Vida de professor da rede pública

Súplica Cearense

terça-feira, 1 de março de 2011

Resenha do livro Caim de josé saramago


Caim, por Juan Arias

Não é tarefa fácil permitir-se ironizar, de forma irreverente e até mordaz, o único livro considerado Patrimônio da Humanidade, como é a Bíblia, cuja etimologia significa “O livro”, por antonomásia, a grande novela do mundo, a mais traduzida de todas as publicações da História. José Saramago se atreveu a fazê-lo em seu novo romance, “Caim” (Companhia das Letras), que “não deixará indiferentes os leitores”, como afirmou sua mulher, Pilar del Rio. E ele o fez com a força literária que caracteriza suas obras.
Se tudo é permitido à ficção, mais ainda ao Nobel português, que nos tem presenteado sempre com uma literatura enraizada na vida, comprometida com os ataques à injustiça, capaz de fazer sangrar as palavras como em “Ensaio sobre a cegueira” ou este “Caim”, onde o escritor pretende acertar contas com deus — assim mesmo, grafado em minúsculas durante todo o livro. Curiosamente, o faz com um deus que ele mesmo afirma existir apenas na fantasia dos homens, uma invenção literária de todos os tempos. Poderíamos perguntar-lhe então por que voltou, depois de 20 anos, desde seu polêmico “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, a confrontar-nos de novo com a não existência de deus, a quem ele mesmo disse que não invocaria nem no momento da própria morte, porque nada teria a pedir.
É que Saramago é assim: o rei da polêmica e da ironia. Ele gosta de provocar. Existe e quer que o notem. Escreve em relevo, sobre pedra dura. Como nesta novela em que acusa deus de ter desprezado os sacrifícios que Caim lhe oferecia para preferir os de seu irmão Abel. Seria o deus caprichoso e injusto da Bíblia, aquele que se diverte expulsando Adão e Eva do Paraíso por terem querido conhecer o bem e o mal.
Chamam a nova obra do Nobel português de uma “reivindicação de Caim”. É e não é. Em todo o texto, no qual Caim é protagonista e narrador das atrocidades do deus bíblico, o irmão de Abel não nega seu crime e aceita sua vida errante como uma espécie de castigo. Não aceita, contudo, ser mais criminoso e cruel que deus. Se ele matou seu irmão — segundo Saramago, na realidade ele queria matar deus — esse deus cometeu muitos mais crimes que ele: assassinou milhares de inocentes ao despejar fogo sobre Sodoma e Gomorra e chega à crueldade máxima de pedir a Abraão que mate seu próprio filho. A dialética de Caim com deus é impecável. Se eu pequei, tu pecaste mais. Se eu matei meu irmão, tu mataste, ou mandaste matar, a muitos mais.
Mais do que a história romanceada de Caim, o escritor aborda em seu livro o absurdo de um deus que na Bíblia aparece mais cruel e caprichoso que o pior dos homens. Claro que ele escolhe para a obra as passagens mais inexplicáveis e obscuras do Antigo Testamento, nas quais aparece a figura do deus terrível do Sinai, do deus que pede sangue para ser vingado e obedecido cegamente.
A Bíblia é uma história de um povo em busca de seu destino, no qual se misturam mitos, metáforas e fatos históricos. É o espelho da Humanidade com suas baixezas e seus esplendores. O melhor e o pior de deus e da história são concentrados nesse livro, que poderia ser a imagem plástica da complexidade do ser humano. Existe na Bíblia o Pentateuco, com um deus ciumento que expulsa Adão e Eva do Paraíso; o que confunde caprichosa e gratuitamente as línguas daqueles que constroem a Torre de Babel; ou manda matar os habitantes de cidades inteiras. Existe o livro do Eclesiastes, contra a vaidade humana, que poderia ter sido escrito pelo pessimista Saramago; ou o Cântico dos Cânticos, com sua força erótica, um canto à beleza do corpo humano e à sua sexualidade. Um livro libertador.
O autor de “Caim” escolheu os textos mais duros e polêmicos. É que Saramago não concebe uma literatura desencarnada, incapaz de provocar não apenas polêmica como também desgosto. Muitos, não apenas judeus, poderão se sentir negativamente surpreendidos com a forma com que o escritor trata a Bíblia e a seu deus.
Saramago não escreveu apenas novelas. Sempre esteve e, aos 87 anos, continua a estar presente na História a cada vez que se trata de defender a dignidade do homem, sua liberdade sacrossanta, seu direito de crer ou não crer. E ele tem razão em mostrar que na Bíblia existe também esse deus cruel e exterminador que tão bem descreve Caim. Esse foi o deus escolhido por ele para ser desmascarado em seu novo livro. Tem todo o direito. A literatura não admite censuras. Os cristãos poderão dizer que na Bíblia, escrita há mil anos, existe também o deus do profeta Isaías, mais preocupado com o homem do que uma mãe. Porém é ao deus cruel que Saramago pede explicações, um deus que, segundo ele, não pode existir porque não seria deus.
Em meu livro “José Saramago: O amor possível” (Manati), uma longa conversa com o escritor meses antes de seu Prêmio Nobel, ele já havia antecipado seu ceticismo sobre a existência de deus que, em “Caim”, se faz ainda mais patente. Disse: “Do meu ponto de vista há apenas um lugar onde existe deus, ou o diabo, ou o bem e o mal, que é na minha cabeça. Fora da minha cabeça, fora da cabeça do homem não há nada”. O homem e apenas o homem é, definitivamente, o deus de Saramago — o homem vítima dos poderes tirânicos, o homem humilhado pela religião, o homem escravo de seus mitos, começando pelo mito de Caim e Abel que Saramago converte num jogo literário.
O escritor resume muito bem em “Caim”, na página 87, o que para ele é este conflito entre deus e o homem: “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”.
Para Saramago, deus não é mais que um pretexto para que as religiões possam melhor escravizar a consciência humana. Com “Caim”, ele trata de deitar, literariamente, sobre o tapete do mundo, esta crua realidade. Ao mesmo tempo, e apesar de seu ateísmo, devemos a ele uma das definições mais poéticas da divindade: “Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio”, afirmou ele em certa ocasião. Afinal, deus não é para ele tão indiferente como possa parecer. “Caim”, definitivamente, é também um grito contra todos os deuses falsos e ditadores criados para amordaçar o homem, impedindo-o de viver, em total liberdade, sua vida e seu destino.

JUAN ARIAS é jornalista e escritor, autor de “José Saramago — O amor possível” (Manati), “A Bíblia e seus segredos” e “Jesus, esse grande desconhecido” (Objetiva)

3 comentários:

Redação & Vestibulares disse...

As obras de Saramago são o que há de melhor na literatura contemporânea.Sua resenha está excelente,muito bem colocada.Preciso ler agora é "El Último Cuaderno",lançamento póstumo previsto para este ano,anunciado por sua esposa Pilar.Parabéns pelo seu blog! Passo sempre por aqui!

Antonio Abreu disse...

Sempre vejo em Saramago um crítico do seu tempo. Essa crítica a tudo que é estabelecido o coloca na lista dos meus heróis. Considero o livro Caim como uma voz frente à herança judaico-cristã que o mundo recebeu, e para mim essa é a verdadeira intenção do escritor. Em meu blog já escrevi a respeito desse livro, um livro em que Saramago reivindica a liberdade que a religião, a política e as instituições insistem em tomar do homem. Para dizer isso ao mundo Saramago ousou desconstruir aquilo que mais dói no ego cristão: a Bíblia. Lendo Caim percebe-se que o deus de Saramago possui todas as características humanas, fazendo alusão a um deus inventado que percorreu séculos até nós.
Mas nada disso é de admirar, todos os livros do português são dotados de análises contundentes. Gostei do texto do Arias, apesar de parecer tomar o partido da religião, mas o importante foi sua bela interpretação, é interessante encontrar blogs como o seu assim... Um Abraço.

Anônimo disse...

Poderia escrever o que penso sobre essa obra baseando-se na literatura, entretanto, meu lado cristão é mais abundante. Essa obra indubitavelmente tem uma grande e fantástica estrutura, porém, em conteúdo és uma grande blasfêmia, e apenas quem presta-se a escrever um livro desse é porque não conhece quão grande és o amor de DEUS, ser cruel e ser 'justo' são definições completamente distintas. Bom seria, que o autor tivesse criticado o mundo e não o criador. Mary Gouveia/e-mail:adm.marygouveia@gmail.com