)

Na aula de hoje analisamos em um primeiro momento as transformações ocorridas com a vinda da Família Real Portuguesa e a construção de uma identidade nacional após o 7 de setembro e utilizamos como elemento norteador para o debate: O que é ser brasileiro hoje?, o que nos diferencia das outras nacionalidades?. Vimos também que a busca por uma “identidade" brasileira se relaciona com as tradições, com a religião, com a cultura e com a natureza e que esses foram os meios para a criação de uma identidade ideal, que se materializou no índio heróico e em uma natureza paradisíaca e que tudo isso foi elaborado anteriormente e externamente com o Romantismo.
Ainda nesse primeiro momento, discutimos porque o negro e o branco não se tornaram heróis da nação brasileira, através de um texto de Willian R. Cereja e Thereza C. Magalhães, extraído do livro Literatura Brasileira logo após fizemos uma atividade sobre a questão e que foi completada com uma análise dos diversos grupos sociais que compunham a sociedade brasileira no final do século XIX.
Fechamos a aula com uma rápida análise da poesia engajada e a sua contemporânea: a música engajada elaboramos também uma linha do tempo relacionada ao Período Imperial brasileiro e realizamos uma série de exercícios do final do capítulo – 11, 12, 14 e 15 e para casa, além dos trabalhos, ficaram os exercícios 17, 18, 21, 24, 25, 26 e 27.
Para isso foi pedido o trabalho onde os alunos deveriam ouvir uma série de músicas para relacioná-la com as características da poesia engajada, que seria "aquela que é escrita em prol de uma causa política ou ideológica, procurando conscientizar a população e despertar a contestação” Sistema de Ensino CNEC, p. 14. E cuja data para entrega é 24/03. Outro trabalho, esse em grupo, para a mesma data é a atividade 6 da página 10 do seu livro didático.
As letras e músicas são:
Veraneio Vascaína
Para não dizer que não falei de flores
http://letras.terra.com.br/charlie-brown-jr/64460/
A carne
500 Anos
Colégio Público
Os conceitos trabalhados na aula foram:
* Identidade;
* Realismo;
* Revolução Industrial;
* Doutrinas Sociais.

Temas importantes:
* Lei Eusébio de Queiroz;
* Lei de Terras;
* As transformações da vida humana após a Revolução Industrial;
* As características e objetivos do Realismo;
* OS diversos grupos sociais.
Gabarito:
11 Letra C - V-F-V-V-F
12 Letra C - 22
14 Letra C - A abolição da escravatura foi concretizada em 1888, com a Lei Áurea. No entanto, leis anteriores, como a Lei Eusébio de Queirós, a Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários, melhoraram as condições de vida da maioria dos negros, tornando a abolição dispensável.
15 Letra E - 62

segunda-feira, 1 de março de 2010

Cinema e História - A Guerra de Tróia.

O texto abaixo foi extraído da Revista Superinteressante é será utilizado para que possamos fazer uma comparação com o filme assistido em sala, as discussões surgidas em sala e os textos postado no blog - abaixo.
http://ateliedehistoria.blogspot.com/2009/11/troia.html
Trabalho individual
Valor: 3 pontos.
Data de entrega: 18/03/2010
Turma(s): 2° e 3° Anos do Ensino Médio

Tróia
A Guerra de Tróia não foi travada por deuses e semideuses,como diz a lenda. Mas, embora não tenha passado de um combate duro entre homens que sangravam e morriam, pode ter significado a destruição de um mundo e o nascimento de outro
por Reinaldo José Lopes
Na imaginação dos gregos, o destino do mundo foi decidido diante das muralhas de
Tróia. Até os deuses desceram do Olimpo e derramaram seu sangue na tentativa de defender ou arrasar a cidadela do rei Príamo. Como nós fazemos hoje com o nascimento de Cristo, a história humana passou a ser medida em anos antes e depois da Guerra de Tróia. Aquiles, Heitor, Ulisses, Enéias viraram a medida do que é ser um herói, os nomes que toda criança aprendia a admirar e imitar.
Claro, não há a menor garantia de que esses sujeitos tenham existido, muito menos a linda Helena, o sedutor Páris ou o marido traído Menelau. No entanto, cada vez mais fica claro que algo grande realmente aconteceu naquela esquina da
Europa com a Ásia, onde hoje está a Turquia – talvez o estopim de uma explosão que pôs fim ao mundo como os povos antigos o conheceram por milênios e deu origem ao mundo no qual vivemos. Uns 50 anos depois que
Tróia caiu, praticamente todas as grandes cidades na orla do Mediterrâneo oriental ou tinham virado cinza ou passavam pelo pior aperto de sua história. A confusão encerrou de vez a longa Idade do Bronze e o poderio dos impérios da época. Há quem diga que a catástrofe tenha sido mais marcante que a queda de Roma. O que sobrou no lugar continha, entre os escombros, as sementes das idéias que formaram nossa civilização – a filosofia grega, o judaísmo e o cristianismo, a noção de democracia, a valorização do indivíduo. Enfim, a cultura ocidental.
A lenda
Reconstruir a
guerra depois de 3 200 anos (ela deve ter acontecido no fim do século 13 a.C.) é tarefa para semideuses. Melhor avisar logo: não se sabe o que aconteceu lá. A Ilíada de Homero, um dos grandes livros da história, no qual foi baseada a superprodução Tróia, que estréia no cinema este mês, não ajuda muito. Homero, se é que existiu (veja o quadro na página 54), nem viu o conflito. Ele teria composto a Ilíada e a Odisséia (outro épico, que narra a jornada de volta de um soldado após a guerra) mais de 400 anos depois dos combates, baseando-se em relatos orais. Ou seja, a Ilíada não é um documento histórico confiável – além de se limitar a 40 ou 50 dias de um conflito de dez anos.
Para benefício de quem não está com pique para encarar os milhares de versos da Ilíada, aqui vai um resumo. Tudo começa no casamento do herói Peleu com a deusa Tétis, ao qual compareceram em peso as divindades do Olimpo. Éris, a deusa da discórdia, foi à festa com uma fruta de ouro que levava a inscrição “à mais bela”. Instaurou-se a ciumeira entre as três principais deusas: Afrodite (do amor), Atena (da sabedoria e da
guerra) e Hera (a mulher do chefão Zeus). Todas queriam a fruta e acabaram escolhendo como juiz um mortal, o pastor troiano Alexandre, que tinha fama de honesto.
O trio tentou subornar o coitado. Hera lhe ofereceu o domínio sobre a Ásia, Atena prometeu sabedoria e Afrodite, o amor da mulher mais bela do mundo. Alexandre, que não era bobo, escolheu esta última e conquistou o coração da sensacional Helena. Ganhou também o ódio das duas poderosas preteridas, que infernizariam sua vida. Outro problema: Helena era casada. E casada com um rei, Menelau, de Esparta. Alexandre, que descobriu ser o filho desaparecido de Príamo, rei de
Tróia, e adotou o nome de Páris, deu um jeito de visitar Menelau e, quando o marido saiu do palácio por uns dias, convenceu Helena a fugir com ele. Acontece que Helena tinha sido a mulher mais disputada da Grécia. Antes que seu pai decidisse com qual homem ela iria casar, todos os nobres que a cortejavam juraram proteger a honra dela e de seu marido, fosse ele quem fosse. Menelau e seu irmão, o poderoso Agamêmnon, rei de Micenas, inflamados pelas deusas ciumentas, se aproveitaram do juramento para arrastar os gregos para a briga. Todos os gregos.
Assim começou a
guerra. Depois de uma década de cerco e da morte de muitos heróis, Tróia parecia inexpugnável. Aí os gregos deixaram um cavalo de madeira às portas da cidade, que os troianos aceitaram como uma proposta de paz. Dentro do cavalo estavam os melhores guerreiros gregos, que abriram os portões da cidade. Os troianos foram massacrados.
Óbvio que a história não é 100% verdadeira. Ainda assim, há alguma verdade nela. Parece que o autor que compôs o texto estava em contato com tradições orais que vinham desde a época da
guerra. O poema menciona capacetes feitos com presas de javali e escudos com a forma do número 8. A arqueologia mostrou que os gregos do tempo da guerra realmente usavam esses instrumentos, já abandonados na época de Homero. Mas a Ilíada mistura esses acertos com referências à cremação e ao uso do ferro, inexistentes entre os gregos de 1200 a.C.
De quebra, apesar de três grandes escavações no local onde ficava
Tróia, uma das quais em curso enquanto você lê este texto, só foi achado na cidade um mísero documento – e não é dos mais esclarecedores, já que a inscrição se limita a dois nomes de pessoa. O jeito é comer pelas beiradas, usando cada caco de informação confiável das regiões vizinhas para entender o mundo em que Tróia se encaixava.
O mundo
Dá para definir o período anterior à
Guerra de Tróia com uma palavra: “estável”. Vigorava a Idade do Bronze, período cujo início se confunde com o aparecimento das civilizações urbanas e letradas do Oriente Médio, uns 3 500 anos antes de Cristo. Alguns impérios dividiam entre si o controle do mundo civilizado. No lugar onde estava Tróia, os donos do poder eram os hititas. Bem mais ao sul, quem mandava eram os faraós egípcios. Entre hititas e egípcios, onde hoje é a Palestina, havia, para variar, uma zona de litígio, disputada pelos dois impérios (naquela época, ela devia obrigações aos faraós). A oeste, pessoas que falavam uma forma arcaica de grego viviam sob o domínio de alguns reinos, sendo o maior o da cidade de Micenas, perto de Esparta – daí o fato de esses gregos anteriores à Grécia serem conhecidos por “micênicos”. A leste estava a Mesopotâmia, disputada entre assírios e babilônios.
Esses eram os Grandes Reinos. E todos eles tinham algumas coisas em comum. Para começar, eram privilégio para bem poucos. Soberanos inatingíveis viviam em meio ao luxo, protegidos por um punhado de guerreiros de elite que lutavam sobre carros de
guerra – uma versão antiquada das bigas romanas. Esses senhores dependiam de uma casta burocrática, a dos escribas, os únicos capazes de decifrar os complicados sistemas de escrita da época. Os escribas controlavam toda a contabilidade dos reinos e regiam o comércio de trigo, azeite, cerâmica e, claro, dos metais – cobre e estanho, usados para fazer o bronze das armas, que acabou dando nome à era. Fora das capitais suntuosas e de seus palácios, a população miserável se espalhava por territórios mal demarcados. Para as elites, esses pobres quase não eram considerados gente. Para os pobres, a elite tinha um quê de divina.
No que dependesse da vontade dos governantes, essa situação podia durar para sempre. No entanto, à medida que o século 13 a.C. se aproximava do fim, a destruição se espalhou pelo Oriente Médio.
Tróia foi só a primeira a cair. “Todos os sítios importantes que conhecemos na Anatólia sofreram algum grau de destruição nessa época”, afirma o historiador americano Robert Drews, pesquisador da Universidade Vanderbilt e autor de The End of the Bronze Age (“O Fim da Idade do Bronze”, sem versão em português).
Mas a destruição não se limitou à Turquia. Os palácios de Tebas, Micenas, Pilos, Tirinto e Iolcos, supostamente os vencedores da
Guerra de Tróia, queimaram em seguida. Idem para Canaã, vassala do Egito, onde depois surgiria o reino de Israel. Os próprios faraós escaparam por um triz várias vezes e nunca se recuperaram do baque. Era o fim da Idade do Bronze e o começo da Idade do Ferro. Não foi só o metal que mudou – mudou tudo. Se a Idade do Bronze foi a dos aristocratas, a do Ferro foi a do homem comum. O que contava não eram mais os guerreiros de elite em carros puxados por cavalos, mas bandos de soldados a pé, que dependiam da coesão e do número para vencer. O mundo deixaria de ser dos nobres, escribas e guerreiros para dar lugar a novos personagens. Com o tempo, a democracia surgiria na Grécia e as nascentes religiões semíticas iriam voltar-se para a salvação do indivíduo, em vez de cuidar apenas das elites de escolhidos, como faziam as antigas crenças, das quais a egípcia é o exemplo mais famoso.
Sabe-se que a Idade do Ferro nasceu no rastro de uma devastação, mas os historiadores ainda discutem o que a teria causado. Uma tese antiga mas que tem ganhado força recentemente é a de que uma horda de invasores tenha sido o fator preponderante. Nas inscrições dos faraós egípcios Merneptah e Ramsés III, representantes da velha ordem, esses invasores são identificados como “estrangeiros, de todas as terras do Norte”. Eram povos com nomes aterrorizadores como Lukka, Shardana, Shekelesh, Tursha... E Ekwesh, que muitos pesquisadores consideram equivalente a “aqueus” – o nome mais usado por
Homero para designar os gregos que foram a Tróia.
Os troianos
Até não muito tempo atrás, havia quem questionasse a própria existência da cidade. Na falta de qualquer indício confiável, a
guerra era assunto mais para estudiosos de literatura que para historiadores. Foi só na segunda metade do século 19 que um alemão apaixonado pelas duas coisas – história e literatura – revelou que poderia haver verdade por baixo da lenda. Heinrich Schliemann (1822-1890), fanático por Homero e arqueólogo autodidata, foi buscar pistas da localização de Tróia nos versos da Ilíada. Leu também relatos de turistas famosos, como o imperador macedônio Alexandre Magno, que visitou as ruínas atrás de inspiração no século 4 a.C., antes que elas fossem esquecidas. Em 1871, ele descobriu que uma pequena elevação chamada Hisarlik (“forte poderoso”, em turco), não muito longe da atual Istambul, era o local mais promissor para encontrar o palco da guerra. Dito e feito. Schliemann encontrou Tróia.
O alemão talvez tenha posto a perder material valioso ao rasgar uma trincheira no monte que havia se formado depois de milênios de ocupação. Mas valeu a pena: nove cidades sucessivas, uma embaixo da outra, surgiram na trilha da picareta. Os historiadores batizaram as cidades com números romanos, contados de baixo para cima desde a mais antiga –
Tróia I – até a mais nova – Tróia IX (veja mais detalhes no infográfico da página 52). As escavações continuaram com Carl Blegen, da Universidade de Cincinnati, Estados Unidos, nos anos 1930. E quem retomou o trabalho desde 1988 foi o alemão Manfred Korfmann, da Universidade de Tübingen.
A sexta cidade em Hisarlik,
Tróia VI, que a maioria dos estudiosos de hoje identifica como a Tróia da guerra, parece ter sido fundada por volta de 1600 a.C. Os arqueólogos que escavaram o local encontraram ossadas de cavalos e representações artísticas desses animais. São indícios de que os troianos foram guerreiros temíveis – os cavalos eram uma arma de guerra importante no mundo antigo e Tróia parece ter sido uma das primeiras cidades da Ásia Menor a domesticá-los. Não foi à toa, portanto, que o apelido dado por Homero aos troianos e a Heitor, maior herói deles, era hippodamoi, “domadores de cavalos”.
As ocupações e reocupações sucessiva do lugar desde 3000 a.C. são prova da sua importância. “A posição de
Tróia era estratégica para a navegação que atravessava do Mediterrâneo para o mar Negro”, afirma a arqueóloga Elaine Hirata, da USP. As costas do mar Negro eram excelentes para o plantio de trigo. “Era muito difícil para os barcos fazerem a travessia, em razão das correntezas e do regime dos ventos, que sopram na direção contrária justamente na época em que o clima está propício à navegação, de abril a setembro”, diz o historiador brasileiro Rivan dos Santos, da Universidade de Grenoble, França, especialista na derrocada da Idade do Bronze. Provavelmente, o único jeito de cruzar era procurar abrigo em Tróia até os ventos ficarem favoráveis. É de se imaginar que os troianos cobrassem caro por esse valor estratégico – e que outros povos, como os gregos, exportadores de cerâmica e compradores de trigo, invejassem aquela posição privilegiada.
Tróia ficava próxima da capital hitita, Hattusas – e é possível que fosse um reino vassalo desse império poderoso. Um tratado do rei hitita Muwattalli II, que governou entre 1290 e 1272 a.C., menciona uma tal “terra de Wilusa”. Para Korfmann, esse nome poderia ser uma versão da palavra grega Wilios – ou Ílios, outro nome de Tróia (daí é que vem “Ilíada”). Mais do que isso: o documento hitita se refere ao rei de Wilios, um certo Alaksandu. O nome pode designar Alêxandros – ou Alexandre. Ou seja, o mesmo nome do príncipe Páris, raptor de Helena.
Nos últimos anos, Korfmann diz ter encontrado cada vez mais vestígios de que
Tróia VI era mesmo uma potência regional. Além das muralhas de imensos blocos de rocha e torres de 20 metros que protegiam a residência do soberano e dos nobres, conhecidas desde as escavações de Schliemann, Korfmann achou uma cidade baixa, com casas mais humildes, mas também defendidas por um fosso e, talvez, uma segunda muralha. Sinais de que Tróia era importante e bem defendida.
Ou seja, é plausível imaginar que os micênicos estivessem mesmo interessados em conquistar aquele entreposto estratégico e, com isso, dominar as rotas comerciais que iam até a Ásia. E, se eles se aventuraram nessa briga, é bem provável que tenham tido que enfrentar uma longa e desgastante
guerra, tal o poderio militar da cidade atacada. Tudo do jeitinho como Homero contou.
Os Gregos
Sabe-se que o contato dos troianos com os gregos deve ter sido freqüente. Os micênicos exportaram sua bela cerâmica para
Tróia por gerações – como comprovam cacos dela encontrados nas escavações – e, segundo Rivan, há indícios de uma rivalidade entre os dois povos. “Cartas diplomáticas encontradas em Hattusas mencionam um país chamado Ahhiyawa. Esse termo pode designar Acaia, a terra dos aqueus – como Homero chama os gregos. Os documentos mencionam combates entre os vassalos hititas e o rei desse país”, afirma o pesquisador.
Uma possibilidade, portanto, é que
Tróia tenha caído numa escaramuça entre dois povos palacianos, típicos da Idade do Bronze. Robert Drews discorda. Ele acha que os gregos que chegaram à Ásia não tinham muita relação com os palácios ou com os reis. Quase ao mesmo tempo em que Tróia, o palácio micênico de Tebas também foi arrasado e queimado. E uma geração depois foi a vez de Micenas e dos outros centros gregos de poder. Ou seja, os micênicos tinham seus próprios problemas internos, não é de se esperar que eles estivessem em condições de guerrear do outro lado do mar.
Mas, se os palácios da
Grécia não estavam em condições de guerrear, quem invadiu Tróia? Drews propõe uma explicação: pode ser que os agressores não fossem os aristocráticos moradores de Micenas e Pilos, no sul da Grécia – os reis, os nobres, os guerreiros de elite. Os invasores podem ter sido gregos bem diferentes, vindos das periferias dos reinos, o norte e o oeste da Grécia. Esses homens, incultos e analfabetos, falavam um outro dialeto, viviam num estado quase bárbaro, indiferentes à elite e à ordem da Idade do Bronze, e talvez fossem parte de uma grande onda migratória que fugia da pobreza. Como os bárbaros que demoliram Roma dois milênios depois, eram homens pouco sofisticados. E, como eles, podem ter começado a encerrar uma era. Se acreditarmos na tese de Drews, os gregos eram a Idade do Ferro chegando.
A
Guerra
Na história de Homero, os heróis se encaravam, faziam desafios e tentavam atingir o inimigo à distância, atirando suas lanças. Às vezes a arma enganchava no escudo, às vezes atravessava com tudo os dentes e a boca do adversário, deixando-o no chão antes que pudesse reagir. Volta e meia algum dos lutadores, quase sempre troiano, dispara seu arco, mas Homero gosta mesmo é da batalha com armas de mão. Quando não tinha outra lança à mão para brigar no corpo-a-corpo, o guerreiro desembainhava a espada. Foi o que fez Heitor, o mais corajoso dos troianos, ao enfrentar sozinho Aquiles quando todos os seus conterrâneos haviam corrido para dentro da muralha. Conta a Ilíada que o escudo do herói grego rebateu o golpe. Aí Aquiles enfiou a lança no pescoço de Heitor, na brecha entre o capacete e a couraça, e encerrou as aventuras do troiano.
O importante nisso é que, no geral, gregos e troianos da Ilíada lutam do mesmo jeito. Nos dois exércitos, os carros servem apenas para levar ou trazer os combatentes, que se enfrentam a pé, usando pesadas armaduras, escudos redondos, lanças e espadas de bronze. Para Drews, essa é uma das imprecisões de
Homero – ele está convicto de que havia mais diferenças entre gregos e troianos do que o poeta podia supor. A vitória grega seria a primeira de muitas causadas por uma revolução na arte de guerrear. Os Grandes Reinos e seus satélites, como Tróia, tinham dependido dos seus carros de guerra em combate: enquanto um guerreiro controlava os cavalos, outro usava a carruagem como uma plataforma móvel que lhe permitia despejar uma chuva de flechas sobre o inimigo. Era assim que tanto os faraós quanto os reis hititas eram retratados em combate. Provavelmente foi assim que os troianos enfrentaram os gregos – daí sua fama de “domadores de cavalos” e a história de que Páris teria matado o quase invulnerável Aquiles com uma flechada no calcanhar.
Acontece que os carros de
guerra logo se mostraram frágeis diante das novas armas que os “bárbaros” se puseram a usar contra eles no fim do século 13 a.C., quase todas vindas do norte, do interior da Europa. Eram espadas longas de gume cortante, que serviam não só para espetar, mas também para fatiar o inimigo; escudos redondos que eram a combinação perfeita entre mobilidade e proteção; dardos leves e mortíferos, para qualquer homem lançar, sem a necessidade de um carro de guerra. Pode ser que os gregos lutassem assim. E, o que é importante, eles talvez brigassem em grandes bandos – já não vigorava mais a velha ordem da Idade do Bronze, na qual apenas uma elite de guerreiros combatia. Não dá para saber se um cavalo de madeira sacramentou a vitória ou não – sobre esse assunto a arqueologia não tem nem sequer um indício que sirva para confirmar ou derrubar a história de Homero. Mas é provável que a nova forma de lutar e de se organizar tenha pesado mais que qualquer artifício para decidir a guerra.
Homero não fala disso. Ele fala de amor, de honra, de vaidade e do poder dos deuses. A Ilíada não é documento histórico, mas virou a peça mais importante da cultura grega – e, como tal, acabou fazendo história. “A Ilíada e a Odisséia tornaram-se uma espécie de enciclopédia e guia. Eram a Bíblia dos gregos”, afirma André Malta Campos, professor de língua e literatura grega da USP. Os heróis homéricos inspiraram a ética e a filosofia que nasciam. O filósofo Sócrates, 800 anos depois da guerra, ao enfrentar a condenação à morte, invocou a sombra de Aquiles, o guerreiro que preferiu a morte gloriosa à vida vergonhosa. E, das cinzas da Canaã egípcia, não mais que dois séculos após a queda de Tróia, Davi cantou seus salmos e os profetas de Israel anunciaram um novo Deus, aquele mesmo que conduziria judeus, cristãos e muçulmanos rumo aos dias de hoje. A guerra pode não ter sido travada pelos deuses, como cantou Homero. Ainda assim, os destinos do mundo parecem ter mesmo sido decididos diante das muralhas de Tróia.

Para Saber mais
Na livraria:
Tróia, Claudio Moreno, L&PM, 2004
A Ilíada,
Homero (trad. de Haroldo de Campos), Arx, 2003
The End of the Bronze Age, Robert Drews, Princeton University Press, EUA, 1996

Gente que fez
Os principais personagens da Guerra de Tróia
Helena
A linda rainha tinha sangue divino – era filha de ninguém menos que Zeus, que virou um cisne para se unir à mãe dela, Leda. Helena virou a cabeça até do velho Teseu, o matador do Minotauro, que a raptou quando menina, mas seus irmãos conseguiram salvá-la
Páris
Na infância, um oráculo predisse que o príncipe seria a destruição de
Tróia, e por isso seus pais o abandonaram para morrer. No entanto, um pastor salvou o menino. Páris cresceu, meteu-se numa confusão com os deuses, raptou Helena e... acabou cumprindo a profecia
Heitor
Esse príncipe troiano, quase tão corajoso quanto o rival Aquiles, pôs uma pitada de drama familiar na Ilíada, por meio de seu tocante relacionamento com a esposa Andrômaca e o filho Astíanax. A morte heróica de Heitor, lutando contra Aquiles,é o clímax do poema
Aquiles
As vantagens do herói beiravam a covardia. Além de ter sangue divino, foi educado por um centauro, usava armadura forjada pelo ferreiro do Olimpo e ficou invulnerável ao ser mergulhado num rio mágico. Bem, quase invulnerável: o calcanhar ficou de fora do banho
Odisseu
Se Aquiles era insuperável na porrada, ninguém vencia Odisseu (ou Ulisses) em esperteza. O rei da ilha de Ítaca até que se virava no campo de batalha, mas foi sua idéia do cavalo de madeira que fez sua fama. Seu retorno para casa é tema do poema-irmãoda Ilíada, a Odisséia
Príamo
Nobre e generoso, o rei de
Tróia pagou caro por ter esquecido os oráculos e acolhido Páris depois de descobrir que ele era mesmo seu filho. Quando Páris seqüestrou Helena, Príamo, assim como todos em Tróia, ficou tão encantado com a moça que nem questionou o rapto
Agamêmnon
O comandante da armada grega era rei de Micenas e, portanto, o soberano mais poderoso da
Grécia. Ele não hesitou em sacrificar a própria filha à deusa Ártemis para garantir ventos favoráveis na jornada. Sua ambição fez com que ele entrasse em conflito com Aquiles
Menelau
Não foi à toa que o pai de Helena escolheu Menelau como genro. O guerreiro vinha da família mais poderosa da Grécia. Apesar de ser retratado como um combatente corajoso na Ilíada, sua imagem mais freqüente é mesmo a de um banana – ou corno, se você preferir

Quem era quem
Assim era o mundo em 1200 a.C. quando estourou a guerra
PODER NO TOPO
Na
Grécia e nas ilhas do Egeu já se falava uma língua ancestral do grego. Os reinos eram comandados por palácios, quase sempre no alto de montanhas
PONTO-CHAVE
Tróia, estrategicamente posicionada, ficava na área de influência do império hitita. Mais ao sul era território egípcio
TROCA-TROCA
As famosas cerâmicas gregas eram vendidas na orla do mar Negro e os comerciantes traziam de lá produtos agrícolas. Essa rota comercial era controlada por Tróia

As nove cidades
Conheça as nove Tróias encontradas pelos arqueólogos
Quando o arqueólogo Heinrich Schliemann chegou a Hisarlik, na Turquia, viu um monte. Ao começar a cavar, comprovou o que já desconfiava: não foi a natureza que ergueu aquela montanha, foram os homens. Ao longo dos milênios, sucessivas cidades foram nascendo e morrendo naquele lugar, cada uma assentada sobre os escombros da anterior. Na ilustração acima, um corte do morro, você pode ver as nove Tróias, que estão representadas nestas duas páginas.
Tróia I
A primeira ocupação é de 3000 a.C. e corresponde a uma vila que acabou de sair da Pré-História. Já aparecem objetos de cobre e há um começo de muralha
Tróia II
Quinhentos anos depois, surge uma cidade digna do nome, com muralhas de 8 metros de altura.O tesouro encontrado levou Schliemann a acreditar que esta era a
Tróia de Homero
Tróia III
Sobre os escombros de
Tróia II, surgiu outro assentamento, que durou um século. As casas são mais simples, mas há abundância de carne de caça na dieta
Tróia IV
Uma cidade também mais simples que
Tróia II, porém não tanto quanto Tróia III. Frutos do mar e tartarugas entram no menu e os fornos tornam-se mais sofisticados
Tróia V
Uma cidade mais rica que as Tróias III e IV. E também mais limpa – os habitantes perderam a mania de jogar cerâmica e restos de comida no chão, como comprovam as escavações
Tróia VI – A da guerra
Hoje em dia, a maioria dos estudiosos concorda que esta é a Tróia da Ilíada. Há sinais de que ela tenha sido destruída num incêndio
Tróia VII
Parece ser na verdade a mistura de duas ocupações.
Tróia VII-a seria uma reconstrução mais humilde de Tróia VI, enquanto Tróia VII-b teria sido erguida por imigrantes europeus
Tróia VIII
Colônia fundada por gregos no século 7 a.C., que incluía um templo para Atena erguido no lugar onde o relato de
Homero dizia que havia um. Durou até o início da era cristã
Tróia IX
Cidade romana que pode ter se beneficiado de uma espécie de “turismo histórico” por causa da fama da Ilíada. Foi abandonada por volta do século 5 de nossa era
Casas vazias
Descobertas recentes mostram que havia casas fora das muralhas. Durante o cerco grego, os moradores delas devem ter se mudado para dentro da cidadela fortificada
Multidões de soldados
Segundo a Ilíada, mais de 100 mil gregos invadiram
Tróia. Esse número parece improvável – registros de grandes batalhas da mesma época raramente mostram exércitos de mais de 10 mil homens
Flechas contra lanças
Os troianos eram arqueiros famosos, e por isso lutavam à distância. Isso deve tê-los ajudado a proteger a cidade. Já os gregos lutavam com lanças e preferiam o combate corpo-a-corpo

Gênio inexistente?
Homero, o maior autor grego, pode não ter existido
Na Antiguidade, pouca gente duvidava da existência de
Homero. Segundo as tradições mais aceitas então, ele teria sido um rapsodo (literalmente “o que costura o canto”, em grego) cego e itinerante que cantou seus versos por todas as colônias gregas da Ásia por volta do século VIII a.C. A crítica moderna, no entanto, logo começou a notar no texto problemas de continuidade que deixariam corado qualquer roteirista de Hollywood. “Em certo momento um herói troiano morre, mas ele acaba reaparecendo lá na frente”, conta o professor de grego André Malta Campos. Essas incoerências davam a impressão de que o texto era uma colagem de várias narrações, talvez composto ao longo dos séculos por uma infinidade de autores. O indício mais forte disso veio nos anos 1920, quando o lingüista americano Milman Parry mostrou que os versos homéricos eram baseados sem fórmulas que se repetiam e que ajudavam na memorização. Ou seja, o texto não tinha um estilo pessoal único, era tributário de uma tradição oral antiqüíssima, que talvez remontasse até a época da guerra.
Fonte: http://super.abril.com.br/historia/troia-444496.shtml